Ele largou a engenharia para faturar R$ 30 milhões com um clube de livros clássicos

Antes de criar uma empresa que fatura dezenas de milhões de reais vendendo livros, Lucas Fischer Zapelini passou por caminhos pouco óbvios: estudou música, cursou letras e trabalhou como engenheiro civil em construtoras. A literatura, porém, continuou como um interesse paralelo — até virar negócio.
Criado em 2020, o Clube de Literatura Clássica, com sede em Dois Irmãos (RS), a 60 quilômetros de Porto Alegre, alcançou R$ 28 milhões de faturamento em 2025 e projeta chegar a R$ 30 milhões em 2026.
A empresa já enviou mais de 2 milhões de exemplares, editou 120 títulos e reúne cerca de 28 mil assinantes em todo o Brasil.
A ideia nasceu de um clube de leitores formado por amigos, onde Zapelini discutia obras clássicas. Ele percebeu que havia interesse por autores como Dostoiévski, Dante e Cervantes, mas faltavam edições mais cuidadosas.
“Percebi que faltava que aquelas obras tivessem uma edição com uma qualidade maior. Uma edição de luxo, em capa dura, com um design bonito, uma tradução boa, notas explicativas e prefácio”, afirma.
O negócio começou em 2019 e teve seu primeiro lançamento em maio de 2020, com uma edição de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Desde então, cresceu impulsionado por um modelo de assinatura que combina curadoria editorial, comunidade e experiência.
Qual é a estratégia da empresa para crescer
A proposta do Clube de Literatura Clássica não era apenas entregar livros mensalmente, mas criar uma porta de entrada para obras que muitas vezes são vistas como difíceis.
Para Zapelini, parte do desafio estava em aproximar o leitor contemporâneo de textos escritos há séculos.
“A gente cria uma comunidade de leitores em torno dessas obras, que passam a efetivamente lê-las e estudá-las. Além do próprio livro, criamos canais de facilitação da leitura, como aulas e planners para a pessoa acompanhar o que precisa ler a cada dia”, diz.
Cada assinatura mensal inclui um box com a obra principal, materiais complementares e itens relacionados ao livro. O plano anual custa R$ 89 por mês. 73% dos assinantes têm entre 18 e 44 anos, com concentração maior na faixa de 25 a 35 anos.
“Eu vejo que as pessoas têm um interesse genuíno por literatura de alta qualidade. Isso pode ser um desafio, mas elas têm um desejo genuíno por esse tipo de conhecimento e cultura”, afirma.
O negócio por trás das traduções raras
Um dos principais diferenciais da empresa está no trabalho editorial. Embora muitas obras clássicas estejam em domínio público, as traduções nem sempre estão disponíveis ou possuem a qualidade buscada pelo clube. Por isso, a empresa negocia direitos autorais de traduções existentes ou encomenda novos trabalhos.
Segundo Zapelini, algumas traduções podem levar anos para ficar prontas.
“A gente tem traduções que começaram em 2023 para terminarem em 2029. São trabalhos que levam um, dois, três, quatro anos para serem publicados”, afirma.
Entre os projetos recentes estão traduções de obras de Dostoiévski e “Odisseia”, de Homero. Em alguns casos, o clube recupera materiais históricos, como anotações originais de tradutores.
“A gente entendeu que, para fazer um trabalho tão bom quanto esses, demoraria anos. Então muitas vezes faz mais sentido trazer uma tradução já consagrada e trabalhar nela”, diz.
Como o clube está inserido dentro do setor de livros
O Clube de Literatura Clássica também disputa espaço em um mercado editorial que vem buscando novos formatos de consumo.
Em 2025, o setor brasileiro de livros movimentou R$ 4,5 bilhões em faturamento das editoras com vendas ao mercado, alta nominal de 7,7% na comparação com o ano anterior, segundo a Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, coordenada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), com apuração da Nielsen BookData.
No período, foram vendidos 185 milhões de exemplares físicos, enquanto a produção chegou a cerca de 45 mil títulos e 367 milhões de exemplares. Dentro desse cenário, os clubes de assinatura criaram uma nova frente de relacionamento com leitores.
Dentro desse cenário, outros clubes de assinatura criaram uma nova frente de relacionamento com leitores. A TAG Livros, por exemplo, trabalha com dois modelos de clube — TAG Inéditos e TAG Curadoria — enviando mensalmente livros em edições exclusivas acompanhados de conteúdos complementares, como revista, podcast e comunidade de leitores.
Mudanças estratégicas
A empresa nasceu na cidade de Novo Hamburgo, mas mudou sua sede para Dois Irmãos, também no Rio Grande do Sul, em 2021. O novo local concentra o estoque, a expedição dos boxes, o atendimento ao cliente e parte da operação administrativa. O restante da equipe trabalha de forma distribuída.
“O nosso negócio é muito digitalizado. As pessoas que trabalham aqui, na sua grande maioria, trabalham de home office. O que fica em Dois Irmãos é principalmente o estoque, a expedição e o atendimento”, afirma.
A distribuição também reflete o modelo: os livros são impressos em diferentes gráficas pelo país, mas retornam para a sede gaúcha antes de serem enviados aos assinantes. Para este ano, o Clube de Literatura Clássica prevê investir R$ 3 milhões em iniciativas de digitalização, novos projetos editoriais, ampliação da loja e sistemas internos.
A empresa pretende usarinteligência artificial para analisar dados dos assinantes e melhorar a experiência do cliente.
“Temos uma variedade muito grande de perfis, preferências e comportamentos. A inteligência artificial vai ajudar a entender melhor os nossos assinantes”, afirma.
O crescimento também abre espaço para novos formatos, mas Zapelini diz que a essência continuará sendo a literatura clássica.
“Era um universo muito fechado no mundo acadêmico. O que a gente faz é criar mais diálogo e acessibilidade para essas obras”, afirma.
