Ele quer faturar R$ 247 milhões levando câmeras corporais das polícias para as empresas

O segurança da porta giratória do banco passa o turno inteiro com uma câmera presa ao peito. Ela grava 12 horas seguidas, com áudio e vídeo, e envia tudo para a nuvem. Quando um cliente reclama de constrangimento na entrada da agência, não existem mais duas versões. Existe o arquivo de vídeo.
Essa é proposta da empresa de tecnologia Oakmont, fundada em 1999 para crescer: apostar nas câmeras corporais, já conhecidas no policiamento público, no setor privado.
A companhia faturou 123,7 milhões de reais em 2025 e nasceu longe de câmeras: fazia cabeamento estruturado e serviços de campo, o que o setor chama de field services, atendendo bancos como o Real e o Unibanco na época em que agência nova era sinônimo de obra de infraestrutura.
Com as câmeras, quer entrar num setor que começou a crescer em 2018 e 2019, usadas por polícias, e passaram seis anos restritas ao setor público.
Agora começam a aparecer no varejo, na logística e nos bancos. E a Oakmont montou uma vertical inteira para vender isso.
"A gente enxerga que esse novo boom vai ser das câmeras corporais", diz Rafael Souza, diretor executivo da companhia. Ele compara o movimento ao do vídeo monitoramento.
"Hoje a gente não consegue ir em nenhum local, que seja um shopping center, uma loja ou qualquer empreendimento, que não tenha uma câmera de vídeo monitoramento."
A meta declarada é dobrar o faturamento em três anos.
Sobre a base de 2025, isso significaria chegar a cerca de 247 milhões de reais em 2028. Para chegar lá, a companhia planeja investir 20 milhões de reais em expansão de operações, portfólio e presença de mercado.
Qual é a história da Oakmont
A Oakmont começou instalando infraestrutura. Rede de dados, microcomputador, servidor, suporte técnico em agência bancária.
Quando um banco abria uma unidade nova, a empresa entregava a tecnologia e depois sustentava a operação: manutenção de rede, troca de equipamento indisponível, help desk.
O modelo tinha um teto. A empresa recebia o projeto pronto de um integrador maior e executava.
A virada foi assumir a etapa anterior à entrega. Hoje a companhia faz o assessment, diagnóstico da infraestrutura do cliente, desenha o projeto, importa os equipamentos de fabricantes nos Estados Unidos, Europa e Ásia, prepara tudo em um centro de distribuição em Cariacica, no Espírito Santo, e distribui para o país inteiro.
Souza entrou na empresa em 2004, na área operacional, cuidando da entrega de projetos vendidos. Depois foi para o financeiro com uma missão específica: fazer a controladoria entender o negócio do cliente.
Como vai ser o modelo das câmeras
Com as câmeras corporais, o cliente não compra os equipamentos. A Oakmont trabalha com locação, em contratos que normalmente duram 36 meses e incluem o equipamento, a dockstation — a base que carrega a câmera e envia as gravações para a nuvem —, o armazenamento criptografado, a implantação, o treinamento e a manutenção.
A lógica é tirar o investimento inicial da conta do cliente.
"Se é uma grande indústria, ela tem que investir em planta, em maquinário", diz Souza. "Não nas câmeras. Elas entram como atividade meio, não como atividade fim, e por isso cabe em um contrato de serviço.
O equipamento vem da Axon, fabricante americana que, segundo Souza, tem mais de um milhão de dispositivos conectados e atende polícias nos Estados Unidos, em Londres e na Austrália.
Onde as câmeras estão entrando
O caso mais visível é o do Carrefour, que instalou cerca de 4.000 câmeras corporais em suas lojas depois de uma série de incidentes com clientes.
A partir dele, outros setores começaram a testar o equipamento para problemas diferentes. No varejo e na logística, controle de perdas — a câmera acompanha recepção, armazenamento e entrega, e funciona também como dissuasão. Em transporte de carga de valor, o aparelho vem com GPS, rastreador e transmissão ao vivo, o que permite ao operador acompanhar a rota em tempo real.
Em atividades de risco, o argumento é outro. Souza cita o acompanhamento de protocolo de manutenção e uso de EPI, equipamento de proteção individual.
"A empresa se protege também. Ela se protege, o trabalhador se protege", diz.
No banco, a aplicação é a porta giratória. O ponto de atrito mais comum entre cliente e instituição, onde reclamações de constrangimento e discriminação se resolvem hoje na disputa entre duas narrativas.
Aposta em cibersegurança
A segunda vertical que a companhia aponta como motor de crescimento é cibersegurança.
O trabalho começa com um assessment de vulnerabilidades e avança conforme o nível de maturidade do cliente.
Souza argumenta que a percepção do mercado mudou.
"Hoje a cibersegurança deixou de ser uma despesa e passa a ser um investimento", diz. Empresas listadas em bolsa, obrigadas a reportar resultado, passaram a tratar a proteção digital como item de continuidade operacional e reputação.
O release da companhia detalha essa frente com mais peso do que a de câmeras: proteção digital, governança de dados, cloud security (segurança em nuvem) e operações gerenciadas de segurança.
Quais são os obstáculos no caminho
A tese do "novo boom" depende de uma adoção que ainda não aconteceu.
Souza reconhece que o uso de câmeras corporais no segmento privado brasileiro está muito abaixo do que se vê no mercado internacional, e a aposta é de que as empresas percebam o valor conforme forem testando.
Há um obstáculo que a companhia trata como vantagem: o equipamento grava o trabalhador durante 12 horas de turno. Souza apresenta isso como proteção mútua: o registro serve tanto ao empregador quanto ao empregado.
Mas a adoção em escala depende de negociação com sindicatos, adequação à LGPD, a Lei Geral de Proteção de Dados, e aceitação de quem vai usar o aparelho no corpo todo dia.
Se o projeto do banco sair, Souza aposta que o setor inteiro vem atrás. "Provavelmente os demais bancos irão seguir aí essa mesma tendência", diz. Seria o mesmo caminho do vídeo monitoramento, que saiu do nicho e virou padrão — só que agora com a câmera saindo da parede e indo para o peito de quem trabalha.
