Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
Mundo
31/05/2026
7 min

Eleição na Colômbia pode repetir situação do México, diz pesquisadora

Eleição na Colômbia pode repetir situação do México, diz pesquisadora

Bogotá - A eleição presidencial na Colômbia, que realiza o primeiro turno neste domingo, 31, pode repetir o que ocorreu no México em 2024, avalia Patricia Muñoz Yi, diretora de pós-graduação em ciência política na Pontifícia Universidad Javeriana, em Bogotá.

"Na campanha de Claudia Scheinbaum, o que se lia nos meios de comunicação sobre AMLO (o presidente no cargo à época, Andrés Manuel López Obrador), era tudo negativo: as políticas públicas de saúde não funcionam, as de educação não, o país está em caos. E aí, surpresa: no dia das eleições, há continuísmo. Ganha Scheinbaum e há continuísmo das políticas públicas de esquerda, do projeto político progressista", afirma, em conversa com a EXAME.

Ivan Cepeda, candidato do presidente Gustavo Petro, de esquerda, lidera as pesquisas para o primeiro turno, embora Petro tenha alta rejeição. Em segundo lugar, está o advogado Abelardo de la Espriella, de direita, em tendência de alta. Em terceiro, vem Paloma Valência, também de direita, mas em viés de baixa.

Muñoz avalia que o governo de Petro cometeu erros graves na segurança pública, mas teve resultados em políticas sociais.

"Políticas como o aumento do salário mínimo, a entrega de terras a camponeses e a assistência ao idoso tiveram uma acolhida importante entre os cidadãos e há vozes de agradecimento, porque outros governos não tinham feito o que este está fazendo", afirma.

Veja a seguir mais trechos da entrevista.

As pesquisas dão algum indicativo sobre as chances de Cepeda?

A avaliação do presidente Gustavo Petro melhorou nos últimos meses, e isso se refletiu na estabilidade ou no crescimento da intenção de voto de Cepeda.

Na Atlas Intel, por exemplo, quando se pergunta sobre aprovação ou desaprovação, a pesquisa diz que 38% aprovam e 50% desaprovam Petro. Mas há alguns meses a aprovação estava mais baixa. Na Invamer, a aprovação é de 45% e a desaprovação de 50% — 5 pontos percentuais.

Há uma relação estreita entre a imagem positiva do presidente Petro e a intenção de voto de Cepeda. A polarização entre os que desejam a continuidade do projeto político progressista e os que se opõem a ela é praticamente uma divisão de 50 a 50. E isso vai tornar o segundo turno uma campanha muito difícil, que se vai definir por poucos votos, onde podemos esperar nestas três semanas um excesso de criatividade. Vamos ver até onde chegarão os estrategistas políticos para poder inclinar a balança para um lado ou para o outro.

Segurança pública e economia são os principais temas da eleição?

Sim, seguidas por saúde e educação. A insegurança tem sido sentida de forma forte, especialmente nas zonas urbanas. Houve reativação por parte de alguns grupos armados em zonas rurais, especialmente grupos associados a economias ilegais, dissidências das Farc— com quem já havia sido firmado o tratado de paz desde 2016 — mas também grupos ligados a outras forças armadas à margem da lei ou a economias ilícitas: narcotráfico, mineração ilegal, extorsão.

A economia tem a ver, para alguns, com a gestão econômica do atual governo: o endividamento do Estado, altos gastos públicos sem recursos suficientes, o que gerou tensões com o Congresso na tentativa de aprovar novas reformas tributárias, e também tensões com o Banco da República (banco central da Colômbia).

Mas no nível do cidadão comum, as pessoas sentiram que o aumento do salário mínimo foi uma medida que as beneficiou de forma importante para 2026, e talvez se sintam mais gratas e avaliem melhor o governo em termos de gestão por essas medidas que as tocam diretamente.

O que tem acontecido na saúde e na educação?

O governo quis realizar ajustes em torno do sistema de saúde, com as empresas prestadoras de serviços, os hospitais e as clínicas. Essas reformas buscam eliminar intermediários, mas geraram tensões com  empresas e com os cidadãos, que foram afetados por mau atendimento. Isso motivou protestos nas ruas. Em educação, os alunos estão indo mal em provas internacionais.

A que se deve a alta nas intenções de voto de Espriella, que as pesquisas mostraram nas semanas antes da eleição?

Uma hipótese é a de que Abelardo de la Espriella conseguiu capturar e agregar ao seu apoio os eleitores mais alinhados à extrema-direita — esses eleitores que no passado eram os eleitores naturais do Centro Democrático, o partido do ex-presidente Álvaro Uribe, e que hoje apoiariam sua candidata Paloma Valencia. Mas as posições mais radicais de Abelardo, ao se apresentar como o defensor mais contundente dos valores de direita, levaram a que ele ficasse com boa parte desses eleitores, retirando uma votação importante de Paloma.

Nessa primeira hipótese, pode também ter jogado o fato de Paloma ter escolhido como fórmula para a vice-presidência Juan Daniel Oviedo, um candidato de centro, que pertence à população LGBTIQ+, e isso possivelmente não foi bem recebido por alguns eleitores.
Uma segunda hipótese é a dificuldade que temos como país, pela tradição e cultura política, de eleger uma mulher para a presidência, e mais ainda uma mulher acompanhada de uma fórmula vice-presidencial de um homem gay.

Uma terceira hipótese fala de que o que Abelardo de la Espriella fez foi lançar mão das fórmulas bem-sucedidas de figuras presidenciais como Milei, Bukele e Trump, onde com uma linguagem disruptiva, de ruptura, às vezes politicamente incorreta e até com expressões machistas, ele conseguiu se colocar na dianteira em termos de construção de agenda.

Por um lado, instalou as narrativas do homem forte, capaz de enfrentar não só os problemas do país, mas também o que muitos consideram o grande problema: a candidatura de esquerda. Porque boa parte dos que hoje votam em Abelardo de la Espriella o fazem contra Iván Cepeda, e não necessariamente porque se identifiquem com ele. Trata-se de um voto contra o continuísmo da esquerda, contra Iván Cepeda, e Abelardo conseguiu encarnar isso melhor do que Paloma Valencia.

Outras hipóteses são um pouco mais finas e começam a girar em torno do voto regional. Abelardo de la Espriella é do Caribe colombiano. E a região Caribe, em conjunto, tem um potencial eleitoral importantíssimo, em torno de 20% do país. De fato, foi crucial na vitória de Gustavo Petro há quatro anos e é importante nos cálculos que Iván Cepeda faz para continuar no poder. Não à toa, duas campañas e meia fizeram seus encerramentos em Barranquilla no fim de semana passado, que é o epicentro da região Caribe.

Abelardo deverá herdar os votos de Paloma Valencia em um eventual segundo turno?

Eu ouvi uma entrevista recente de Paloma, e me pareceu que essa distância entre Paloma e Abelardo se aprofundou. Que essas reservas que Paloma Valencia manifesta em relação à vida de Abelardo, de que a vida profissional dele é muito duvidosa, que ela não estaria disposta a considerar que esse personagem faria um bom papel na presidência. Será que na segunda-feira, se ela não passar para o segundo turno, vai aderir a Abelardo de la Espriella imediatamente?

Ao mesmo tempo, Paloma pertence a um grupo político — o Centro Democrático — cuja cabeça é o ex-presidente Álvaro Uribe, que manifestou muita simpatia por Abelardo de la Espriella. E a terceira razão é que a direita tem a necessidade de chegar unida se quiser ter possibilidades de derrotar Iván Cepeda num segundo turno. Em essência, apesar de tudo o que foi dito— as ofensas, as distâncias, as tensões, as reservas —, acredita-se que, por pragmatismo político e pela liderança do ex-presidente Álvaro Uribe, vão buscar a forma de chegar unidos ao segundo turno.

AutorRafael Balago
FonteExame
Distribuído por