Eleição no Brasil pode mudar o destino da Amazônia, diz The New York Times
Jornal dos EUA analisa como as propostas de Flávio para explorar recursos naturais e flexibilizar licenças podem afetar o desmatamento e a preservação da floresta

O resultado das eleições presidenciais no Brasil "pode definir o futuro da Amazônia" e os esforços para conter o desmatamento na maior floresta tropical do mundo. É o que aponta uma reportagem publicada neste domingo, 18, pelo jornal americano The New York Times, que alerta para os riscos ambientais de uma eventual vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), favorito na disputa pelo segundo turno, marcado para o próximo domingo.
Assinada por Sergio Peçanha e Ana Ionova, a reportagem destaca que Flávio pretende reduzir a burocracia e agilizar a concessão de licenças para atividades como mineração e pecuária.
Embora o senador prometa acabar com o desmatamento ilegal até 2029, especialistas ouvidos pelo jornal temem que a proposta permita ampliar a derrubada legal de árvores e enfraqueça a fiscalização ambiental.Durante a campanha, Flávio defendeu aestratégia ambiental adotada pelo pai, Jair Bolsonaro (PL), durante a Presidência. “A melhor maneira de abordar a questão ambiental é o que fizemos durante o governo Bolsonaro”, afirmou o senador.
A reportagem compara os resultados ambientais das gestões de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Durante os quatro anos do governo Bolsonaro, a área desmatada acumulada na Amazônia chegou a quase 4,6 milhões de hectares, mais de 11 milhões de acres. O jornal compara essa extensão a 5.777 parques Central, em Nova York.
Sob Lula, o desmatamento recuou para o menor nível já registrado, de acordo com a agência espacial brasileira.
O texto também destaca o apoio à candidatura de Flávio por representantes do agronegócio e integrantes da elite econômica e política interessados na expansão de rodovias, ferrovias e projetos de exploração de petróleo na Amazônia.
Segundo a reportagem, estudos indicam que iniciativas desse tipo podem acelerar o desmatamento.
Desmatamento ameaça clima e produção de alimentos
A reportagem alerta que os efeitos da destruição da floresta podem ultrapassar a região amazônica. Pesquisas citadas pelo jornal indicam que, se o desmatamento continuar sem controle, a Amazônia poderá receber volumes significativamente menores de chuva, e partes da floresta poderão começar a se transformar gradualmente em savana até 2050.
Esse processo é difícil de reverter depois de iniciado, segundo Nico Wunderling, professor da Universidade Goethe de Frankfurt que estuda mudanças climáticas. “É difícil reverter uma vez iniciado”, afirmou o pesquisador, conforme a tradução de sua declaração publicada pelo jornal.
O cientista brasileiro Carlos Nobre, especialista em Amazônia e mudanças climáticas, defende que a proteção da floresta exige o fim de toda a derrubada de árvores, inclusive aquela permitida pela legislação. “O que realmente precisamos defender é o desmatamento zero”, disse ao jornal.
Nobre também alertou para os impactos econômicos da perda de vegetação. Segundo ele, o desmatamento legal coloca a Amazônia em “risco total” e pode reduzir drasticamente as chuvas em grande parte da América do Sul, ameaçando a agricultura brasileira e os preços globais dos alimentos. “Vamos perder tudo isso”, afirmou o cientista.
A legislação brasileira permite que proprietários de terras na Amazônia desmatem até um quinto da vegetação em suas propriedades. Enquanto senador, Flávio foi coautor de um projeto de lei que não foi aprovado e pretendia revogar esses limites.
Para os especialistas citados na reportagem, a promessa de acabar com odesmatamento ilegal até 2029 não resolve o problema caso a derrubada autorizada por lei continue.
O jornal também relaciona a pressão sobre a floresta à demanda global por commodities. O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina e soja, dois dos principais produtos associados ao desmatamento no país. Nos últimos anos, grandes áreas de floresta foram convertidas em pastagens para a criação de gado.
Sob Lula, o governo fortaleceu os órgãos ambientais e investiu na restauração florestal. O presidente também assumiu o compromisso de eliminar completamente o desmatamento até 2030.
Crime organizado amplia pressão sobre a Amazônia
Além dos riscos ambientais, o New York Times destaca a expansão do crime organizado na região. Grupos criminosos passaram a atuar em atividades como extração ilegal de madeira, mineração clandestina e grilagem de terras, além do tráfico de drogas.
A reportagem afirma que a fragilidade da atuação policial durante o governo Jair Bolsonaro abriu oportunidades para a expansão dessas organizações. Uma eventual vitória de Flávio poderia estimular novos avanços desses grupos sobre a floresta, temem observadores citados pelo jornal.
A extensa rede derios amazônicos também se tornou uma rota importante para o transporte de cocaína em direção a mercados internacionais. Embora a maior parte da droga seja produzida em países vizinhos, como Colômbia, Peru e Bolívia, o território brasileiro integra as rotas utilizadas pelo tráfico.
Robert Muggah, do Instituto Igarapé, afirmou que o problema envolve uma rede mais ampla de atividades criminosas. “Existe um ecossistema muito maior de garimpeiros ilegais, madeireiros, contrabandistas, transportadores e intermediários corruptos”, disse ao jornal.A pesquisadora Ariadne Natal, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, defendeu que a Amazônia precisa de soluções duradouras, como investimentos em empregos sustentáveis e cooperação internacional para combater o crime organizado. “Mais uma vez, nos encontramos numa encruzilhada”, afirmou, ao avaliar os diferentes caminhos possíveis para o futuro da região.
Flávio promete ampliar o monitoramento da floresta por satélites e adotar uma resposta militarizada contra os cartéis de drogas, que pretende classificar como grupos terroristas. No entanto, seus planos de cortes expressivos nos gastos públicos e de simplificação das agências de segurança levantam preocupações sobre a capacidade de fiscalização do Estado, segundo a reportagem.
A pesquisadora Ariadne Natal, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, defende queo combate ao crime organizado seja acompanhado de medidas de longo prazo, como investimentos em empregos sustentáveis e cooperação internacional.
“Mais uma vez, nos encontramos numa encruzilhada”, disse Natal ao jornal, ao avaliar os diferentes caminhos possíveis para o futuro da região.
