Ele foi servente de obra e hoje comanda empreendimentos de R$ 1,1 bilhão

Aos 70 anos, José Castelo Deschamps não esconde o entusiasmo ao falar sobre construção civil. O brilho no olhar revela o conhecimento acumulado por quem aprendeu, na prática, cada etapa de uma obra.
Fundador da Beco Castelo, construtora com atuação consolidada na Grande Florianópolis há quase 50 anos, ele passou por praticamente todas as etapas do setor antes de se tornar empresário: foi servente, almoxarife, gerente de obra, construtor independente, sócio e, agora, idealizador de um conceito imobiliário patenteado que pode movimentar R$ 1,1 bilhão em retorno estimado nos próximos projetos.
A trajetória ajuda a explicar um tipo de negócio formado longe dos manuais de gestão e das rodadas de investimento. No caso de Deschamps, a escola foi a obra. O capital inicial veio do próprio esforço. A expansão veio depois, por reinvestimento, disciplina operacional e domínio prático de cada etapa da construção.
Ainda menino, Deschamps deixou o interior de Antônio Carlos, a cerca de 40 quilômetros de Florianópolis, movido pela vontade de estudar e construir uma vida diferente. Na década de 1960, aos 12 anos, convenceu a família a se mudar para Biguaçu, cidade que se tornaria a base de sua trajetória empresarial.
Foi em Florianópolis, na casa de Osmar Nascimento, na Rua Presidente Goulart, que ele teve o primeiro contato com a rotina da construção. Durante o dia, fazia pequenos serviços, ajudava em rejuntes, buscava materiais e comprava o que faltava para os operários. À noite, estudava na Escola Arquidiocesana São José, na Rua Padre Roma, onde cursou o antigo ginásio.
“Chegando lá, eu primeiro fui trabalhar e depois estudar. Foi a primeira casa em que eu trabalhei”, relembra.
A adolescência foi dividida entre trabalho, estudo e deslocamentos de ônibus para reencontrar os pais e os três irmãos nos fins de semana. A obra era, ao mesmo tempo, fonte de renda, moradia improvisada, escola prática e porta de entrada para um setor que, décadas depois, faria dele um dos nomes conhecidos da construção civil na região.
A primeira virada profissional veio quando, já maior de idade, Deschamps foi convidado para gerenciar uma obra em Itapema, no Litoral Norte catarinense. Para aceitar a proposta, abandonou os estudos. Em troca, passou a ganhar três vezes mais do que recebia e assumiu uma função que exigia acompanhar a construção do projeto à entrega.
A experiência acumulada em empresas tradicionais da construção civil foi decisiva para assumir a nova função. Antes de chegar a Itapema, Deschamps havia trabalhado como almoxarife em edifícios residenciais erguidos na região da Avenida Hercílio Luz, no centro de Florianópolis, entre eles Berenice, Belatrix e Alexandra Bianca.
Também acompanhou o início do Ceisa Center, prédio comercial que se tornaria uma referência urbana da capital catarinense. Quando deixou a empresa, o empreendimento ainda estava na fundação. Hoje, lembra ele, já tem mais de 50 anos.
Primeira casa
Com o salário melhor, comprou o primeiro veículo: uma motocicleta Honda 150 cilindradas, chamada por ele de “Cinquentinha”. A conquista durou pouco. Em 1976, dois anos depois, Deschamps trocou a moto por material de construção. O objetivo era erguer a primeira casa em Biguaçu.
A casa deveria ser o imóvel onde viveria com a esposa, mas acabou vendida antes de ficar pronta. O motivo era simples: o dinheiro acabou no meio da obra.
“Minhas economias e a motoquinha começaram a casa, mas quando chegou na metade, acabou o dinheiro”, conta.
O comprador foi Luiz Gonzaga da Silveira. A negociação, nascida de uma necessidade, tornou-se o marco inicial de uma lógica que acompanharia a carreira de Deschamps: transformar patrimônio pessoal, lucro de obra e conhecimento prático em capital para continuar construindo.
Antes de o termo empreendedorismo ganhar o peso que tem hoje, Deschamps já construía por conta própria. Dominava a cadeia de uma obra residencial: buscava documentação na prefeitura, tratava de financiamento na Caixa, calculava custos, contratava mão de obra, administrava a construção e entregava a casa pronta.
“Comecei a construir algumas coisas na pessoa física, casa para um, casa para outro. Eu mesmo ia na prefeitura ver documentação, ia na Caixa ver o financiamento para o cliente, administrava a obra e entregava pronta. Eu era um intermediário e fazia a obra, o compromisso com o cliente era todo meu”, afirma.
Foi nesse período que contratou Graciano Paulo de Amorim, primeiro funcionário de sua trajetória empresarial. Mesmo aposentado, Graciano segue ligado à Beco Castelo. Quase 50 anos depois, a empresa tem cerca de 200 colaboradores e gera mais de 300 empregos indiretos.
Sem ter concluído o ensino médio nem cursado faculdade, Deschamps não podia assinar tecnicamente os projetos. Ainda assim, desenhava casas, apresentava aos clientes, calculava custos e levava os projetos a engenheiros responsáveis. A margem era pequena, mas suficiente para reinvestir.
Segundo ele, os contratos iniciais giravam em torno de R$ 10 mil. Desse valor, cerca de R$ 3 mil eram destinados à mão de obra, R$ 5 mil ao material e algo próximo de R$ 2 mil ficava como lucro, às vezes menos. Eram casas que, em valores atuais, poderiam custar entre R$ 200 mil e R$ 300 mil.
A segunda casa foi vendida no dia do casamento com a esposa, com quem vive há 48 anos.“Eu vendi no dia 4 de março de 1978. A noiva se casou e ficou sem teto”, brinca.
A frase revela o método. As casas eram programadas para venda. O objetivo era crescer construindo. Naquele mesmo ano, um ex-patrão o convidou para ingressar como sócio na Biguaçu Empreendimentos e Construções, a Beco. A sociedade marcou o fim da atuação individual e abriu uma nova etapa na trajetória do construtor.
O primeiro prédio veio em 1983, cinco anos depois da fundação da Beco. O lote e o projeto comprados por Deschamps deram origem ao Edifício Carlos Magno, com 24 unidades, em São José. O edifício segue em pé, “firme, forte e bonito”, como ele define.A parceria durou até 1993, quando Deschamps comprou a parte do sócio e promoveu a fusão com a Castelo Construções. Nascia a Beco Castelo.
A construtora passou a se especializar em edifícios e a testar soluções que antecipavam demandas do mercado imobiliário. No segundo prédio, Deschamps incluiu um bicicletário coletivo. No terceiro, o Edifício Ouro Fino, no Estreito, bairro continental de Florianópolis, criou uma pequena despensa no térreo, junto às garagens. Os moradores ainda não sabiam exatamente como usar aquele espaço, mas aprovaram a novidade.
Hoje, o mercado chama esse ambiente de hobby box. Segundo o empresário, a solução foi adotada em 1986, quando o conceito praticamente não existia no Brasil. A leitura sobre detalhes de uso, circulação e armazenamento se tornaria uma das marcas da empresa, que já entregou mais de 2 mil residências.
Conceito patenteado
O passo mais ambicioso da carreira foi anunciado em 2025. A Beco Castelo apresentou o Park Haus, conceito imobiliário idealizado por José Castelo Deschamps e patenteado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI, em 2023.
O Park Haus é apresentado pela Beco Castelo como um sistema inédito no país de garagens integradas aos apartamentos. O conceito nasceu de uma inquietação de Deschamps após o apagão de 2003, em Florianópolis, quando a falta de energia por quase três dias expôs os limites de acessibilidade em edifícios altos.
Na prática, o projeto propõe uma mudança na forma como os edifícios residenciais são concebidos. Em vez de tratar a garagem como uma área separada da moradia, o Park Haus aproxima o uso do carro da experiência cotidiana do apartamento, em uma lógica mais parecida com a de uma casa dentro de uma estrutura vertical.Para Deschamps, o modelo representa uma nova categoria de moradia.
“Existem, até o momento, quatro conceitos de moradia: a casa, o edifício, os condomínios horizontais e as casas geminadas. O quinto conceito é o Park Haus, o que representa uma virada de chave muito grande para todo o setor imobiliário habitacional. Isso é uma inovação muito grande”, afirma.
O primeiro empreendimento com o conceito será construído no bairro Cacupé, em Florianópolis, uma das regiões mais valorizadas da capital catarinense. Outros dois projetos estão em fase de elaboração na cidade: um na região insular e outro na área continental. Somados, os três empreendimentos ligados ao modelo têm retorno estimado em R$ 1,1 bilhão.
Apesar da escala dos números, Deschamps evita apresentar a trajetória como obra individual. Atribui o crescimento da empresa à soma de colaboradores, técnicos, operários e parceiros que passaram pela construtora ao longo de quase cinco décadas.
“Eu tive muitos colaboradores bons comigo ao longo do tempo, ninguém faz nada sozinho. Eu sempre consegui gerenciar tudo para entregar segurança e qualidade para os moradores, mas isso só foi possível porque sempre tive pessoas competentes ao meu lado”, pontua.
Aos 70 anos, José Castelo Deschamps não fala em parar. Depois de quase cinco décadas dedicadas à construção civil, diz que pretende seguir trabalhando até os 100. Pelo histórico a frase soa menos como exagero e mais como plano de continuidade.
