Ele dormiu no chão da própria escola na pandemia. Hoje, fatura R$ 20 mi ensinando inglês a famosos
Rede criada pelo brasileiro Leo Reis nos Estados Unidos cobra mensalidade de US$ 600, atende estudantes internacionais e preparada unidades em Dubai

O professor Leo Reis estudava inglês desde criança e dominava a gramática quando, aos 17 anos, fez um intercâmbio em Los Angeles e depois no Arizona. Ao chegar, descobriu que saber conjugar verbos não era suficiente para acompanhar uma conversa entre nativos.
À noite, passou a assistir ao talk show de David Letterman como um exercício: primeiro não entendia nada; depois reconheceu algumas palavras, começou a rir das piadas e, finalmente, conseguiu acompanhar o apresentador.
Décadas mais tarde, essa experiência se tornaria a base da American English Academy, rede de escolas que atende estudantes internacionais em quatro unidades nos Estados Unidos — Bridgeport, Miami, Boston e Orlando — e também mantém uma plataforma digital. A operação alcançará US$ 4 milhões (cerca de R$ 20 milhões na cotação atual) em faturamento em 2026, ante US$ 800 mil (cerca de R$ 4,1 milhões) de 2021, quando a rede foi criada.
“Quando voltei dos Estados Unidos para o Brasil, pensei que o problema do ensino estava na falta de listening (ouvir e entender)”, diz Reis. “Quem ouve, fala.”
A mensalidade das escolas presenciais na American English Academy é de US$ 600 (cerca de R$ 3,1 mil). Hoje, a empresa possui 29 funcionários.
O próximo passo é abrir uma escola em Dubai. Para equipar a unidade, o empresário estima um investimento inicial de US$ 50 mil (cerca de R$ 256 mil), além de US$ 10 mil (cerca de R$ 51 mil) em marketing. O Brasil também está nos planos, com uma primeira operação prevista para 2027.
Como Reis foi de professor a empreendedor
Criado em São Paulo, Reis teve o primeiro contato com o inglês dentro de casa. Seu pai, engenheiro da Eletropaulo (atual Enel), falava o idioma, o que despertou no filho o interesse pelo aprendizado ainda na infância. Depois do intercâmbio, ele cursou Letras e começou a dar aulas em Belo Horizonte, inclusive na Fiat e em escolas de idiomas. Mais tarde, foi para a Inglaterra fazer mestrado e teve contato com outras técnicas de ensino.
De volta aos Estados Unidos, passou a trabalhar em cursos, escolas e na Montclair State University, onde ensinou linguística. Foi nesse período que começou a estruturar uma metodologia com maior peso para a compreensão oral.
A tese de Reis é que muitos estudantes aprendem regras e vocabulário, mas recebem pouca exposição à velocidade, aos sotaques e às construções usadas em conversas reais. O objetivo de sua metodologia é reduzir essa distância entre o inglês estudado e aquele ouvido nas ruas, universidades e ambientes de trabalho.
Em 2019, ele deixou Nova York e foi para Miamiabrir seu próprio curso. A aposta, no entanto, quase terminou antes de ganhar escala. Um ano depois, Reis comprou uma pequena escola de inglês localizada em Stamford, em Connecticut. O proprietário pedia US$ 250 mil (cerca de R$ 1,28 milhão) pelo negócio. O brasileiro tinha apenas US$ 100 mil (cerca de R$ 512 mil) disponíveis e negociou o pagamento do restante em parcelas de US$ 50 mil (cerca de R$ 256 mil) a cada seis meses.
Dois meses depois, a pandemiafechou as escolas. Reis ainda morava em Miami, seu sócio decidiu interromper os aportes e a operação que ele acabara de adquirir precisava pagar aluguel e professores. O empresário afirma que preferiu não demitir a equipe. Sem dinheiro para manter também a própria moradia, pediu ao proprietário do prédio autorização para dormir na escola.
Durante cerca de cinco meses, transformou uma sala de aula em quarto improvisado. Tomava café da manhã e banho em um hotel que funcionava no mesmo prédio.
“Eu chorava todos os dias pensando em voltar para o Brasil”, diz. “Uma hora pensava que não precisava continuar dormindo no chão. Em outra, lembrava que queria fazer o meu primeiro milhão e que não podia desistir só por causa daquela situação.”
Para gerar renda, voltou a trabalhar para uma escola de Manhattan que havia ajudado a estruturar antes de empreender. Como os negócios estavam em cidades diferentes, conseguiu conciliar o emprego com a reconstrução da própria operação.
A pandemia também obrigou o professor a acelerar a frente digital. Em 2020, lançou o curso online American English Experience, hoje voltado principalmente ao público brasileiro.
Como Reis virou professor de inglês dos famosos
A virada na carreira ocorreu em 2021. A escola comprada por Reis operava sob a bandeira de uma franquia suíça e cobrava cerca de US$ 2 mil (cerca de R$ 10,2 mil) mensais. Ele decidiu abandonar a marca, mudar a unidade para Bridgeport e reduzir a mensalidade para US$ 600 (cerca de R$ 3,1 mil).
A cidade era mais simples do que Stamford e, segundo o empresário, tinha pouca oferta de escolas de inglês. Com uma estrutura de custos e preços diferente, a operação alcançou US$ 800 mil (cerca de R$ 4 milhões) em receita no primeiro ano sob a nova bandeira.
Antes de construir a operação nos Estados Unidos, Reis já havia encontrado um nicho entre celebridades brasileiras.
A primeira leva de alunos abriu caminho para indicações no esporte, na música e na televisão. Ao longo da carreira, ele afirma ter ensinado nomes como Neymar, Cafu, Felipe Melo, Egídio, Luciana Vendramini, Scheila Carvalho, Fernando & Sorocaba e Lauana Prado.
O relacionamento com atletas também se transformou em uma estratégia de entrada em clubes de futebol. Reis levou projetos de inglês para equipes como Santos, Grêmio, Atlético Mineiro e Goiás e passou a apoiar entidades esportivas.
A lista de personalidades funciona como ativo de reputação para o curso online no Brasil, mas o negócio presencial nos Estados Unidos atende principalmente estrangeiros de outras nacionalidades. Essa divisão permite que a empresa use a imagem construída no mercado brasileiro sem depender exclusivamente da comunidade de imigrantes do país.
Para 2026, a empresa está próxima de atingir US$ 4 milhões (cerca de R$ 20,5 milhões). Parte da estratégia de crescimento está concentrada nas unidades mais recentes, em Boston e Orlando. A empresa pretende intensificar ações locais, investir em tráfego pago e alcançar os estudantes antes mesmo de eles deixarem seus países de origem.
A lógica é aparecer nas pesquisas de estrangeiros que pretendem estudar nos Estados Unidos e precisam melhorar o inglês antes de ingressar em um college ou universidade.
“Temos alunos da Tailândia, do Equador, da Colômbia, do Japão, de Dubai e da Turquia”, afirma Reis. “Brasileiro é o que eu tenho menos nas escolas presenciais.”
Quais serão os próximos passos da empresa
Para o retorno ao Brasil, Reis pretende testar um formato diferente da sala de aula tradicional. O projeto, ainda em desenvolvimento, prevê seis cabines pelas quais o aluno avançará durante a aula. Na primeira, terá contato com a gramática. Depois, trabalhará vocabulário, textos, diálogos e compreensão oral. Apenas na última etapa encontrará um professor, presencialmente ou por vídeo, para tirar dúvidas e praticar conversação.
O conteúdo será dividido em 60 etapas. O estudante só poderá passar ao módulo seguinte caso demonstre que assimilou o anterior. Caso contrário, terá de refazer a sequência.
“Não quero aquele formato tradicional, com um professor e 15 ou 20 cadeiras”, afirma Reis. “O aluno estará sozinho nas primeiras cabines e, no final, terá um ser humano para tirar dúvidas e praticar a conversação.”
A estrutura procura combinar automação e presença humana. Ela também pode permitir que um número menor de professores acompanhe mais estudantes, embora Reis não tenha informado qual será a capacidade por unidade nem quanto pretende investir na abertura brasileira.
O curso online foi essencial para manter o negócio durante a pandemia, mas o empresário acredita que a próxima fase de crescimento passará novamente pelos espaços físicos.
Na avaliação de Reis, muitos alunos descobriram que a flexibilidade do digital vem acompanhada de uma exigência maior de disciplina. Sem horários, colegas ou professores por perto, parte deles abandona o aprendizado.
“Hoje está acontecendo um fluxo inverso”, diz. “As pessoas estão retornando às escolas físicas porque perceberam que estudar online exige uma disciplina muito grande.”
O plano da American English Academy é crescer nas duas frentes: usar o digital para alcançar brasileiros e preparar novos formatos, enquanto amplia a presença física em mercados com grande circulação de estrangeiros.
