Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
05/11/2026
9 min

Ele pediu um computador ao Silvio Santos e não ganhou. Hoje fatura R$ 50 milhões com robótica

Rafael Oliveira escreveu para o programa Porta da Esperança aos 9 anos, mas nunca recebeu uma resposta. Hoje, comanda uma rede de 80 escolas de robótica e aposta na expansão pela América Latina

Ele pediu um computador ao Silvio Santos e não ganhou. Hoje fatura R$ 50 milhões com robótica
RESUMO +

O empresário Rafael Oliveira, que na infância escreveu a Silvio Santos pedindo um computador, comanda hoje a operação brasileira da My Robot, rede de escolas de robótica com 80 unidades no Brasil, Chile e Paraguai. O negócio movimenta cerca de R$ 50 milhões por ano e negocia expansão para Colômbia e Peru. A rede combina cursos, venda de equipamentos e entretenimento, enquanto contratos com o setor público representam metade do faturamento do Grupo MKR.

Aos 9 anos, o paulista Rafael Oliveira tinha um sonho: ganhar um computador. O problema é que, no começo dos anos 1990, um equipamento desses custava caro, especialmente para uma família sustentada por um lavrador e uma cabeleireira.

A solução encontrada pelo menino foi recorrer a Silvio Santos. Mais especificamente, ao Porta da Esperança, programa de televisão que realizava os desejos de brasileiros de todo o país.

Morador de Leme, no interior de São Paulo, Rafael foi até uma agência dos Correios para descobrir como enviar uma carta ao programa. Escreveu seu pedido e ficou na expectativa. A resposta nunca veio. O computador também não. Mas a história não terminou ali.

Mais de três décadas depois, aquele menino é o empresário por trás da operação brasileira da My Robot, rede de franquias de escolas de robótica que tem 80 unidades entre Brasil, Chile e Paraguai.

O negócio movimenta cerca de 50 milhões de reais por ano, segundo Rafael.

Agora, a empresa prepara a abertura de novas escolas e negocia sua entrada na Colômbia e no Peru.

O plano para os próximos meses é ampliar a presença da rede na América Latina e abrir oito unidades até fevereiro de 2027.

Mas há um desafio nessa expansão: convencer famílias a pagar por aulas de robótica em um momento de orçamento apertado e encontrar investidores dispostos a abrir franquias em um cenário de juros elevados.

Qual é a história do Rafael e do MyRobot

A primeira tentativa de Rafael de conseguir um computador terminou sem sucesso. Mas ele não desistiu da ideia.

Aos 12 anos, depois de fazer pequenos trabalhos e juntar dinheiro, conseguiu comprar o primeiro equipamento. Começou a fazer cursos de informática e, pouco tempo depois, passou a trabalhar com manutenção de computadores.

Aos 14 anos, já consertava máquinas profissionalmente. Aos 18, decidiu abrir o próprio negócio.

Para isso, contou com a ajuda do pai, que trabalhava na lavoura e o acompanhou ao cartório para resolver a documentação necessária.

O primeiro empreendimento era simples. Rafael tinha um Fusca amarelo e dirigia até a casa dos clientes para consertar computadores.

"Eu lembro que tinha um Fusca amarelo e fazia conserto de computadores na casa das pessoas. Comecei a empreender aos 18 anos e não parei até hoje", diz.

A experiência com tecnologia acabou levando Rafael para outro mercado: a educação.

Depois de trabalhar como franqueado de uma empresa de ensino, começou a desenvolver materiais didáticos e equipamentos para aulas de robótica.

Em 2014, criou a Maker Robotics, negócio voltado à venda de soluções de robótica educacional para escolas públicas e particulares.

Dois anos depois, começou a importar equipamentos da Ásia. Viajou para países como China, Malásia, Tailândia e Coreia do Sul em busca de fabricantes e produtos que pudesse trazer ao Brasil.

Foi nessa aproximação com o mercado asiático que encontrou a oportunidade de criar uma rede de escolas.

Como uma escola da Coreia do Sul virou uma rede de 80 unidades

Em 2017, durante uma viagem à Coreia do Sul, Rafael conheceu a My Robot, uma empresa que oferecia cursos de robótica e programação para crianças.

O modelo chamou sua atenção por uma razão: no Brasil, boa parte dos cursos de tecnologia disponíveis na época tinha foco na formação profissional de jovens e adultos.

Rafael enxergou espaço para ensinar crianças a programar e construir robôs de maneira mais próxima de uma brincadeira.

A proposta foi levada aos responsáveis pela operação sul-coreana. O empresário brasileiro queria trazer o modelo ao país e transformá-lo em uma rede de franquias.

A parceria começou em 2018.

Inicialmente, as unidades funcionavam como escolas de robótica, com salas de aula e cursos para crianças e adolescentes.

Mas uma pergunta recorrente dos alunos fez Rafael repensar o negócio. As crianças queriam saber onde poderiam comprar os robôs e equipamentos usados nas aulas.

A resposta foi transformar as escolas também em lojas.

A mudança ganhou força quando Rafael decidiu transferir uma unidade que funcionava no centro de Campinas para o Shopping Iguatemi, na mesma cidade.

A escola de rua tinha uma limitação: à noite, a preocupação com a segurança dificultava o funcionamento. No shopping, a empresa poderia atender famílias durante mais horas e vender produtos para quem passasse pelo local.

O modelo passou a combinar três fontes de receita: mensalidades dos cursos, venda de equipamentos e atividades de entretenimento para crianças.

"Quando chega novembro e dezembro, o movimento tende a cair, porque é mais consumo de venda de produtos do que de serviços", diz Rafael.

A venda de equipamentos ajudou a reduzir a dependência das matrículas, que se concentram principalmente nos primeiros meses de cada semestre.

Atualmente, os produtos vendidos nas unidades custam de 89 a 2.000 reais. A rede também ampliou o catálogo de aulas.

São cerca de 20 cursos, que incluem programação, robótica, inteligência artificial, impressão 3D, inglês e empreendedorismo. Há atividades para crianças a partir de 4 anos, além de opções para públicos mais velhos.

A estratégia é fazer com que uma mesma unidade tenha diferentes maneiras de faturar ao longo do ano.

A meta de abrir 22 operações em 2026

A My Robot tem hoje 80 unidades, entre próprias e franqueadas, distribuídas pelo Brasil, Chile e Paraguai.

Segundo Rafael, seis dessas unidades são próprias. A rede mantém operações em cidades como Campinas, Londrina, São José dos Campos, Criciúma e Foz do Iguaçu.

Para 2026, a meta inicial era fechar 20 novas unidades. O número foi superado: a empresa negociou 22 operações, embora parte delas ainda esteja em fase de implantação.

Até fevereiro de 2027, oito novas escolas devem começar a funcionar.

Uma das apostas é Belo Horizonte, onde a empresa prepara uma unidade de quase 200 metros quadrados em um shopping center.

Além dos cursos tradicionais, o espaço terá atividades com bicicletas conectadas a jogos digitais. A criança pedala enquanto participa de uma experiência virtual.

A expansão também ocorre por meio dos chamados master franqueados, investidores que assumem a responsabilidade pelo desenvolvimento da rede em uma determinada região.

Em 2026, a empresa fechou contratos desse tipo em Minas Gerais e no Amazonas.

No exterior, o próximo passo é a Colômbia, onde Rafael afirma estar na fase final das negociações. O Peru também está nos planos. A expansão internacional é facilitada pelo fato de que a empresa já possui materiais didáticos em espanhol.

O desafio, porém, vai além de encontrar pontos comerciais e investidores.

Quais são os desafios

Ensinar robótica para crianças pode parecer uma oportunidade de negócio diante do avanço da inteligência artificial e da programação. Mas há uma questão prática: esses cursos disputam espaço no orçamento das famílias com inglês, esportes e outras atividades extracurriculares.

Rafael afirma que o principal público das franquias está concentrado nas classes A, B e C de maior renda.

Isso influencia diretamente a escolha dos endereços das escolas, especialmente as unidades instaladas em shopping centers.

O empresário também vê dificuldades do lado de quem pretende abrir uma franquia.

Com os juros elevados, o investidor compara o dinheiro necessário para montar uma escola com o retorno que poderia obter em aplicações financeiras.

Para tentar tornar o negócio mais atraente, a empresa oferece condições de pagamento para a compra de materiais e trabalha com os franqueados antes da inauguração.

Segundo Rafael, a meta é que cada unidade comece a funcionar com pelo menos 30 alunos matriculados.

A rede também usa projeções de rentabilidade para apresentar o negócio aos candidatos. Rafael cita uma margem de 30% para operações com 100 alunos, mas o resultado efetivo depende dos custos e das matrículas de cada unidade.

Outra alternativa para ampliar as receitas é levar os cursos para dentro de escolas particulares.

Nesse formato, o franqueado utiliza equipamentos e professores da My Robot para oferecer aulas nas instalações de instituições de ensino, sem depender apenas do movimento de sua unidade.

A estratégia permite alcançar alunos que não frequentariam uma escola exclusiva de robótica.

O maior cliente do grupo é o governo

Embora as franquias sejam uma das faces mais conhecidas do negócio, elas não representam a principal fonte de faturamento do Grupo MKR, conjunto de empresas comandado por Rafael.

O maior cliente do grupo é o setor público. Segundo o empresário, contratos com prefeituras, governos estaduais e instituições federais já respondem por cerca de 50% do faturamento total.

O avanço começou a ganhar força com o aumento das compras públicas de equipamentos e materiais para o ensino de tecnologia.

A educação digital passou a receber mais atenção nas políticas educacionais, abrindo espaço para empresas que fornecem kits de robótica, plataformas de ensino e materiais didáticos.

Rafael afirma que o crescimento dessa frente foi impulsionado também pela decisão de importar os equipamentos diretamente dos fabricantes asiáticos, sem depender de distribuidores no Brasil.

O modelo permite que o grupo participe diretamente de licitações, processos de contratação realizados por órgãos públicos, mas também aumenta sua exposição às decisões de investimento das administrações municipais, estaduais e federal.

É uma diferença importante em relação ao negócio de franquias.

A holding também mantém projetos fora da educação, incluindo uma empresa que desenvolve robôs para o agronegócio. Um dos equipamentos é voltado ao controle de ervas daninhas.

Campeonato de robôs

A relação da My Robot com os alunos vai além das aulas.

Há oito anos, a empresa organiza competições de robótica que reúnem crianças e adolescentes de diferentes regiões do país. Em 2026, uma das edições da Liga Brasileira de Robótica foi realizada no Zoológico de São Paulo.

O evento reuniu 1.100 crianças, além de professores e familiares.

Ao todo, 35 estudantes conseguiram classificação para competições internacionais de robótica na Ásia, segundo Rafael.

Os campeonatos funcionam como uma forma de aproximar os alunos da tecnologia e dar visibilidade às escolas da rede.

Para o empresário, há também um significado pessoal nessa trajetória. Mais de 30 anos depois de escrever uma carta para Silvio Santos pedindo um computador, Rafael agora comanda negócios que colocam equipamentos de tecnologia nas mãos de crianças e adolescentes.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
Distribuído por