Ele só queria uma renda extra — e acabou criando uma rede de 100 escolas que fatura R$ 85 milhões
Depois de crescer de forma gradual por duas décadas, rede de idiomas mira até 350 operações e aposta em novos formatos para aumentar a receita dos franqueados

RESUMO +
A rede de escolas de idiomas Rockfeller Language Center planeja chegar a 350 unidades em cinco anos, ante as 100 operações que tem hoje. Fundada em 2004 por André Belz, Renata e Romeu Morais, a companhia faturou R$ 85 milhões em 2025 e projeta cerca de R$ 95 milhões em 2026. Para 2027, prevê de 12 a 15 novas escolas.
Quando André Belz entrou em uma escola de inglês para vender matrículas, ele não imaginava que ele próprio seria dono de uma rede nacional de ensino. Belz havia voltado de um intercâmbio nos Estados Unidos e aguardava o início das aulas da faculdade de odontologia. O emprego seria temporário. Depois, já como universitário, passou também a dar aulas no tempo livre para complementar a renda.
O que começou como um bico acabou definindo sua carreira. Belz se interessou pelo funcionamento das escolas, pelo aprendizado dos alunos e, pouco a pouco, pelo modelo de franquias. Quando terminou a faculdade, no fim de 2003, decidiu não seguir o caminho mais óbvio para um recém-formado em odontologia.
Em julho de 2004, abriu com os sócios Renata e Romeu Morais a primeira unidade da Rockfeller Language Center, em São José, na região metropolitana de Florianópolis. A segunda viria um ano e meio depois, em Balneário Camboriú. Antes de transformar o negócio em franquia, o grupo passou quatro anos testando o modelo.
“Eu dava aula das 7 da manhã às 10 da noite, testando o produto, testando a metodologia, todos os níveis”, afirmou Belz, CEO da Rockfeller. O modelo de franquiassó seria lançado oficialmente em 2008.
Mais de duas décadas depois, a companhia tem 100 operações espalhadas por todas as regiões do Brasil, aproximadamente 20 mil alunos e encerrou 2025 com R$ 85 milhões em faturamento.
Para 2026, Belz projeta um avanço de 12% na receita — o que levaria a rede para perto de R$ 95 milhões.
Depois de uma expansão que o próprio executivo define como lenta e gradual durante boa parte da história da companhia, o objetivo é ganhar velocidade. A meta é alcançar 350 unidades em cinco anos.
Como um dentista foi parar no mercado de idiomas
O primeiro contato de Belz com o ensino de inglês veio antes mesmo da odontologia. Ainda jovem, ele havia cursado o ensino médio nos Estados Unidos. Ao voltar ao Brasil, conseguiu um trabalho comercial em uma escola de idiomas durante os meses que antecediam o começo da universidade.
Quando as aulas da graduação começaram, mudou de função e passou a ensinar inglês nos horários livres. A convivência com os alunos chamou sua atenção para uma transformação que começava a acontecer naquele mercado.
Os cursos tradicionais, normalmente longos, começavam a dividir espaço com metodologias que tentavam tornar o aprendizado mais rápido e menos dependente de aulas expositivas. Belz também teve ali seu primeiro contato com o franchising.
“Eu não entendia nada sobre franquia. Para mim, quando falava franquia, era McDonald's”, diz.
Foram cinco anos entre aquele primeiro trabalho vendendo matrículas e a conclusão da faculdade. Nesse período, Belz acumulou experiência comercial, pedagógica e de sala de aula. Foi quando conheceu os futuros sócios. Enquanto eles tinham maior experiência administrativa, o recém-formado entraria com a parte educacional e comercial.
A primeira escola abriu as portas em 2 de julho de 2004. A metodologia havia sido desenvolvida internamente, a partir da experiência de Belz e de outros profissionais trazidos para colaborar com o projeto.
A expansão inicial foi propositalmente cautelosa. A partir de 2008, já como franquia, a rede crescia normalmente duas ou três unidades por ano. Ao mesmo tempo, ampliava o público atendido: começou com jovens e adultos, chegou aos adolescentes e, posteriormente, passou a oferecer cursos para crianças a partir dos seis anos.
Como a pandemia mudou a velocidade da expansão
Quando a pandemiachegou, em 2020, a Rockfeller tinha 50 escolas. A crise que fechou salas de aula em todo o país poderia ter interrompido uma trajetória construída ao longo de 16 anos.
O que aconteceu foi o contrário. Desde os primeiros anos, a empresa vinha investindo em ferramentas digitais próprias, softwares educacionais, atividades online e recursos tecnológicos dentro das salas. Quando as restrições de circulação começaram, boa parte da infraestrutura necessária para migrar as aulas já estava pronta.
Segundo Belz, 72 horas depois do lockdown, os alunos já estavam fazendo as aulas de casa. O conteúdo utilizado presencialmente havia sido digitalizado anteriormente, o que reduziu o período de adaptação.
A experiência também criou um novo produto. O ensino remoto improvisado durante a crise evoluiu para o Rockfeller Live, modalidade que permanece no portfólio e ganhou espaço sobretudo entre adultos e clientes corporativos, para quem deslocamento e disponibilidade de horário são obstáculos frequentes.
Nos anos seguintes à pandemia, a rede praticamente dobrou de tamanho até chegar ao patamar atual, de cerca de 100 operações.
Quanto custa abrir uma escola da rede
Hoje, a Rockfeller trabalha com diferentes tamanhos de franquia. Segundo Belz, o investimento inicial parte de R$ 150 mil nos modelos menores e pode chegar a cerca de R$ 450 mil nas operações maiores.
O cálculo já considera taxa de franquia e capital de giro para o primeiro ano de funcionamento.
O prazo estimado para recuperar o investimento também varia conforme o porte da escola. Em uma unidade menor, gira em torno de 24 meses; nas maiores, pode chegar a aproximadamente 48 meses.
As equipes geralmente têm entre cinco e 15 profissionais, embora unidades maiores possam ultrapassar esse número. Há escolas da rede com entre 500 e 600 alunos.
Ao contrário de várias redes de serviços, a companhia evita shopping centers e prédios comerciais. O formato preferido são imóveis de rua, eventualmente dentro de pequenos centros comerciais que tenham acesso e fachada voltados para a rua.
Não existe, porém, uma população mínima rígida para receber uma franquia. Há escolas em municípios com apenas 15 mil ou 20 mil moradores quando os estudos apontam renda e público suficientes para sustentar a operação.
Na média, localidades acima de 50 mil habitantes já entram no radar. A rede utiliza ferramentas de geomarketing para avaliar renda, público-alvo e potencial de mercado antes de aprovar a abertura.
Por que cidades menores entraram no mapa
A próxima fase de crescimento deve passar não apenas pelas grandes capitais.
São Paulo é uma das prioridades, tanto na capital e na região metropolitana quanto em cidades do interior. Minas Gerais também aparece entre os mercados considerados estratégicos pela companhia. Uma das alternativas usadas para acelerar a entrada em determinadas regiões é a conversão de escolas independentes, que passam a operar sob a bandeira da Rockfeller.
A presença em municípios menores também deverá ganhar peso. O raciocínio é que cidades fora dos grandes centros podem ter demanda por cursos de idiomas, mas menos concorrência de marcas estruturadas.
Esse avanço deverá ocorrer de forma gradual. Belz diz que não espera novas inaugurações até o fim de 2026. Para 2027, a previsão é abrir entre 12 e 15 escolas. Nos anos seguintes, a intenção é aumentar esse ritmo progressivamente, abrindo 20, 30 ou mais unidades por ano conforme as condições econômicas e a maturação dos novos formatos.
Como a IA entrou nas aulas de inglês
Ao mesmo tempo em que amplia a rede física, a empresa tenta aumentar o número de produtos vendidos dentro de cada unidade.
Uma das apostas está na inteligência artificial. A tecnologia foi incorporada ao aplicativo utilizado pelos alunos e pode ser usada para praticar conversação, revisar conteúdos e tirar dúvidas de acordo com o estágio de aprendizagem de cada estudante.
Para Belz, a IA tem função complementar. “A tecnologia é um fator potencializador e não substitutivo das relações humanas”, diz. Segundo o executivo, a própria aprendizagem de uma língua depende de fala, contato e interação social.
A expansão do portfólio também inclui iniciativas fora do curso tradicional de idiomas. A companhia criou um programa bilíngue para escolas regulares, mantém editora própria e desenvolveu um modelo de contraturno para crianças.
Este último surgiu a partir de uma demanda dos próprios franqueados. Alguns perceberam que pais deixavam os filhos nas unidades por várias horas, embora a aula de inglês ocupasse apenas uma parte daquele período. As crianças permaneciam nas escolas enquanto aguardavam os responsáveis, mas sem uma programação estruturada.
A rede transformou essa necessidade no After School Rockfeller, programa de contraturno bilíngue que permite aos estudantes permanecer duas, três ou mais tardes por semana na unidade realizando diferentes atividades.
Além de resolver uma demanda das famílias, o formato cria uma nova fonte de receita para os franqueados e aumenta o valor obtido com a mesma estrutura física.
O que precisa acontecer para chegar às 350 escolas
Belz chama essa combinação de produtos de um “hub educacional”. A lógica é que a franquia deixe de depender exclusivamente da matrícula convencional em cursos de inglês e tenha diferentes formas de atender crianças, adultos, empresas e instituições de ensino.
Isso inclui aulas presenciais, cursos remotos, parcerias com colégios, programas bilíngues e contraturno.
A diversificação também será uma das ferramentas para atrair novos franqueados. Em vez de vender apenas uma escola de idiomas, a companhia tenta apresentar um negócio que possa aumentar o faturamento adicionando novas atividades ao longo do tempo.
“Hoje não tem tempo, espaço para ficar parado. Você fica parado, você é engolido”.
