Ele entregava passagens pessoalmente. Hoje, o filho lidera empresa de turismo de R$ 2 bilhões
Fundada em 1982, a Copastur passou por uma sucessão entre pai e filho, ampliou seus negócios e aposta em inteligência artificial para crescer

Empresas familiares costumam enfrentar um momento decisivo quando a segunda geração chega ao comando. O desafio é equilibrar a experiência acumulada pelo fundador com a necessidade de mudar processos, adotar novas tecnologias e responder a um mercado que muda rápido.
Com uma troca entre pai e filho, a Biosfera Copastur, grupo de turismo que soma 25 empresas, teve um momento de modernização com a nova geração. Edmar Bull é o fundador e presidente da empres que passou o cargo de CEO para o filho, Edmar Mendoza Bull.
“Meu filho começou na empresa já conhecendo o nosso negócio, entrou na área de tecnologia que era a que mais o interessava, e trouxe ideias complementares com ferramentas que ainda não conhecíamos, mas que se encaixavam no que precisávamos”, afirma Edmar Bull.
Para os próximos anos, a Copastur aposta em uma estratégia baseada em tecnologia, inteligência artificial e expansão dos serviços oferecidos aos clientes corporativos. A companhia quer manter um crescimento anual próximo de 12% em receita e ampliar uma operação que já alcançou um Volume Global de Vendas (VGV) superior a R$ 2 bilhões.
Da agência de viagens ao ecossistema de soluções
Antes de fundar a Copastur, Edmar Bull já tinha contato com o setor de turismo. Aos 17 anos, começou a trabalhar em uma agência de viagens, onde aprendeu os fundamentos do mercado em uma época em que a operação dependia de relacionamento, conhecimento e capacidade de resolver problemas.
Em 1982, decidiu empreender e criou a Copastur em uma pequena sala no centro de São Paulo. O início foi marcado por incertezas e pela necessidade de conquistar clientes em um mercado ainda pouco digitalizado.
Em um período em que a operação dependia de relacionamento e soluções personalizadas, Edmar Mendoza Bull lembra que o pai chegou a entregar passagens aéreas físicas na casa dos clientes e resolver pessoalmente problemas burocráticos de executivos que viajavam pelo mundo. A prática ajudou a formar uma cultura de proximidade com os clientes, que depois passou a ser combinada com tecnologia e novos processos digitais.
“Uma das maiores lições que aprendi foi que uma empresa não se constrói apenas com bons resultados financeiros, mas com reputação, pessoas no centro e relacionamentos construídos ao longo do tempo”, afirma.
A empresa cresceu acompanhando as mudanças do setor. Processos antes feitos manualmente passaram por uma transformação com a chegada da tecnologia, e a companhia ampliou sua atuação para diferentes áreas.
"A chegada da tecnologia transformou completamente o setor, e uma das grandes decisões que tivemos foi entender que inovação não era uma opção, mas uma necessidade para continuar fazendo a diferença", diz o fundador.
Hoje, a Biosfera Copastur reúne 25 empresas, entre elas a Copastur, focada em gestão de viagens corporativas; a Aquarela Agência, voltada a eventos corporativos, viagens de incentivo e live marketing, a Goya, especializada em turismo premium; e o PassforAll, serviço voltado a documentação de viagens.A sucessão entre fundador e filho
A entrada de Edmar Mendoza Bull na empresa começou cedo. Aos 17 anos, iniciou sua trajetória conciliando trabalho e estudos e passou por diferentes áreas antes de assumir posições de liderança.
O executivo acompanhou uma das maiores mudanças do setor: a migração do modelo físico para o digital. Um dos primeiros desafios foi liderar a implementação de sistemas de reservas online.
Em 2017, assumiu o cargo de diretor executivo. Com o crescimento da operação e o aumento da complexidade do negócio, chegou à posição de CEO, enquanto seu pai permaneceu como presidente e membro do conselho.
“Eu sempre quis que meu filho tivesse liberdade para construir o próprio caminho. Nunca quis que ele entrasse na empresa apenas por ser meu filho. Acredito que uma sucessão saudável acontece quando existe vontade, preparo e capacidade”, afirma Edmar Bull.
Para o fundador, o principal papel da nova geração não é repetir o passado, mas adaptar a empresa para novos cenários.
Tecnologia, inteligência artificial e novos negócios
A chegada de Mendoza Bull acelerou a transformação digital da companhia. Além da implementação de sistemas, o executivo participou da criação de novos modelos de negócio e da estruturação da Biosfera Copastur. "A ideia é simples: reunir ecossistemas de marcas especializadas e produtos que atuam de forma integrada para oferecer uma experiência completa aos clientes", diz.
A estratégia agora inclui a inteligência artificial como uma das principais frentes de crescimento. Desde 2024, a empresa investiu mais de R$ 100 milhões em soluções de tecnologia e IA.
O objetivo é transformar a companhia em uma empresa AI First, expressão usada para definir organizações que colocam a inteligência artificial como parte central da operação.
“Nossa visão é que, no futuro, cada pessoa colaboradora possa contar com múltiplos agentes de IA como apoio no dia a dia, ampliando sua capacidade de entrega e acelerando a inovação em toda a organização”, afirma.
A empresa também acompanha o crescimento das regiões Norte e Nordeste, que, segundo o executivo, devem ganhar relevância no setor de viagens corporativas com novos investimentos e maior descentralização econômica.
Os desafios para crescer em um mercado instável
Mesmo com a expansão, a companhia enfrenta desafios ligados ao cenário externo. O setor de viagens corporativas é afetado por variações cambiais, preço do petróleo, conflitos geopolíticos e questões de segurança dos viajantes.
Para Mendoza Bull, o papel da empresa é transformar essas incertezas em previsibilidade para os clientes. Uma das respostas foi o lançamento do C+ TripCare, plataforma de gestão de riscos em viagens corporativas que usa inteligência artificial, monitoramento e análise de dados.“O setor de viagens corporativas é diretamente impactado por fatores que estão fora do nosso controle. Nosso desafio é transformar esse cenário de incertezas em previsibilidade para os clientes”, afirma.
Outro desafio é equilibrar redução de custos com qualidade no atendimento. Empresas buscam economizar nas viagens corporativas, mas precisam manter segurança e eficiência para funcionários que se deslocam a trabalho.
“Encontrar esse equilíbrio é um dos nossos maiores desafios e, ao mesmo tempo, uma das nossas principais responsabilidades. Uma viagem corporativa bem planejada não significa apenas mais economia, mas também mais segurança, produtividade e bem-estar para quem está viajando”, diz o filho.
O futuro da Copastur
Com mais de cinco décadas de operação, a companhia tenta manter a combinação entre relacionamento próximo e novas ferramentas digitais. Para a liderança da Copastur, o próximo ciclo depende da capacidade de continuar mudando sem perder os valores que construíram a companhia.
A estratégia para os próximos anos é crescer a partir da ampliação dos serviços oferecidos aos clientes corporativos, da expansão internacional e dos investimentos em tecnologia. A meta da empresa é manter um ritmo de crescimento anual próximo de 12% em receita, apoiado pela evolução dos ecossistemas da Biosfera Copastur e pelo uso de inteligência artificial na operação.
“Empresas familiares costumam ser associadas à tradição. Nosso desafio diário é mostrar que tradição e inovação não são opostos. Pelo contrário, quando existe confiança entre gerações, elas se tornam uma vantagem competitiva”, afirma Edmar Mendoza Bull.
“A empresa nasceu em uma pequena sala onde mal cabiam quatro pessoas. Hoje somos uma organização que movimenta bilhões de reais, mas continuamos acreditando que nosso maior patrimônio são as pessoas. É isso que queremos deixar como legado”, conclui Edmar Bull.
