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NegóciosMPOL
06/09/2026
13 min

Ele vendeu geladinho, virou office boy e hoje comanda um negócio de R$ 150 milhões

O paulistano Leonardo Ferreira fundou o Grupo Pleno em 1996 e hoje atua com LED, vídeo, som, luz e tecnologia para grandes eventos

Ele vendeu geladinho, virou office boy e hoje comanda um negócio de R$ 150 milhões

O mercado de eventos vive de coisas que aparecem por poucas horas e depois somem. Um estande é montado, recebe milhares de pessoas e desaparece dias depois. Por trás dele ficam caminhões, cabos, televisores, painéis de LED, caixas de som, refletores, computadores e equipes responsáveis por fazer tudo funcionar ao mesmo tempo.

É nesse mercado que Leonardo Ferreira, conhecido como Léo da Pleno, trabalha há três décadas. Ele fundou a Pleno em 1996 e transformou uma operação que começou com câmeras e tripés em um grupo que aluga painéis de LED, televisores, equipamentos de som, iluminação e computadores para feiras, congressos e eventos de empresas.

O Grupo Pleno tem cerca de 500 funcionários e operações em diferentes capitais brasileiras.

A empresa completa 30 anos em 2026 em meio a uma nova etapa de expansão. O faturamento ficou perto de R$ 120 milhões em 2025 e deve terminar este ano entre R$ 140 milhões e R$ 150 milhões.

Ao mesmo tempo, o grupo tenta levar aos clientes serviços que antes eram contratados de empresas diferentes, como som, luz, transmissão de vídeo, criação de conteúdo e infraestrutura de informática.

“Eu não queria abrir uma empresa. Eu queria crescer dentro da empresa em que trabalhava. Comprei uma câmera e um tripé para alugar para eles”, afirma Leonardo Ferreira. A compra acabou sendo interpretada pelo empregador como o início de um concorrente. Leonardo foi demitido e, aos 21 anos, começou o negócio que se tornaria a Pleno.

Até 2030, o empresário pretende levar o faturamento do grupo a R$ 1 bilhão, chegar a 2.000 funcionários e ampliar a presença para 14 ou 15 estados. Outro projeto é uma nova sede de 15 mil metros quadrados em São Paulo, prevista para ficar pronta no fim de 2029.

Antes da Pleno, vieram o papelão e o geladinho

Leonardo nasceu em São Paulo em 1975. Sua mãe havia deixado João Pessoa durante a gravidez e chegou à capital paulista sem condições de criar o filho.

Boa parte da infância dele foi passada em uma casa acolhedora comandada por uma mulher que as crianças chamavam de Vó Carmen. Ao longo dos anos, dezenas de crianças passaram pelo local.

Ainda criança, Leonardo começou a procurar maneiras de conseguir dinheiro.

Recolhia papelão e peças que podiam ser vendidas a ferros-velhos. Também vendia geladinho na rua.

Uma dessas tentativas terminou com clientes que pegaram o produto e não pagaram. No dia seguinte, ele voltou ao mesmo lugar e aumentou o preço.

“Foi a primeira vez que eu aprendi que o preço é formado também pelo calote”, diz.

Depois da morte de Vó Carmen, ele foi morar com uma família que o havia acolhido. Mais tarde, aos 16 anos, passou a viver com parentes biológicos em Guaianases, na zona leste de São Paulo.

Nesse período, ajudava um tio a fabricar varais de arame e trabalhava nos fins de semana na adega de um irmão de criação.

De office boy a cinegrafista

A entrada no mercado de eventos veio por meio de outro irmão de criação.

Leonardo conseguiu trabalho como office boy em uma empresa que filmava congressos médicos. Naquela época, os encontros eram gravados e o conteúdo depois era vendido em fitas para médicos.

A empresa oferecia um curso de cinegrafista. Leonardo não tinha dinheiro para pagar, mas pediu para assistir às aulas sem custo.

Depois percebeu uma oportunidade prática.

As equipes saíam cedo para cobrir congressos e alguns cinegrafistas se atrasavam. Leonardo começou a chegar antes do horário. Quando alguém faltava, ele ocupava a câmera.

“Eu era o office boy. Comecei a chegar às 7 da manhã. Quem faltava me dava a oportunidade de entrar na sala”, afirma.

Ele virou cinegrafista e, com o tempo, passou a coordenar equipes de dezenas de pessoas.

Foi nessa empresa que comprou sua primeira câmera e seu primeiro tripé.

A intenção, segundo Leonardo, era alugar os equipamentos para o próprio empregador. Colegas interpretaram a compra como preparação para abrir um concorrente. Quando voltou de férias, ele foi dispensado.

Em 1996, aos 21 anos, abriu com um sócio a Rocha e Ferreira Audiovisuais Ltda., que usava Pleno como nome fantasia.

A empresa quase acabou antes de crescer

Os primeiros anos foram dedicados aos mesmos congressos médicos que Leonardo já conhecia.

A antiga empregadora continuava com os eventos de maior receita. A Pleno ficava com trabalhos menores.

O dinheiro pagava equipamentos e despesas, mas sobrava pouco.

No fim dos anos 1990, com a primeira filha a caminho, Leonardo e o sócio decidiram se separar. O sócio ficou com o carro. Leonardo ficou com os equipamentos.

Ele voltou para Guaianases e passou a aceitar trabalhos como freelancer para outras empresas de eventos.

Foi nessa fase que participou de uma palestra de Roberto Shinyashiki em São Roque. O profissional responsável pelo áudio não apareceu, e Leonardo acabou assumindo outras tarefas além da filmagem.

O trabalho abriu espaço para novos eventos e colocou Leonardo em contato com empresas que contratavam equipamentos sem necessariamente querer comprá-los.

Essa observação acabaria definindo o modelo da Pleno.

A TV de plasma muda o rumo do negócio

No começo dos anos 2000, televisores de plasma ainda custavam caro e eram pouco comuns no Brasil.

Leonardo viu uma dessas telas em um evento e decidiu comprar o equipamento para alugá-lo a produtoras.

“Quando eu olhei para aquela televisão, falei: ‘É isso, minha vida é isso’”, diz.

A lógica era simples. As empresas precisavam das telas em determinados eventos, mas não queriam gastar para manter equipamentos que poderiam ficar parados depois.

A Pleno comprava e alugava.

Leonardo vendeu um carro para financiar uma das primeiras compras.

A operação cresceu. Em 2002, ele voltou ao Tatuapé, na Zona Leste, com cerca de dez televisores e alugou uma casa para guardar os equipamentos.

Com o tempo, a empresa comprou imóveis vizinhos e ampliou o espaço.

As TVs também ficaram maiores e começaram a ser combinadas em video walls, conjuntos de várias telas que formam uma imagem única.

As bordas entre os aparelhos, porém, incomodavam Leonardo.

Ele chegou a retirar as molduras de duas TVs para tentar aproximar as imagens. A experiência terminou com dois equipamentos perdidos.

A resposta para esse problema apareceria alguns anos depois.

Uma feira na China apresentou o LED que ele procurava

No fim dos anos 2000, Leonardo fez uma viagem à China para conhecer fabricantes e feiras de tecnologia.

Ali encontrou painéis formados por milhares de pequenas luzes de LED.

A imagem ainda não tinha a definição que ele queria para quem estava perto da tela, mas havia uma diferença importante: o painel podia formar uma superfície grande sem as bordas que dividiam os videowalls.

“Eu olhei para aquilo e falei: ‘Não está no ponto, mas está na hora de mostrar no Brasil o que vai acontecer com o vídeo’”, afirma.

A Pleno começou a importar painéis.

Vieram também os problemas.

Parte das pequenas lâmpadas queimava depois de alguns meses. Como o fornecedor ficava na China, uma substituição podia envolver produção, transporte marítimo, desembaraço e novos testes no Brasil.

Leonardo estima que uma operação desse tipo podia levar meses. Segundo ele, os problemas com uma das primeiras compras causaram uma perda de cerca de US$ 500 mil.

A resposta foi tentar entender como os painéis eram fabricados.

Por que abrir uma fábrica na China

Entre 2010 e 2012, Leonardo manteve uma fábrica de painéis de LED na China.

A unidade chegou a ter cerca de 180 funcionários.

A experiência colocou o empresário em contato com a cadeia de produção das telas. Um painel reúne peças que podem vir de empresas diferentes: pequenas lâmpadas, placas eletrônicas, fontes de alimentação, estruturas e outros componentes.

A fábrica própria, porém, tinha um problema de escala.

Leonardo fabricava principalmente para a Pleno, enquanto fornecedores chineses produziam quantidades muito maiores para clientes de vários países. Com volumes maiores, conseguiam preços mais baixos.

Ele encerrou a fabricação própria e passou a trabalhar diretamente com diferentes fornecedores.

O conhecimento adquirido nesses dois anos virou uma ferramenta para especificar produtos.

Hoje, Leonardo diz passar ao menos 40 dias por ano na China. As viagens são usadas para visitar feiras, fabricantes e engenheiros.

Em vez de escolher apenas um catálogo pronto, a Pleno pede alterações nos produtos que pretende trazer ao Brasil.

O número do painel explica a distância entre as luzes

Uma parte importante dessa busca está na distância entre os pontos que formam uma imagem.

Painéis chamados de 2.9, por exemplo, têm 2,9 milímetros entre um ponto de LED e outro. Em um modelo 1.9, essa distância cai para 1,9 milímetro.

Quanto mais próximos ficam os pontos, menos o olho percebe os espaços entre eles quando está perto da tela.

Isso importa especialmente em feiras.

Uma pessoa pode passar a 1 ou 2 metros do painel instalado dentro de um estande. A mesma tela que parece uniforme a 10 metros pode revelar pequenos pontos e espaços quando vista de perto.

A Pleno trabalha hoje com painéis de 2.9, 2.6, 1.9 e, em alguns produtos, 1.5.

A empresa também participou de alterações na superfície das placas.

Um dos modelos tradicionais usa uma proteção conhecida no setor como máscara, uma camada colocada sobre as pequenas lâmpadas.

Leonardo trabalhou com fornecedores chineses para desenvolver versões sem essa camada, mudando a cor da placa e da cola usada na montagem.

Outro desenvolvimento usa uma resina chamada AOB sobre os pontos de LED. Segundo a Pleno, a camada ajuda a proteger as pequenas lâmpadas contra impactos e reduz a quantidade de pontos queimados.

Painel de LED agora também se mexe

O portfólio atual vai além da parede retangular de LED.

Um dos equipamentos é o Knect. Cada módulo mede cerca de 50 por 50 centímetros e é dividido em partes que conseguem se movimentar para frente e para trás.

Com software, é possível fazer apenas uma região da tela avançar enquanto o restante continua no mesmo lugar.

Uma apresentação pode, por exemplo, mostrar um gráfico e fazer uma parte da imagem sair fisicamente da parede.

Outro produto é um piso de LED interativo. Sensores instalados sob as placas identificam onde as pessoas pisam e permitem que a imagem responda ao movimento.

Há ainda cubos de LED nos quais as imagens continuam pelas quinas, painéis vazados que deixam ver objetos colocados atrás da tela e peças cortadas em formatos geométricos para formar letras e símbolos.

As TVs continuam no catálogo.

O grupo mantém mais de 1.000 aparelhos espalhados pela operação brasileira, segundo a empresa. Alguns modelos têm tela sensível ao toque ou transparente.

De onde vem 93% da receita

Apesar do número de produtos, a forma de ganhar dinheiro pouco mudou desde a primeira TV de plasma.

O Grupo Pleno compra equipamentos e os aluga.

Entre 93% e 94% da receita vem da locação, segundo a empresa.

Os clientes incluem organizadores de feiras, agências e empresas que montam estandes e realizam congressos, lançamentos e convenções.

O equipamento novo costuma ficar primeiro nesse mercado.

Depois de alguns anos, quando a Pleno compra uma versão mais recente, parte dos painéis antigos ganha outro destino.

A empresa criou uma operação para instalá-los em lojas, restaurantes e postos de combustível por contratos de quatro anos. Durante esse período, a Pleno faz instalação e manutenção. No fim do contrato, o equipamento fica com o cliente.

Painéis que já não podem voltar para uso comercial também podem seguir para a Recicla, organização mantida pelo grupo na Brasilândia. As peças são usadas em atividades como cursos de robótica e trabalhos artísticos.

O impacto da pandemia

Até 2020, a Pleno estava concentrada principalmente em vídeo.

A paralisação dos eventos presenciais obrigou a empresa a usar a estrutura de outra maneira.

O showroom virou estúdio.

Empresas, professores, palestrantes e artistas passaram a transmitir eventos pela internet.

Para fazer uma transmissão completa, a Pleno precisava de câmeras, som, iluminação, computadores e equipe de vídeo.

Parte desses serviços era terceirizada.

Quando os eventos presenciais voltaram, Leonardo decidiu manter essas áreas por perto e entrou em sociedade com empresas do setor.

A Trio Stage passou a cuidar de som e iluminação. A Dengo Filmes atua com captação, transmissão e produção de conteúdo. A ZAF Tecnologia fornece computadores, tablets, celulares, impressoras e redes para eventos.

O grupo também trabalha com sistemas de credenciamento.

A Pleno continua sendo a empresa que mais pesa na receita, principalmente com LED e televisores.

O desafio agora é vender os outros serviços aos mesmos clientes.

Uma empresa que já aluga um painel pode contratar também o som, a iluminação, os computadores e a transmissão.

Leonardo usa a expressão “soluções integradas” para esse modelo.

São Paulo continua no centro da operação

Na capital paulista, a estrutura está espalhada por diferentes imóveis na Zona Leste da capital paulista.

Um depósito no bairro do Carrão, também na zona leste, guarda equipamentos de som e iluminação.

Perto dali, no bairro do Belém, ficam os painéis de LED e a área de manutenção.

No Tatuapé estão televisores, equipamentos de informática, áreas administrativas, equipes comerciais e pré-produção.

A empresa mantém técnicos próprios para consertar os módulos de LED.

Quando algumas pequenas lâmpadas apresentam problema depois de um evento, o módulo pode ser retirado da placa, reparado e colocado de volta no estoque.

O grupo também fabrica estruturas metálicas, bases para televisores e cases, as caixas rígidas usadas para transportar equipamentos.

Fora de São Paulo, a empresa mantém operações no Rio de Janeiro, Recife, Goiânia, Curitiba, Belo Horizonte e Florianópolis e começou a ampliar o atendimento no Nordeste.

A ideia é manter equipamentos e equipes nas próprias regiões, evitando que todo evento dependa de material enviado de São Paulo.

O crescimento em 2026

Leonardo esperava uma desaceleração do mercado de eventos em São Paulo em 2026.

A leitura dele é que os primeiros anos depois da pandemia carregaram eventos que haviam sido adiados em 2020 e 2021.

Isso fez 2022, 2023 e 2024 apresentarem volumes que não seriam repetidos indefinidamente.

Neste ano, a operação paulista chegou a registrar queda próxima de 9% em parte do período. A expectativa é terminar o exercício perto da estabilidade.

No país como um todo, o cenário é diferente.

Novas operações, como Curitiba e Belo Horizonte, ainda estão ganhando clientes. Leonardo espera que esse crescimento regional faça o grupo avançar cerca de 15% em 2026.

A previsão é encerrar o ano com receita entre R$ 140 milhões e R$ 150 milhões.

De R$ 150 milhões para R$ 1 bilhão

Para chegar à meta de R$ 1 bilhão em 2030, o Grupo Pleno pretende combinar abertura de filiais com a venda de mais serviços aos clientes que já alugam equipamentos.

Leonardo também projeta aumentar a equipe dos cerca de 500 funcionários atuais para 2.000.

Uma parte dessa expansão deverá ficar concentrada na nova sede que o grupo pretende construir em São Paulo.

O projeto prevê 15 mil metros quadrados e conclusão no fim de 2029. Leonardo também planeja incluir moradias para parte da equipe operacional.

A ideia veio do período em que ele manteve a fábrica na China e viu empresas nas quais trabalhadores moravam perto das unidades industriais.

Trinta anos depois de comprar uma câmera e um tripé para tentar ganhar espaço dentro da empresa onde trabalhava, Leonardo continua fazendo compras de equipamentos com a mesma lógica que levou às primeiras TVs de plasma: encontrar uma tecnologia que os clientes ainda não querem comprar e transformá-la em produto para aluguel.

AutorLeo Branco
FonteExame
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