Ele é o CEO da empresa mais valiosa do mundo — mas vai deixar o cargo em setembro
Tim Cook entrega o comando em setembro com a companhia avaliada em US$ 4,9 trilhões, de volta ao topo do mundo — e por ter feito exatamente o oposto do resto do setor

Há 15 anos, Steve Jobs renunciou à presidência-executiva da Apple e recomendou ao conselho, com ênfase, um único nome: Tim Cook, que à época era executivo de operações da empresa e cuidava da cadeia de suprimentos.
Quando Cook assumiu, a Apple valia cerca de US$ 348 bilhões. Ele deixa o cargo em 1º de setembro com a fabricante do iPhone avaliada em cerca de US$ 4,9 trilhões.
O sucessor é John Ternus, vice-presidente sênior de engenharia de hardware. Cook passa a ocupar a presidência executiva do conselho.
A transição foi anunciada em abril e confirmada por ele em 30 de julho, durante sua última teleconferência de resultados como presidente-executivo.
A companhia chega ao fim desse ciclo na mesma posição em que Cook a recebeu: no topo do ranking mundial de valor de mercado, agora tomado da Nvidia. E por um motivo que contraria a lógica do setor.
A empresa que ganhou por não gastar
Enquanto Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft e Oracle comprometiam mais de US$ 690 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial (IA) só em 2026, a Apple ficou de fora da corrida.
Foi tratada como perdedora por isso — e virou o veículo preferido de quem quer exposição à tecnologia sem financiar data center.
A ação acumula alta de 22% no ano, o melhor desempenho entre as Sete Magníficas. A Nvidia, do outro lado, opera cerca de 17% abaixo da máxima de 52 semanas, pressionada pelas dúvidas sobre o financiamento circular do setor.
O último balanço sob o comando de Cook trouxe receita recorde de US$ 109,42 bilhões, alta de 16%, e fluxo de caixa operacional de US$ 34,4 bilhões.
O legado é a margem, não o produto
Nenhum lançamento de sua gestão alcançou a dimensão do iPhone, criado antes de ele assumir. Cook nunca foi o homem do produto — e essa nunca foi a sua função.
Ele chegou à Apple em março de 1998, quando a empresa flertava com a falência, depois de 12 anos na IBM e passagens por Intelligent Electronics e Compaq. A especialidade era estoque, fornecedor e prazo de entrega.
O que construiu foi a máquina de margem em torno do aparelho, com serviços como Apple Pay, Apple TV+ e o relógio inteligente Apple Watch. Onde Jobs microgerenciava, Cook delegou e implantou cultura colaborativa.
Aos 65 anos, nascido em Mobile, no Alabama, é um dos executivos com mais tempo no comando de uma grande empresa do Vale do Silício.
A conta que sobra para o sucessor
Mas a herança deixada por Cook não é unicamente positiva.
Mesmo sem gastar em data center, a Apple paga a conta da IA pelo custo dos componentes. Um índice de preços à vista de memórias DRAM acumula alta superior a 840% desde o fim de agosto, e a memória responde por 10% a 20% do custo de fabricação de um smartphone, segundo a IDC.
A companhia elevou preços de vários produtos, mas manteve os do iPhone inalterados. A ação caiu 6,65% no pós-mercado após o último balanço, apesar dos números recordes.
Ternus entrou na Apple em 2001 e tem cerca de 50 anos — a mesma idade de Cook ao assumir. Liderou o desenvolvimento do iPhone e do iPad, e sua escolha recoloca um engenheiro de hardware no comando.
Cook afirmou que pretende permanecer no conselho por um longo período. Em 2011, a dúvida era se a Apple sobreviveria sem o homem do produto. Em 2026, é se ela consegue seguir vencendo sem entrar na corrida que move todo o resto da indústria.
