Ele já foi unicórnio e agora capta R$ 550 milhões para devolver 100% do juro ao trabalhador
Marcelo Ramos, que vendeu a Vee Benefícios para a francesa Swile, agora compra a folha de pagamento de empresas e transforma o juro do crédito emergencial em benefícios como cesta básica, Uber e telefonia

A fintech brasileira Kesh, fundada pelo empresário Marcelo Ramos, acaba de captar 550 milhões de reais para bancar uma tese pouco explorada no crédito brasileiro.
Em vez de tentar baixar o juro do crédito emergencial (que pode chegar a 20% ao mês), a empresa cobra o juro e devolve 100% do valor ao trabalhador na forma de benefícios, como cesta básica, transporte e telefonia.
Ramos não é novato no setor.
Em 2017, fundou a Vee Benefícios, primeira carteira de benefício flexível do Brasil, e foi o primeiro a levar a um cartão de bandeira Mastercard os benefícios de alimentação, refeição e combustível. Em 2021, vendeu a empresa para a francesa Swile, em uma fusão que criou o primeiro unicórnio, startup avaliada em mais de 1 bilhão de dólares, da categoria no país.
Ficou como sócio da operação global até assumir uma cadeira no conselho, em 2024. Foi então que idealizou o Kesh, hoje com cerca de 37 mil usuários.
A captação chega no momento em que o endividamento do trabalhador brasileiro vira um problema de gestão para as empresas. Ramos diz ter observado o efeito dentro da própria Vee: funcionários de clientes trocavam de emprego por 100 ou 200 reais a mais no fim do mês, e o índice de rotatividade subia sem explicação aparente. A origem, descobriu, era o aperto de caixa. E o crédito caro que sobra a quem ganha até cinco salários mínimos.
"Ninguém ajuda ninguém emprestando dinheiro a 20% ao mês", afirma Ramos.
A frase resume a inconformidade que deu origem ao negócio: enquanto concorrentes cobravam juros altos com o discurso de antecipar o salário, ele buscava um modelo em que o custo do crédito voltasse ao bolso do trabalhador.
Com o aporte, a meta é sair dos atuais 37 mil usuários para 1 milhão em três anos, sem depender de novas rodadas. Parte dos recursos vai para tecnologia, marketing e expansão comercial; outra fica alocada em um FIDC — fundo que financia as operações de crédito — proprietário, para dar liquidez à demanda por empréstimos. Até o fim de 2026, o Kesh projeta chegar a algo entre 80 mil e 100 mil usuários.
Como funciona o crédito que devolve o juro
O ponto de partida da tese é uma constatação incômoda: o juro do crédito emergencial é caro e não há como baixá-lo com facilidade. O microcrédito trabalha com valores pequenos. O trabalhador toma 500 ou 600 reais, não 30 mil, o que exige volume alto para o negócio fechar a conta. Somam-se o custo de captação de clientes e a estrutura regulatória de uma instituição financeira.
Em vez de brigar por taxa em um mercado que ele descreve como já disputado por bancos e financeiras, Ramos decidiu atuar onde diz haver menos concorrência: o trabalhador que recorre à loja de crédito da esquina ou até mesmo a um agiota para fechar o mês.
A saída foi devolver o valor do juro em vez de reduzi-lo. Quem toma 500 reais e deve pagar 600 recebe de volta os 100 reais de juro em benefícios para consumo, como um cashback.
O mecanismo se apoia no que Ramos chama de comissão de parceiros. A rede do Kesh reúne mais de 150 empresas — entre elas Bob's, Vivo, TIM, Claro, Uber, Deezer e Netshoes — que pagam uma comissão para receber esses clientes com poder de compra. O valor repassado ao parceiro é menor do que o cobrado, e é nessa diferença que a operação se sustenta.
"Não estamos apenas oferecendo crédito. Estamos devolvendo 100% dos juros ao trabalhador na forma de benefícios, transformando um custo financeiro em dignidade e poder de compra, e educando sobre boas práticas financeiras", afirma Ramos.
Por que comprar a folha de pagamento
A porta de entrada do Kesh é a folha salarial.
A empresa se posiciona como conta de pagamento: em vez de o funcionário receber em um banco tradicional, recebe pela plataforma da fintech. É a partir daí que o crédito emergencial é oferecido.
Ramos aposta em uma mudança recente do mercado para justificar a estratégia. Por anos, os grandes bancos compravam a folha das empresas para vender crédito, cheque especial e cartão. Com a regra da conta salário, que garante portabilidade e gratuidade, esse movimento perdeu força, sobretudo entre empresas cujos funcionários ganham menos e não interessam ao banco tradicional. É esse cliente que o Kesh busca.
O perfil que a fintech persegue são companhias de 500 a 5.000 funcionários, com pelo menos 60% da base recebendo até cinco salários mínimos. Empresas de telemarketing e de terceirização de mão de obra estão entre os clientes. O maior deles tem 8.000 funcionários, dos quais 90% ganham até 5.000 reais.
Segundo Ramos, o desconto do crédito é automático e a relação é direta com o usuário, sem trabalho adicional para o RH ou o financeiro da empresa contratante. O risco de inadimplência, afirma, fica com a fintech: se o trabalhador não recebe o salário ou não tem saldo na rescisão, a perda é do Kesh.
Qual foi a trajetória até o novo negócio
A tese nasceu da experiência de Ramos naVee Benefícios. Foi ali que ele percebeu o efeito do endividamento sobre os funcionários dos clientes, e concluiu que não conseguia resolver o problema de dentro de uma operação que havia se tornado grande demais. "Acabei virando funcionário do meu próprio negócio", diz.
A ideia do Kesh surgiu em meados de 2024. Ramos estruturou a tecnologia e o fundo ao longo daquele ano e colocou a operação de pé em abril de 2025, com capital próprio e do sócio fundador Emmanuel Hermann, ex-sócio do BTG Pactual e fundador do Grupo Leste.
O primeiro ano serviu de teste para duas hipóteses: se as empresas ainda tinham a folha disponível para compra e se o trabalhador de fato usaria o benefício, trocando o juro por consumo. Ramos afirma que a taxa de adesão à troca de juro chega a 80% no momento em que o crédito é tomado, com os 20% restantes estimulados depois por mensagens no WhatsApp.
A aposta da captação
A rodada é a primeira do Kesh e reúne o Grupo Leste, um dos sócios fundadores, e o BR Angels, além dos executivos Alexandre Noschese, Mike Silva e Rafael Costa, todos ligados à Across Capital. A captação combina equity e recursos via FIDC proprietário, e a companhia não abre a divisão entre os dois.
Somado ao capital, os parceiros contribuem com governança e relacionamento corporativo.
Ramos afirma ter estruturado o valor para bancar o crescimento até 1 milhão de usuários sem uma nova rodada, com a expectativa de que a própria operação se autofinancie a partir da margem gerada pelos empréstimos.
O lastro também funciona como argumento de venda. Ramos afirma que, ao apresentar a operação a uma empresa com folha de 20 milhões de reais por mês, o capital disponível é o que dá segurança ao cliente de que a fintech tem caixa para sustentar o crédito. Na avaliação de Alexandre Noschese, da Across Capital, o que pesou na decisão foi a combinação de um problema recorrente com um fundador de histórico conhecido.
Resta ao Kesh o desafio que o próprio Ramos reconhece: o produto ainda precisa ser explicado. A venda é consultiva, e boa parte da captação se destina a tornar a fintech mais conhecida — condição, segundo ele, para que o crédito que devolve o juro deixe de ser uma novidade a explicar e passe a ser uma referência que o trabalhador procura.
