Ele vendeu uma Brasília para abrir uma loja em frente à rodoviária. Hoje a rede fatura R$ 2 bilhões

Na recepção da sede daLojas MM, em Ponta Grossa, há uma Brasília alaranjada parada. Não é bem um enfeite. Trata-se do carro que o fundador vendeu, em 1978, para pagar a primeira loja da rede, um ponto pequeno em frente à rodoviária da cidade, no interior do Paraná.
O carro era de Jeroslau Pauliki, o único bem que ele tinha.
Quase 50 anos depois, a loja virou uma rede de mais de 230 unidades em quatro estados, comandada pelo filho, Marcio Pauliki.
A empresa vende móveis, eletrodomésticos e eletrônicos e, segundo a companhia, dobrou de faturamento em dois anos — de 1 bilhão de reais em 2023 para 2 bilhões de reais em 2025.
O salto vem de uma virada recente. Desde 2022, a MM deixou de ser só uma rede de lojas físicas e montou um braço de atacado, que vende para pequenos lojistas de todo o país, além de reforçar o e-commerce, o comércio eletrônico.
Metade das vendas já vem dessas frentes, e a marca, antes conhecida só no Sul, passou a operar com centros de distribuição em estados como Bahia e Paraíba.
O que sustenta essa travessia, na leitura de Marcio, é não deixar a empresa envelhecer. "Você é drone ou dinossauro, independente da idade", diz o CEO, que aplica a frase à própria equipe: cita diretores de 60 anos que classifica como inovadores e jovens de 20 e poucos que, para ele, já operam como veteranos.
Para 2032, a meta declarada pela empresa é ultrapassar 3,5 bilhões de reais em faturamento e entrar na lista dos dez maiores canais de venda do Brasil. Marcio, que é da família fundadora mas se define como executivo contratado, prepara a transição de comando: a partir daquele ano, a gestão deve ser profissionalizada, com a terceira geração ainda longe de assumir.
A aposta em frente à rodoviária
O ponto onde tudo começou não era dos mais promissores.
A loja ficava espremida entre um bar e uma zona de meretrício, e conhecidos avisavam que ali só entraria cliente bêbado. O primeiro cliente, conta Marcio, foi de fato um homem que saiu do bar ao lado e errou a porta — episódio que a empresa hoje repete como parte de sua história de fundação.
O nome MM vem de "mercado de móveis", a placa da primeira loja. A Brasília na recepção — o sedã da Volkswagen popular nos anos 1970 — virou símbolo interno da coragem de investir o próprio patrimônio no negócio.
É a primeira coisa que Marcio mostra a quem chega à sede.
Ao lado do carro, há uma segunda peça na recepção: uma vaca leiteira em tamanho real. O animal representa duas ideias que Marcio atribui ao pai. A primeira é a de acordar cedo — vaca não dá leite sozinha. A segunda é a de margem de contribuição, o que sobra depois de pagar fornecedores e impostos. "É vender margem", resume o CEO, ao explicar a lógica que prefere a vender volume sem lucro.
O crediário, a venda parcelada no carnê próprio da loja, nasceu da mesma origem. Marcio conta que o pai vendia a prazo para gente que chegava do interior a Ponta Grossa sem crédito em nenhum outro lugar.
Essa base virou uma das principais fontes de lucro da rede. Segundo o CEO, a receita financeira do crediário pesa tanto que a empresa funciona, na prática, quase como uma financeira com loja na frente.
Hoje a MM tem uma securitizadora, empresa que antecipa o dinheiro das vendas parceladas, e passou a oferecer empréstimo pessoal com capital próprio.
As crises que não derrubaram a rede
Em quase 50 anos, a MM atravessou vários ciclos ruins do varejo.
Em 2014 e 2015, quando as vendas do setor caíram cerca de 30%, concorrentes como Ricardo Eletro e Insinuante quebraram.
A Selic já passou de 27% em outros ciclos, patamar que, para uma rede que vive de crediário, encarece o dinheiro, mas também eleva a receita financeira quando o juro cobrado do cliente sobe junto.
A pandemia, por outro lado, ajudou o setor de bens duráveis. Marcio lembra que o auxílio emergencial de 600 reais virou compra de geladeira, sofá e celular.
Ele conta que baixou o preço de um aparelho de 609 para 600 reais, para caber no benefício, e vendeu 30.000 unidades.
É o tipo de leitura rápida que, na visão dele, separa quem sobrevive de quem some no varejo de bens duráveis, o primeiro segmento a sentir uma crise e o último a se recuperar.
De loja regional a operação nacional
A diversificação foi o que tirou a MM do mapa do Sul.
O MM Atacado, braço que vende para pequenos e médios varejistas, cresceu mais de 200% nos últimos anos e atende cerca de 2.000 clientes, segundo a empresa.
No digital, a rede optou por tratar o e-commerce como canal próprio, em vez de depender do marketplace — a plataforma que reúne vendas de vários lojistas, como Mercado Livre e Amazon —, para não pagar comissões de 15% a 20%.
A aposta para os próximos anos combina lojas menores em cidades de até 15.000 habitantes, serviços de maior margem, como consórcio e garantia estendida, e marca própria.
É a mesma lógica que Jeroslau seguiu ao vender o carro em 1978: crescer sem deixar de operar como uma loja de bairro.
"Eu prefiro ser o principal player de uma cidade de 30 mil habitantes", diz Marcio, sobre a estratégia de liderar onde as grandes redes têm mais dificuldade de chegar.
