Ele vai faturar R$ 100 milhões transformando o tubo da pasta de dente em telha para construção

Se você for para o interior, verá que a maioria das telhas de casas do Brasil são de fibrocimento. É a mais barata. Também é a que mais costuma trincar. E trocá-la custa caro.
Pois a empresa Nexiqon nasceu para brigar por esse mesmo telhado.
A fábrica, inaugurada em março em São José dos Campos, transforma rejeito industrial de difícil descarte em telha: tubos de pasta de dente, blísteres de remédio, areia de fundição. Segundo a empresa, o produto custa o mesmo que o fibrocimento e não trinca, não esquenta e não propaga chamas.
A empresa é uma fábrica de 3.200 metros quadrados com capacidade para absorver 22 milhões de quilos de resíduo por ano e produzir mais de 90.000 telhas por mês.
Está nas mãos de Jaderson Yelisetty, que toca a operação, e Daniela Kallas, advogada especializada em direito internacional que cuida das relações institucionais. Os dois se conheceram em outra empresa, tentando construir casas em favela com tubo de pasta de dente.
O momento é de virada. A fábrica foi inaugurada em março, mas até agora a Nexiqon está finalizando a validação técnica do produto — a papelada que prova que a telha entrega o que a empresa diz que entrega. A produção em escala começa no mês seguinte, para atender as primeiras demandas de venda, que vêm de empreiteiras e de pequenas empresas de varejo. É quando a tese sai do laboratório e vai para o telhado.
"Nossos produtos não são apenas uma alternativa sustentável, mas uma solução superior em qualidade e desempenho", afirma Jaderson, CEO da Nexiqon.
A empresa projeta faturar 100 milhões de reais no primeiro ano de operação e abrir até 120 vagas diretas. O plano é levantar mais duas a três unidades como a de São José dos Campos nos próximos dois a três anos, espalhadas pelo país. A lógica não é construir uma fábrica gigante, mas várias pequenas, perto de onde a demanda está.
Como esta história começou
A ideia apareceu anos atrás, em outra empresa, onde Jaderson e Daniela trabalhavam. Era um piloto de construção em favelas usando tubos de pasta de dente como matéria-prima. "Era uma construção bem disruptiva", diz Daniela Kallas. O projeto não foi para frente ali dentro.
Daniela vinha do direito internacional humanitário e migrou para o direito internacional privado.
"Foi a época que eu tive que ganhar dinheiro", diz. Passou cerca de dez anos ali, mas continuou procurando investimentos de impacto.
Quando um fundo procurou os criadores do projeto abandonado para investir, os dois analisaram a operação e decidiram entrar com a mesma porcentagem do fundo. Hoje Jaderson toca a operação e Daniela cuida das relações institucionais e governamentais.
Três produtos, três defeitos
O mercado brasileiro de telhas é dominado por fibrocimento, aço galvanizado e cerâmica. Cada um tem um problema crônico, segundo Jaderson.
O fibrocimento absorve umidade e trinca. "Com o tempo ela vira quase com papel", diz. QO aço galvanizado esquenta ao sol e faz barulho na chuva. A cerâmica é frágil, pesada e cara de instalar.
Além disso, Jaderson diz que a construção civil responde por 38% de todo o CO2 emitido no mundoe absorve quase metade de toda a matéria-prima extraída. Foi esse o primeiro pilar da tese da Nexiqon: um setor altamente degradante e sem iniciativas concretas para mudar isso — ainda que iniciativas de economia circular venham ganhando espaço no setor.
Como foi o uso da inteligência artificial neste projeto
O problema técnico era grande. Existem dezenas de tipos de rejeito industrial que poderiam virar matéria-prima: plástico aluminizado, blíster de medicamento (que combina PVC e alumínio), areia de fundição, rejeito de minério de ferro. Mas juntar um pouco de cada um não funciona.
"Tem todo um estudo de qual a melhor composição desses materiais, o blend que eu preciso fazer para poder chegar no produto que tem as características mecânicas e físicas que eu preciso", diz Jaderson. Blend, no caso, é a mistura exata de resíduos que forma o material.
O número de combinações possíveis era grande demais para testar em bancada. Levaria anos. A saída foi desenvolver uma inteligência artificial capaz de simular virtualmente as junções, filtrando por características mecânicas e físicas. Segundo Jaderson, o sistema rodava milhões de testes e devolvia cinco a dez combinações viáveis. Só essas iam para a bancada, para o teste empírico real.
"Isso daí economizou tempos e anos de pesquisa para a gente desenvolver o nosso produto", afirma. "Por isso que a gente conseguiu fazer isso de uma forma tão rápida."
A linha de produção também teve de ser desenvolvida do zero. Não existia no mercado equipamento para processar esse tipo de material.
O preço é a tese
O ponto que Daniela faz questão de marcar é outro. "A gente conseguiu chegar num produto altamente tecnológico, mas o nosso preço é o mesmo preço do produto que tá no mercado", diz. Segundo ela, a telha é isolante térmico e acústico e não propaga chamas, e custa o que custa uma telha de fibrocimento.
"A gente dá oportunidade para uma pessoa inclusive de baixa renda", afirma Daniela. "Não tem que ficar trocando a telha toda hora e ter uma condição de vida um pouco melhor."
Quais são os desafios
A construção civil brasileira é conservadora. Alvenaria, tijolo, madeira, cerâmica. Tecnologias como steel frame e wood frame — sistemas construtivos que usam estruturas de aço ou madeira no lugar da parede de tijolo — só começaram a se popularizar no Brasil nos últimos anos.
A aposta de Jaderson é entrar por essa porta. Os painéis da Nexiqon foram desenvolvidos para aplicação em frame, incluindo um sistema que ele chama de joystick, que usa as estruturas de metal para entrelaçar paredes sem depender de camadas duplas.
"Quem está inovando na forma de construir vai precisar passar pelos nossos materiais", diz Jaderson. "No estilo frame você não usa mais tijolo. Existem materiais específicos para isso, e o nosso material é um deles."
É uma aposta em quem já decidiu mudar, não em convencer quem não quer.
Uma das grandes construtoras do Minha Casa Minha Vida procurou a Nexiqon. Segundo Daniela, essas construtoras enfrentam um problema no Norte e no Nordeste: o preço do material chega muito mais alto por causa do frete. As fábricas tradicionais de telha são grandes e concentradas em um único lugar, e a margem some quando a entrega passa de 450 quilômetros de raio.
A Nexiqon montou a operação para o contrário disso. "Como é tudo desenvolvido por nós mesmo, a gente consegue levantar uma fábrica em dois, três meses", diz Jaderson. A ideia é replicar plantas menores perto da demanda, uma perto de Manaus, uma no Pará. É uma lógica parecida com a de outras empresas que cresceram no segmento de habitação acessível apostando em novos padrões de entrega.
E tem um detalhe que fecha a lógica: a matéria-prima está em todo lugar. "Primeiro tem lixo naquela região. Lixo tem todo lugar", diz Jaderson.
Como o lixo vira receita
O modelo de matéria-prima funciona em três frentes, segundo Jaderson.
Tem material de difícil descarte, em que a indústria precisa pagar para fazer a descaracterização e a incineração. Nesses casos, a empresa manda o resíduo para a Nexiqon e às vezes subsidia o frete. Sai mais barato do que destinar do jeito tradicional.
Tem material com valor econômico de mercado, como o que tem alumínio na composição. Esse a Nexiqon compra.
E tem material que é um problema sem solução, como blíster de medicamento, em que a indústria paga caríssimo para destinar. Nesses casos, segundo Jaderson, existe linha em que a própria indústria pagaria para a Nexiqon usar o resíduo.
O que vem depois da telha
A primeira linha de produtos se chama Termoflex, telhas simples, telhas sanduíche, tipos específicos. A telha é o produto mais básico da casa e o ponto de entrada mais fácil.
Mas a gama é maior. Painéis, pisos para áreas úmidas.
"A gente tem uma gama de materiais sendo desenvolvidos e que vão estar num segundo momento na nossa linha de produção", diz Daniela.
A fábrica fica ao lado do centro de inovação tecnológica da prefeitura de São José dos Campos, uma escolha que Daniela descreve como estratégica tanto pela logística — perto de São Paulo e do Rio — quanto pelas parcerias. O teste real começa agora, quando a produção sai da validação e vai para o mercado.
