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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
05/07/2026
5 min

Ele transformou esta empresa em um império de R$ 130 bilhões comprando marcas esquecidas da internet

Ele transformou esta empresa em um império de R$ 130 bilhões comprando marcas esquecidas da internet

Marcas que um dia dominaram a internet e depois caíram no esquecimento — como a AOL, Vimeo e Evernote — costumam ser abandonadas ou vendidas a preço de banana.

Mas há quem tenha transformado esse cemitério digital em um negócio bilionário.

A empresa é a Bending Spoons, companhia de tecnologia italiana com sede em Milão.

O modelo da empresa é comprar negócios maduros da internet, quase sempre com dívida, cortar custos, reescrever a tecnologia e acelerar o crescimento.

A diferença em relação a um fundo de private equity está no que vem depois: a Bending Spoons não revende. Fica com os negócios e vive do lucro que eles geram.

Na última terça-feira, 1º, a empresa estreou na Nasdaq, a bolsa de tecnologia dos Estados Unidos, sob o código BSP. As ações subiram 40% no primeiro dia e fecharam a 40,5 dólares, o que levou o valor de mercado da companhia a cerca de 25 bilhões de dólares, ou perto de 130 bilhões de reais na cotação da estreia.

A oferta levantou 1,68 bilhão de dólares e transformou o fundador Luca Ferrari e três sócios em bilionários.

O que sustenta o modelo, segundo entrevista de Ferrari ao jornal Financial Times, é encontrar valor onde o mercado já desistiu.

A empresa procura companhias que ainda guardam um núcleo de qualidade — uma marca, uma base de clientes, partes boas do produto ou da equipe — e reconstrói todo o resto para torná-las muito melhores.

É essa engrenagem que a companhia agora precisa provar que funciona sob o escrutínio da bolsa.

O futuro da Bending Spoons depende de manter o ritmo de aquisições sem tropeçar na própria dívida.

A companhia tem cerca de 4,4 bilhões de dólares em passivos e mais de três quartos de suas aquisições foram fechadas nos últimos três anos, o que deixa em aberto como as diferentes partes do conglomerado vão se comportar no longo prazo.

Ferrari afirmou ao Financial Times que a empresa mantém uma lista de cerca de 100 alvos a qualquer momento e que, como companhia aberta, passa a ter mais flexibilidade para usar as próprias ações em novas aquisições.

Qual é a história da empresa

A história começa em 2013, em Copenhague, na Dinamarca.

Ferrari, Matteo Danieli e Francesco Patarnello se conheceram estudando engenharia e criaram, durante uma viagem pela Indonésia, um aplicativo de diário chamado Evertale.

O negócio levantou 1 milhão de dólares, mas quebrou em menos de três anos. Ferrari classificou o fracasso como libertador.

Restaram 40 mil dólares, dois funcionários que se destacavam e a vontade de tentar de novo.

O nome da nova empresa veio de uma sugestão de Danieli, inspirada no filme Matrix: Bending Spoons, algo como "entortando colheres", em referência à ideia central do longa de que a mente pode dobrar as regras aparentes da realidade.

Nos anos seguintes, a companhia passou a comprar aplicativos de celular em silêncio, tentando montar o que Ferrari chamou de máquina perfeita de operação.

A aposta que colocou a empresa no mapa

O nome da Bending Spoons ganhou o Vale do Silício em 2023, quando comprou o Evernote, aplicativo de anotações que já tinha sido febre e depois entrou em crise após sucessivas trocas de comando.

A aquisição gerou polêmica: os novos donos demitiram centenas de funcionários, incluindo toda a equipe nos Estados Unidos, aumentaram preços e retiraram recursos populares entre usuários antigos.

Ainda assim, Ferrari aponta o Evernote como a principal aquisição da empresa.

Segundo ele, o aplicativo é hoje quase um negócio inteiramente novo, com fundações tecnológicas praticamente reescritas e novos registros de usuários em alta após anos de queda.

Depois vieram, em sequência, Eventbrite, AOL, Vimeo, WeTransfer e outras marcas conhecidas, somando mais de 50 negócios adquiridos.

O exército de "Spooners"

Boa parte do funcionamento da empresa depende de um grupo de cerca de 700 jovens que a companhia chama de "Spooners", contratados para substituir equipes demitidas e injetar vida nos negócios comprados.

A seleção é dura: no ano passado, menos de 300 foram contratados entre 800 mil candidatos, segundo Ferrari.

A empresa paga bem para atrair recém-formados que poderiam seguir para fundos de investimento.

A receita por Spooner chegou a 2,57 milhões de dólares no ano passado.

O próprio Ferrari reconhece que depender de um grupo pequeno de funcionários muito motivados para tocar as transformações pode acabar limitando as ambições da companhia.

Quais são as críticas ao modelo

O método da Bending Spoons não é livre de contestação.

As aquisições costumam envolver demissões em massa, e a empresa é criticada pela baixa transparência financeira, o que dificulta analisar como os negócios comprados se comportam depois de absorvidos.

A falta de abertura de dados, aliás, foi um dos motivos que levaram alguns bancos a recusar empréstimos à companhia — segundo Ferrari, um dos fatores que pesaram na decisão de abrir capital, já que credores preferem emprestar a empresas listadas e mais reguladas.

Há ainda a questão do tamanho. À medida que o conglomerado cresce, fica mais difícil encontrar alvos grandes o suficiente para mover o resultado, e a conta da dívida pesa mais num ambiente de juros altos.

A estreia na bolsa deu à Bending Spoons uma nova moeda de troca — as próprias ações — para seguir comprando. Resta saber se o mercado vai continuar recompensando um modelo que aposta em ressuscitar o que a internet deixou para trás.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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