Ele foi jogador de futebol no Sul. Agora comanda uma rede de 200 lavanderias e fatura R$ 30 milhões

Aos 29 anos, o empresário Alexandre Piccinini tomou uma decisão na semana em que a filha nasceu: parar de jogar futebol. Era atleta profissional, tinha passado pelo Criciúma e por clubes do interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, mas decidiu trocar os gramados por algo que ficasse mais perto de casa.
Doze anos depois, comanda uma rede de 200 lavanderias de autoatendimento espalhadas pelo Brasil.
Essa rede é a Lavup, marca de lavanderias de autoatendimento fundada em 2021 ao lado da esposa e de um casal de sócios. Nessas lojas, o próprio cliente lava e seca as roupas em máquinas industriais, sem atendente.
A primeira loja abriu em Lajeado, no interior gaúcho. Hoje são 200 unidades abertas e mais de 320 vendidas em quase todo o país.
O momento do setor ajuda a explicar o crescimento. O autoatendimento em lavanderias ainda engatinha no Brasil: segundo Piccinini, cerca de 12% da população usa lavanderias de qualquer tipo, e a fatia que recorre ao autoatendimento fica entre 5% e 7%.
É um mercado com espaço para crescer, mas também com alta mortalidade. "A cada 10 lavanderias de autoatendimento que abrem, 9 fecham. E dessas 9 que fecham, a grande maioria são sem franquia", diz o fundador.
Para ele, o dado explica por que abrir uma loja sob uma bandeira, e não por conta própria, virou a escolha mais comum.
A aposta da Lavup para se diferenciar num setor lotado de operações parecidas foi estética, e é aí que Piccinini crava o motivo de os franqueados escolherem a marca. "A gente percebeu que as lavanderias eram por dentro brancas e metálicas. A Lavup trouxe um tom amadeirado. Ou seja, é um aconchego, uma extensão da sua casa para dentro da lavanderia", diz.
Para 2026, o plano é fechar o ano com mais 50 unidades vendidas e chegar a algo entre 300 e 370 lojas comercializadas. O faturamento projetado para o período passa de 30 milhões de reais, considerando entre 200 e 240 unidades inauguradas até dezembro — número que, segundo projeção da empresa, representa alta de 70% ante 2025.
Qual é a história de Alexandre
Piccinini nasceu e cresceu em Estrela, cidade pequena do Rio Grande do Sul. O pai foi atleta profissional do Estrela Futebol Clube, que na época disputava a primeira divisão do Campeonato Gaúcho, e incentivou o filho a jogar.
Aos 16 anos, Piccinini saiu de casa para morar sozinho num clube do interior gaúcho. Aos 17, foi para o Criciúma, em Santa Catarina. Aos 18, assinou o primeiro contrato profissional. Depois, rodou por clubes do interior gaúcho, teve uma passagem rápida por um time do interior de Goiás e disputou o Campeonato Catarinense pelo Camboriú.
A virada veio quando a filha nasceu. Piccinini jogava pelo Inter de Santa Maria, tinha 29 anos e decidiu parar.
"Sempre tive muita facilidade de mudar a chave em relação ao que eu tô fazendo para algo novo", diz.
Depois de três meses parado, virou representante comercial de confecção e passou a vender roupa por boa parte do Rio Grande do Sul, com carro, combustível e custos por conta própria, remunerado só pelo que vendia. Foi ali, diz ele, que começou a entender o que é empreender: "colocar na frente no início para depois buscar esse retorno".
No melhor momento na confecção, quando já atendia grandes redes gaúchas, aceitou um convite da Prudential do Brasil, seguradora de vida americana com mais de 25 anos de operação no país. Para atuar, precisou comprar uma franquia da própria seguradora, o que, segundo ele, lhe deu a primeira visão dos dois lados do balcão: o do franqueado e o do franqueador.
Foram três anos e meio vendendo seguro de vida individual, que ele descreve como uma das profissões mais difíceis do país.
Como nasceu a Lavup
Entre um desafio e outro, Piccinini diz que sempre pesquisou franquias e pequenos negócios.
O modelo de lavanderia de autoatendimento, já consolidado fora do Brasil, chamou sua atenção justamente por ainda ter pouca validação por aqui. Ele e a esposa decidiram começar já pensando em franquear, por ser uma operação enxuta e de custo mais baixo do que outras franquias.
Em seguida, uniram-se a um casal de sócios que já tinha experiência no setor, com uma rede de pizzarias de mais de 20 lojas no Rio Grande do Sul.
A primeira loja, a matriz, abriu em Lajeado há cerca de quatro anos. Hoje, montar uma unidade custa em torno de 170 mil reais, no formato inicial com três conjuntos menores de máquinas — equipamentos capazes de lavar e secar de 10 a 12 quilos por ciclo. Os modelos maiores vão de 14 a 20 quilos.
Sobre a manutenção, Piccinini diz que as máquinas são "tanque de guerra", feitas para aguentar muitos ciclos sem descanso, diferentes das domésticas. A rede mantém uma lista de técnicos credenciados espalhados pelo país e faz manutenção preventiva a cada seis meses.
Onde a rede cresce
A Lavup não limita a expansão a grandes cidades.
Segundo Piccinini, um dos franqueados que mais faturam na rede fica no interior do Ceará, numa cidade de 74 mil habitantes, e costuma aparecer entre os cinco primeiros do ranking interno.
A empresa diz trabalhar dois critérios na hora de escolher um ponto: o quanto o franqueado está inserido na própria cidade e o potencial de turismo da região. Por isso, tem unidades tanto em cidades de 20 a 25 mil habitantes quanto em São Paulo.
Quais são os desafios pela frente
O gargalo, segundo Piccinini, não é a concorrência informal nem a resistência do consumidor — que, diz ele, tende a se fidelizar depois de experimentar o serviço, desde que a loja esteja limpa e higienizada.
O problema é a mão de obra técnica. O número de lavanderias cresceu rápido nos últimos anos, mas o de técnicos capacitados para mexer nas máquinas não acompanhou. Os equipamentos vêm dos Estados Unidos e da China, e cabe às empresas importadoras treinar esses profissionais, algo que, na prática, ainda não dá conta da demanda.
É um desafio que expõe o outro lado de um modelo vendido como quase automático: mesmo uma operação de autoatendimento depende de gente qualificada para não parar.
