Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
07/06/2026
5 min

Ele transformou a história da mãe com transtorno bipolar em um negócio de R$ 10 milhões

Ele transformou a história da mãe com transtorno bipolar em um negócio de R$ 10 milhões

Na infância, Renato Silva presenciou o primeiro surto psicótico da mãe, sem entender o que estava acontecendo. Ao longo dos anos, as crises se repetiram e a família demorou a obter um diagnóstico definitivo, que mais tarde apontou transtorno bipolar.

Essa experiência influenciou para que Silva escolhesse cursar medicina e, depois, se especializar em psiquiatria. Para ampliar o acesso à informação sobre saúde mental pelo Brasil, ele apostou no empreendedorismo, com clínica, produção de conteúdo educativo e um aplicativo de monitoramento de humor.

Em 2025, o conjunto de operações — que inclui clínica, cursos para profissionais de saúde, pós-graduação e produtos digitais — faturou R$ 10 milhões.

A empresa chega a um novo momento com o lançamento da segunda versão do aplicativo Estabiliza e o desenvolvimento de uma plataforma que integra médicos e pacintes. A expectativa é encerrar 2026 com receita de até R$ 15 milhões.

Da experiência familiar à psiquiatria

Natural de Uberlândia (MG), Renato Silva cursou medicina na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). A decisão pela especialização em psiquiatria foi natural.

“Quando eu tinha nove anos, minha mãe teve o primeiro surto psicótico. Na época, nossa família tinha poucos recursos e não conseguiu acesso a diagnóstico nem tratamento. Essa experiência influenciou diretamente minha decisão de trabalhar com saúde mental”, diz.

A residência foi realizada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Durante os primeiros anos de carreira, atuou em hospitais, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e consultório particular.

Foi nesse período que percebeu uma limitação do modelo tradicional de atendimento. “Eu sempre acreditei que os negócios eram a forma de impactar positivamente a vida das pessoas”, afirma. A partir disso, começou a se dedicar ao empreendedorismo.

Redes sociais como ferramenta de escala

Silva abriu a sua primeira clínica particular em 2014. A iniciativa foi a porta de entrada para a criação de um ecossistema de saúde.

Mesmo já formado em medicina, Renato continuava enfrentando dificuldades para acompanhar a evolução clínica da mãe, o que reforçou a percepção de que pacientes e familiares precisavam de mais suporte e informação.

A partir disso, ele decidiu redirecionar o empreendimento para alcançar um público maior. Apostou nas redes sociais para criar conteúdos educativos sobre o transtorno bipolar.

Além dos conteúdos abertos, ele criou, em 2021, uma comunidade paga voltada para familiares de pessoas com transtorno bipolar. O projeto tinha um objetivo claro: reduzir a falta de informação sobre o transtorno, problema que ele conheceu de perto ao acompanhar a trajetória da mãe até o diagnóstico correto.

A comunidade ultrapassou 2 mil participantes pagantes, de diferentes estados do Brasil. O modelo funcionava por assinatura e incluía conteúdos produzidos pelo próprio médico e interação mais próxima com os participantes.

Hoje, seus canais somam cerca de 900 mil seguidores e mais de 114 milhões de visualizações em plataformas como Instagram, TikTok, YouTube e Spotify.

Ao perceber que poderia gerar um efeito multiplicador maior formando médicos e psicólogos, passou a concentrar a monetização em cursos e pós-graduação para profissionais de saúde. Com isso, boa parte do conteúdo antes restrito à comunidade foi disponibilizada gratuitamente ao público.

“Se eu estou ensinando um médico ou um psicólogo sobre transtorno bipolar, cada médico vai atender 180 pacientes no mês. Dá para escalar muito mais pelos profissionais”, diz.

A operação também inclui a clínica Estabiliza, especializada em transtornos de humor. Atualmente, a estrutura reúne 14 profissionais, entre médicos, psicólogos e nutricionistas.

A proposta é oferecer atendimento supervisionado e treinado dentro da metodologia desenvolvida pelo psiquiatra, com preços inferiores aos cobrados em seu consultório particular e com mais possibilidades de horário.

O aplicativo que monitora humor e tratamento

A frente mais recente do negócio é o aplicativo Estabiliza, voltado para pessoas com transtorno bipolar. A ferramenta permite que pacientes registrem diariamente indicadores como humor, energia, qualidade do sono, atividade física, cognição e adesão ao tratamento medicamentoso.

Os dados são organizados em relatórios que podem ser compartilhados com médicos e psicólogos.

Segundo Renato, o objetivo é reduzir um dos principais problemas do acompanhamento clínico: a dependência da memória do paciente. “O registro também é importante para que os profissionais de saúde consigam tomar decisões adequadas de tratamento”, afirma.

“Se um paciente está deprimido, ele enxerga tudo de forma mais negativa. Quando tenta lembrar como estava semanas antes, pode achar que passou o mês inteiro mal, mesmo que os registros mostrem outra realidade”, diz.

O aplicativo oferece lembretes de medicação e consultas. Outro destaque é a área educacional integrada à plataforma, que reúne artigos e vídeos sobre transtorno bipolar e saúde mental.

A primeira versão registrou 70 mil downloads. Agora, a empresa investiu cerca de R$ 400 mil para aprimorar o aplicativo. A nova versão já acumula cerca de 10 mil usuários.

A aposta em inteligência artificial

Além do aplicativo, Renato lançou um agente de inteligência artificial voltado para médicos e psicólogos. A ferramenta funciona por WhatsApp e foi treinada com artigos científicos, livros e diretrizes sobre transtorno bipolar.

A proposta é oferecer suporte técnico para dúvidas clínicas sem depender de modelos generalistas de IA.

“O principal problema que a gente tem com chats abertos é que eles não têm uma curadoria da base a partir da qual respondem, o que pode resultar em alucinações”, diz.

A inteligência artificial está disponível apenas para médicos, sendo necessária a inserção do CRM para acessá-la.

Agora, a empresa trabalha no próximo passo: a integração entre o aplicativo dos pacientes e a ferramenta usada pelos profissionais, possibilitando que os médicos tenham acesso direto aos registros dos pacientes. A expectativa é lançar a primeira versão da plataforma ainda em 2026.

“Eu acho que essa camada de tecnologia finalmente completa a jornada de mais de uma década que é escalar realmente para milhões de pessoas”, afirma.

AutorBianca Camatta
FonteExame
Distribuído por