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InvestMercados
31/08/2026
4 min

'Eleição perdeu potencial positivo para ativos brasileiros', diz gestor do BTG

Para Rodrigo Carvalho, deterioração fiscal e juros reais elevados reduziram o potencial de valorização da bolsa com o pleito

'Eleição perdeu potencial positivo para ativos brasileiros', diz gestor do BTG

A eleição à Presidência da República, em outubro, perdeu parte do potencial positivo que poderia representar para os ativos brasileiros, na avaliação de Rodrigo Carvalho, sócio do BTG Pactual Asset Management. Para o gestor, a "deterioração" da dinâmica fiscal e o comportamento da renda fixa reduziram sua convicção de que os possíveis ganhos com o processo eleitoral seriam maiores do que os riscos ou perdas para o mercado financeiro.

A análise foi feita nesta segunda-feira, 31, durante o painel “Visão dos Gestores”, noMacro Day, evento promovido pelo BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) que reúne investidores, executivos e empresários.

Carvalho afirmou que, há cerca de cinco meses, via a eleição de forma mais favorável aos ativos brasileiros, independentemente do resultado. Na sua avaliação, umaeventual reeleição do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) representaria, sobretudo para o investidor estrangeiro, uma continuidade do cenário atual. Já uma alternância de poder, acompanhada de uma mudança no modelo econômico, poderia provocar uma reprecificação relevante.

“Se essa pergunta fosse feita para mim há uns cinco meses, minha resposta seria que a eleição estaria bem no preço da reeleição do Lula, inclusive. Eu enxergava esse evento da eleição como um evento assimetricamente positivo para os ativos”, afirmou.

Segundo Carvalho, o racional era que um eventual “Lula 4” seria “mais do mesmo”, enquanto uma alternância à direita, com mudança de modelo econômico, poderia gerar “um rerating importante, principalmente na parte de renda fixa e bolsa". "O valor esperado desse negócio, para mim, era muito positivo. Agora eu confesso que a minha convicção é bem menor", disse.

O gestor afirmou que ainda considera a eleição um evento “levemente positivo” para os ativos, mas disse que sua confiança nessa avaliação caiu diante da dinâmica da renda fixa brasileira. Carvalho chamou atenção para o nível dos juros reais e para a inclinação da curva de juros.

“Estamos falando de 9%, 10% de juros reais e, mesmo assim, a curva é positivamente inclinada, o que é uma aberração em qualquer país minimamente sério”, afirmou.

O sócio do BTG Pactual Asset Management também citou a dificuldade do Tesouro em emitir títulos com prazos mais longos, tanto indexados à inflação quanto prefixados.

“São sinais diários de que podemos, eventualmente, não estar tão longe de um cenário de dominância fiscal mais sério”, disse. “É discutível se estamos na dominância fiscal já ou não, porque esse negócio não é binário, tem gradações. Eu, particularmente, acho que estamos no início".

Segundo o gestor, é essa "deterioração" que, em sua visão, diminui o potencial de uma reprecificação positiva dos ativos a partir da eleição. Em outras palavras, mesmo que uma mudança política ou econômica seja bem recebida pelo mercado, o ponto de partida da economia brasileira se tornou mais desafiador.

Ajuste fiscal terá de ser feito em 2027 'por bem ou por mal'

Para Carvalho, há uma probabilidade alta de que o Brasil tenha de realizar algum ajuste fiscal ao longo de 2027, independentemente da vontade do governo eleito. “Tem uma probabilidade alta de algum ajuste ao longo de 2027 acontecer, seja por bem ou por mal”, afirmou.

O ajuste “por bem”, segundo o sócio do BTG Pactual Asset, ocorreria caso o governo eleito apresentasse de forma proativa reformas consideradas minimamente críveis, com foco na trajetória dos gastos obrigatórios. Já o ajuste “por mal” seria imposto pelas circunstâncias do mercado. “Por mal é um governo que não faça nada e realmente o mercado force algum ajuste”, disse.

Apesar do cenário externo desafiador, Carvalho afirmou ver “uma chance razoável” de que algum ajuste ocorra em 2027.

A avaliação sobre a necessidade de mudanças na dinâmica fiscal também foi compartilhada, sob outra perspectiva, por Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo Investimentos. Para o gestor da casa, o problema brasileiro não está apenas no resultado primário, mas também no nível elevado dos juros reais e na trajetória da dívida pública.

“A dívida pública, ela basicamente é uma pirâmide. Não tem como, nesse arranjo, você pagar”, afirmou.

Segundo Woelz, o Brasil vem enfrentando uma dinâmica de crescimento da dívida combinada a juros reais muito acima do que se esperava há alguns anos, o que demanda do país uma reação à estrutura financeira que efetivamente enfrenta, e não àquela que gostaria de ter.

“E eu tenho medo de um pequeno ajuste fiscal não resolver esse problema”, disse. “Temos que atacar as políticas públicas de maneira mais ampla para abaixar esse juro real de maneira positiva, ou seja, abaixar o juro real fazendo as políticas corretas e não necessariamente na marra", afimou o gestor da Kapitalo.

AutorClara Assunção
FonteExame
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