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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
09/09/2026
4 min

Ele vendeu a transportadora para comprar café e hoje disputa mercado com as gigantes das commodities

Empresa baiana financia a compra dos clientes no exterior com seguro de crédito e avançou de R$ 96,6 milhões para R$ 249,2 milhões em receita operacional líquida

Ele vendeu a transportadora para comprar café e hoje disputa mercado com as gigantes das commodities

O capixaba Renan Lippaus cresceu perto de caminhões. A família trabalha com transporte há décadas. Aos 25 anos, ele fundou a própria transportadora.

Levou pouco tempo para concluir que o negócio tinha um limite. As margens do transporte rodoviário eram apertadas. Os clientes pagavam em cerca de 120 dias. Os custos vinham antes: diesel, salários, pneus, parcelas de caminhão. "Eu vi que não era um grande negócio", diz Lippaus.

Em 2018, sem sair da logística, ele começou a comprar café em grãos na Bahia e a revender para torrefadoras brasileiras. A transportadora seria vendida no início de 2024. O café virou o negócio principal.

Em 2025, a Contegran alcançou R$ 249,2 milhões de receita operacional líquida, alta de 158% sobre o ano anterior. O resultado colocou a companhia na terceira posição da categoria de R$ 150 milhões a R$ 300 milhões Ranking EXAME Negócios em Expansão 2026.

Do mercado interno à exportação

A operação começou local: compra de café de produtores baianos, revenda para a indústria de torrefação no Brasil.

Em 2022, apareceram as primeiras oportunidades de exportação. Em 2024, um cliente que já comprava café trouxe demanda de açúcar, e a companhia entrou no produto.

Outras commodities entraram e saíram no caminho. A Contegran operou milho e cacau, e desistiu das duas. A conta não fechava.

"Margens muito baixas no Brasil trazem muito risco atrelado, porque as regras mudam muito rápido", afirma o empresário.

Hoje a empresa vende café e açúcar para a Europa, a Ásia, a África e o Oriente Médio. Não opera nos Estados Unidos, maior comprador do café brasileiro. A ausência foi uma decisão comercial tomada anos atrás, quando a companhia começou a exportar.

"Onde você tem o maior consumo, você também tem a maior concorrência", diz Lippaus.

A decisão ganhou outro contorno em 2025, com as tarifas do governo americano sobre produtos brasileiros. A Contegran não tinha embarques para os Estados Unidos.

Como a Contegran mais que dobrou de tamanho

O crescimento de 158% não veio de um produto novo. Veio da forma de vender.

Uma trading que disputa clientes apenas por preço tem pouco a oferecer a uma indústria que já compra de outros fornecedores. O importador precisa emitir carta de crédito no banco e pagar no embarque. Trocar de fornecedor custa dinheiro e trabalho.

A Contegran passou a vender a prazo no mercado externo. Para bancar o risco, contratou apólices de seguro de crédito. O cliente estrangeiro deixa de precisar do banco.

O time comercial usa isso na abordagem. Procura o importador já com um limite pré-aprovado pela seguradora e pelo compliance da empresa.

"O comercial já aborda o cliente dizendo que ele tem crédito conosco", diz Lippaus.

A companhia tem cerca de 20 clientes ativos. A maioria é de revendedores e importadores que redistribuem o produto dentro do país de destino.

Os próximos passos do negócio

O próximo passo é deixar de ser apenas compradora e vendedora.

A Contegran constrói uma usina de açúcar e etanol de cana na Bahia. A equipe técnica estuda um modelo flex, com etanol de milho na entressafra, para manter a planta em operação quase o ano todo. O bagaço vira energia elétrica. A vinhaça vira biometano para abastecer a frota interna.

A companhia não divulga a cidade. A planta deve estar totalmente pronta em 2032, com mais de 3.000 empregos diretos. O escoamento está previsto pelo Porto de Aratu, perto de Salvador.

A companhia também montou um braço de energia. Trabalha com petróleo, gás e derivados.

A operação ainda não faturou. Não houve nenhum embarque. A empresa validou fornecedores no Oriente Médio, na Turquia, em Singapura e na Malásia, estrutura uma equipe na Europa e assinou contratos que ainda não foram performados.

O primeiro embarque de petróleo cru e gás liquefeito está previsto para setembro.

Lippaus vê espaço aberto pela geopolítica. A Rússia sancionada retira produto do mercado. O conflito no Oriente Médio reduz o fluxo. Sobram clientes procurando fornecedor, sobretudo na Ásia.

A empresa tem um sócio único e executivos contratados. Lippaus descarta abrir capital: uma trading precisa decidir rápido, e um conselho torna tudo mais lento. Admite trazer sócios estratégicos no futuro, desde que tragam mercado, não só dinheiro.

A companhia zerou praticamente a dívida em 2026. O que limita o crescimento agora, segundo ele, é achar bancos com apetite para financiar trading.

AutorIsabela Rovaroto
FonteExame
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