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NegóciosMPOL
20/07/2026
6 min

Ele vendeu carros por 40 anos. Agora quer faturar R$ 216 milhões com a maior dor dos elétricos

Ele vendeu carros por 40 anos. Agora quer faturar R$ 216 milhões com a maior dor dos elétricos

O mercado de carros eletrificados deve dobrar de tamanho em 2026 e fechar o ano com cerca de 450 mil unidades vendidas, segundo a Anfavea.

Mas há um ponto cego nesse crescimento. A bateria, que pode responder por metade do valor do veículo, é vendida hoje sem nenhum diagnóstico técnico independente que ateste sua saúde. O comprador confia na palavra do vendedor. O vendedor não tem como provar o que afirma. Para a venda de seminovos, que vai começar a crescer com força nos próximos anos, essa tem tudo para ser a maior dor.

Uma nova empresa está entrando no mercado para tentar resolvê-la. É a AE Volt Brasil, que inicia suas operações comerciais no país como representante exclusiva da MOBA, empresa francesa que criou a primeira tecnologia do mundo para diagnóstico de saúde de baterias.

Com investimento de 5 milhões de reais, a empresa conecta um aparelho à porta de diagnóstico do carro e emite, em menos de dois minutos, um certificado com QR Code que mede quanta vida resta na bateria, em qualquer marca de híbrido ou elétrico.

A largada acontece agora porque o mercado brasileiro chegou ao ponto em que os primeiros elétricos usados começam a voltar para as lojas.

Gerson Barbosa, fundador e CEO da AE Volt, divide o setor em quatro etapas: a venda do carro zero, a expansão dos pontos de recarga, a chegada dos usados para troca e, por último, as oficinas. É na terceira etapa que a empresa aposta.

"Como que você vai aceitar um carro elétrico na troca sem saber o estado real da saúde daquela bateria?", diz Barbosa.

Executivo com mais de 40 anos no setor automotivo, Barbosa construiu a carreira vendendo carros — começou revendendo uma motocicleta na faculdade, teve cinco lojas e chegou a diretor de concessionária. Foi estudando o avanço dos elétricos que enxergou o negócio.

"Mais importante do que o diagnóstico é destacar que esse diagnóstico gera um certificado", afirma.

O documento é reconhecido pela CARA, organização europeia cuja chancela é aceita como padrão técnico no mundo todo.

Para o primeiro ano, a expectativa da empresa é faturar 216 milhões de reais. A conta parte da distribuição de equipamentos por uma rede de parceiros: serão cerca de 130 aparelhos em pontos estratégicos de oito cidades no início, com meta de chegar a 1.000 equipamentos em 15 estados até o fim de 2026.

Como funciona o diagnóstico

O aparelho da MOBA se conecta à porta de diagnóstico do veículo, a mesma usada por mecânicos, e faz a leitura em cerca de dois minutos. O resultado é processado em nuvem e devolvido como um certificado de saúde da bateria, o chamado State of Health (SoH, ou estado de saúde, na sigla em inglês), que indica quanta capacidade a bateria ainda tem em relação à original.

Além disso, o diagnóstico analisa parâmetros como estado de carga, tensão, temperatura das células, resistência interna e possíveis falhas. Cada certificado sai com um QR Code de verificação digital, que pode ser entregue ao comprador no momento da venda.

Barbosa compara o processo à avaliação tradicional de um carro. Um profissional levaria mais de dez minutos para avaliar um veículo a combustão, afirma. O aparelho faz a leitura da bateria em uma fração desse tempo. "Isso revoluciona o mercado de automóveis", diz.

Na Europa, a tecnologia da MOBA é usada por mais de 100 clientes corporativos, entre eles a Toyota, a Arval — braço de locação de frotas do grupo BNP Paribas —, a Aramisauto e a Emil Frey.

Como é o  modelo de receita

O faturamento da AE Volt é baseado no que a empresa chama de crédito: cada diagnóstico emitido consome um crédito. Os parceiros da rede recebem os equipamentos e geram os diagnósticos, e é a soma dessas emissões que forma a receita da companhia.

O diagnóstico avulso custa 1.200 reais. Mas o modelo não para aí. A empresa estuda uma assinatura mensal para donos de carro que dá direito a diagnósticos periódicos feitos por um representante que vai até a casa do cliente — uma espécie de acompanhamento contínuo da saúde da bateria.

O mesmo serviço é desenhado para frotas.

Locadoras que operam carros elétricos precisam saber em que estado a bateria volta a cada devolução. Barbosa cita o contrato recente da Localiza para a compra de 10 mil carros da BYD como exemplo do tamanho dessa demanda. Seguradoras e montadoras também estão no radar, com reuniões já agendadas, segundo o executivo.

Como é a aposta na inteligência artificial

Para Victoria Luz, responsável pela parte de inteligência artificial da AE Volt, o diagnóstico é apenas a porta de entrada. O valor maior está nos dados que a rede acumula a cada leitura.

"A partir do momento que a gente começa a trabalhar com essa rede de eletrificados e detém as informações de diagnóstico, a gente começa a entender quais são os carros que costumam ter uma bateria mais duradoura, quais costumam dar mais problema, qual é o tempo médio de vida da bateria", diz Victoria.

Esse volume de informação, segundo ela, interessa a seguradoras, ao mercado financeiro e a locadoras, que passam a ter uma base para avaliar a saúde de uma frota. A inteligência artificial entraria para capturar esses dados, identificar padrões e antecipar problemas antes que eles aconteçam. "A inteligência artificial vai entrar como capacitador para que a gente possa habilitar outros modelos de negócio", afirma.

A empresa projeta uma plataforma que reúna, além do diagnóstico, uma rede de oficinas por geolocalização, um canal de notícias do setor e serviços de manutenção preditiva. Por ora, são premissas a validar conforme os dados começam a entrar.

Quais são os desafios pela frente

A aposta tem obstáculos concretos. O primeiro é de mentalidade. A AE Volt planeja campanhas que Barbosa descreve como "de fora para dentro do mercado", com o objetivo de convencer o consumidor de que um carro híbrido ou elétrico não deveria ser comprado sem diagnóstico. É uma mudança de hábito que ainda não existe e que precisa ser construída.

O segundo é de execução. O plano de faturar 216 milhões de reais no primeiro ano depende de escalar de cerca de 130 para 1.000 equipamentos em poucos meses e de que uma rede de parceiros — hoje formada por lojas multimarcas escolhidas dentro do círculo de relacionamento do fundador — produza diagnósticos em volume.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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