Ele foi o homem mais rico do mundo há dez meses; hoje é o personagem mais vulnerável do setor de IA
Larry Ellison apostou a Oracle inteira na infraestrutura de inteligência artificial, financiada por uma montanha de dívida. A ação caiu 64%, a nota de crédito ficou a um degrau do grau especulativo e US$ 213 bilhões evaporaram de sua fortuna

Em 21 de janeiro de 2025, no primeiro dia útil do segundo governo Trump, Larry Ellison estava de pé na Casa Branca ao lado do presidente, que o apresentava ao mundo como "meio que o CEO de tudo". Ali era anunciado o Stargate, projeto de até US$ 500 bilhões em data centers tocado pela Oracle em parceria com a OpenAI, o que Trump chamou de maior projeto de infraestrutura de IA da história.
Um ano e meio depois, o roteiro virou do avesso. A ação da Oracle acumula queda de cerca de 64% desde o pico de setembro de 2025.
A fortuna pessoal de Ellison, que chegou perto de US$ 388 bilhões e o colocou brevemente como o homem mais rico do planeta, caiu para algo em torno de US$ 170 bilhões, uma evaporação de mais de US$ 200 bilhões em menos de dez meses, que o derrubou do segundo para o oitavo lugar entre os mais ricos do mundo.
Em junho, a companhia teve sua pior semana desde o estouro da bolha das pontocom, em 2001.
Larry Ellison, presidente executivo da Oracle, ouve o presidente dos EUA, Donald Trump, falar na Sala Roosevelt da Casa Branca em 21 de janeiro de 2025, em Washington, DC. (Foto de Jim WATSON / AFP) (Jim WATSON/AFP)
A aposta e a conta
A origem do problema não é operacional, é financeira. A Oracle era, no fundo, uma empresa de software de banco de dados quando o ChatGPT foi lançado, em novembro de 2022.
Ellison, aos 80 anos e último sobrevivente de sua geração de fundadores do Vale do Silício ainda no jogo, decidiu transformá-la às pressas em hyperscaler, o grupo restrito que fornece a infraestrutura pesada da IA, ao lado de Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft.
Para isso, precisava de duas coisas que não tinha: data centers gigantes e dinheiro para construí-los. Segundo apuração da New York Times Magazine, Ellison chegou a negociar com Elon Musk um centro de dados em formato de X no Texas, num projeto apelidado internamente de "Ludicrous", acordo que naufragou.
Encontrou então um cliente maior: a OpenAI, liberada pela Microsoft para contratar outro fornecedor de nuvem. O contrato, revelado pelo Wall Street Journal, prevê que a OpenAI pague à Oracle cerca de US$ 300 bilhões ao longo de cinco anos, mas os pagamentos só começam em 2027.
Aí está o descasamento que sufoca a empresa. No ano fiscal de 2026, a Oracle gastou US$ 55,7 bilhões em investimentos de capital e queimou US$ 23,7 bilhões de caixa livre.
A dívida total passou de US$ 160 bilhões. Em julho, a S&P rebaixou a nota de crédito para BBB-, o último degrau antes do grau especulativo, o famoso "junk". Se cair mais um nível, a Oracle vira o que o mercado chama de fallen angel: um emissor decaído, com custo de captação ainda maior e um universo bem menor de credores dispostos a emprestar.
O paradoxo: o negócio vai bem
O mais desconcertante é que a operação não quebrou. A receita de nuvem cresceu 77% no ano fiscal, e a carteira de contratos assinados e ainda não convertidos em receita — o chamado RPO — chegou a impressionantes US$ 638 bilhões. O que assusta o mercado não é a falta de clientes, é a concentração deles e o tempo até o dinheiro entrar.
A Oracle é o hyperscaler mais alavancado de todos e o mais dependente de um punhado pequeno de compradores, sobretudo a OpenAI, que também queima caixa, tem compromissos bilionários com outros fornecedores e não projeta lucro antes de 2030. É uma cadeia de promessas em que cada elo depende do próximo pagar.
O efeito dominó
Por isso a Oracle virou termômetro da discussão sobre a bolha da IA. Há um cálculo circular no setor: os donos da infraestrutura investem nas mesmas empresas de quem esperam receber pela capacidade computacional. Economistas chamam isso de estrutura de responsabilidades entrelaçadas, e é exatamente o que torna um estouro contagioso.
Os números do risco sistêmico são grandes. Segundo cálculo do economista Jason Furman, de Harvard, data centers responderam por 92% do crescimento do PIB americano no primeiro semestre de 2025. A ex-economista-chefe do FMI Gita Gopinath estimou que uma quebra da IA destruiria US$ 20 trilhões em riqueza nos Estados Unidos — mais do que as pontocom em 2000 e do que a crise de 2008.
Há ainda o flanco pessoal. Ellison tem 346 milhões de ações da Oracle dadas como garantia de empréstimos pessoais, segundo registros da companhia, e garantiu pessoalmente mais de US$ 40 bilhões da oferta do filho David pela Warner Bros.
Vale lembrar que Ellison já viveu esse filme. A última vez em que foi declarado o homem mais rico do mundo, antes de 2025, foi em abril de 2000 — o auge exato da bolha das pontocom. Ele perdeu dezenas de bilhões no estouro seguinte e, ainda assim, seguiu bilionário. A pergunta que o mercado faz agora é se a história se repete como farsa ou como tragédia e, desta vez, a resposta não defino só o futuro dele.
