Eleições 2026: para a imprensa estrangeira, Brasil mede força de Trump na América Latina
Cobertura internacional aponta temor de interferência dos EUA, desgaste de Lula no próprio reduto e disputa apertada

A imprensa internacional acompanha a eleição brasileira deste domingo, 4, com atenção voltada ao papel de Donald Trump na disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Do ponto de vista estrangeiro, a votação ocorre sob o temor de uma possível interferência americana, reforçada pelo fechamento da embaixada e dos consulados dos Estados Unidos no Brasil às vésperas da votação, na sexta-feira, 2.
Em entrevista coletiva neste domingo, porém, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, afirmou que nem a Justiça Eleitoral nem os órgãos de inteligência identificaram, até o momento, sinal de interferência estrangeira ou de risco às embaixadas.
Um teste para a influência de Trump na América Latina
O receio de intervenção dos Estados Unidos em assuntos internos pairou sobre a campanha, ao lado de crime, custo de vida e corrupção, afirma a Al Jazeera.
A rede de mídia do Catar situa a eleição em uma guinada à direita na região: depois da vitória de Javier Milei na Argentina, em 2023, governos de esquerda deram lugar a líderes de direita na Bolívia, na Colômbia, no Peru, em Honduras e no Chile no último ano.
O Brasil seria o próximo país a decidir se segue essa tendência, avaliação compartilhada pela Euronews, que chamou atenção para o incentivo de Trump à virada conservadora na América do Sul.
O rumo, explicam, depende do vencedor. Uma vitória de Flávio Bolsonaro tende a levar o país a uma suposta aliança de segurança com os Estados Unidos, segundo a Al Jazeera. Na mesma direção, a Euronews ressalta a proximidade do senador com a Casa Branca e a defesa de acordos com Washington em minerais raros.
Com Lula, analisam, o tom é de resistência aos EUA. A Euronews registra o alerta do presidente sobre riscos à soberania nacional, assim como a Al Jazeera, que lembra a recusa do Brasil em aderir ao Escudo das Américas, coalizão de governos de direita articulada por Trump para usar força militar contra cartéis e conter a influência chinesa.
A Reuters pondera que Trump elogiou Flávio em público, mas não declarou apoio formal, e que o Departamento de Estado rejeita as acusações de ingerência.
A agência relata ainda que, por outro lado, que oficiais de inteligência brasileiros apresentaram neste mês a uma delegação francesa e alemã, em Brasília, indícios de interferência dos Estados Unidos e da Rússia.
Embaixada fechada eleva a tensão; TSE não vê risco concreto
Na sexta-feira, 2,os Estados Unidos suspenderam os serviços consulares no Brasil por razões de segurança não detalhadas, e a Austrália fechou a embaixada em Brasília após o alerta americano. A Reuters observou que o Departamento de Estado não vinculou a decisão à votação.
O episódio teve desdobramento político no Brasil. A campanha de Lula pediu ao TSE que a suspensão seja incluída na apuração sobre suposta interferência externa no pleito. As autoridades brasileiras, porém, não corroboram o alerta.
Em uma entrevista coletiva por volta das 14h deste domingo, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, declarou: "Até o momento, nós não temos nenhum indicativo concreto de interferência internacional". Sobre a embaixada, disse que nenhum relatório dos órgãos parceiros do tribunal aponta risco.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, informou que a investigação aberta a partir de comunicação da representação americana não confirmou ameaça efetiva a embaixadas. Na sexta-feira, a corporação cumpriu dois mandados de busca e apreensão no caso.
O presidente do TSE lembrou ainda que Washington adotou medida semelhante na eleição da Colômbia, em junho, vencida por Abelardo de la Espriella, candidato apoiado por Trump.
Democracia e legado da ditadura
A condenação de Jair Bolsonaro é outro ponto central da visão externa sobre a disputa. Flávio é apresentado como herdeiro político do pai, que cumpre pena de 27 anos por participação em uma trama golpista após a derrota de 2022. A DW descreve o ex-presidente como populista de extrema direita.
Para a Al Jazeera, a sentença contra o ex-presidente e militares levantou dúvidas sobre a solidez da democracia brasileira e reavivou a memória dos 21 anos de ditadura, regime que teve apoio dos Estados Unidos.
Desgaste de Lula no próprio reduto
Na véspera da votação, o Financial Times publicou reportagem de Guaribas, no Piauí, município que serviu de piloto para o Bolsa Família e deu 94% dos votos a Lula em 2022.
O Bolsa Família alcança cerca de 50 milhões de pessoas, com custo estimado em US$ 34 bilhões em 2027, ou 1,25% do PIB. Semanas antes da eleição, o governo anunciou reajuste de 15% no benefício. Flávio Bolsonaro acusou compra de votos, embora prometa não cortar o programa.
O texto relata sinais de descontentamento com o presidente, sobretudo entre eleitores mais jovens. Considera certa a vitória do petista na cidade, mas trata o resultado nacional como incógnita.
Para o jornal britânico, Lula não repetiu no atual mandato a popularidade dos governos de 2003 a 2010, apesar do crescimento constante e do desemprego baixo. O diário atribui o quadro à insatisfação com segurança e custo de vida e à perda de confiança de parte do eleitorado depois da prisão por corrupção, em condenações mais tarde anuladas.
O FT registra também a crítica de adversários de que o presidente carece de ideias novas e se apoia na expansão de auxílios, com aumento de gastos, dívida e impostos.
Empate nas pesquisas e segundo turno provável
A DW ressalta que a votação começou com Lula e Bolsonaro quase empatados. A Euronews cita pesquisas" com o petista em 45% e o senador em 43%, situação de empate técnico. A Al Jazeera fala em vantagem marginal do presidente, ainda menor em simulações de segundo turno.
Sobre o que move o eleitor, a Al Jazeera cita levantamento da Quaest em que violência (31%), corrupção (20%), economia (19%) e saúde (12%) lideram as preocupações. A DW aponta criminalidade e economia.
A Euronews lembra que 158.745.463 eleitores estavam aptos a votar, segundo o TSE, e que Portugal abriga o segundo maior colégio eleitoral brasileiro fora do país.
Voto no exterior: Europa dá vantagem a Lula, Flávio domina no Japão
Os boletins de urna já divulgados, compilados pela EXAME, mostram Lula à frente na maior parte dos países apurados. Os registros têm abrangências diferentes e não equivalem à totalização do eleitorado fora do país.
A Europa concentra a vantagem do presidente. Na Alemanha, na Irlanda e nos Países Baixos, ele supera 70% dos votos. No Reino Unido, na Itália e na Bélgica a disputa é mais apertada, com Flávio Bolsonaro entre 35% e 39%. Somados, esses seis países dão ao petista cerca de 23,6 mil votos de frente.
O Japão segue como principal reduto do senador. Nos boletins de Nagóia, Tóquio e Hamamatsu, ele somou 24.601 votos, contra 5.234 do presidente, diferença de 19,4 mil.
Lula prevalece ainda na Oceania, na China e na maior parte dos países africanos. No Oriente Médio o quadro é dividido: o presidente tem as margens mais largas na Palestina e na Jordânia, e o senador vence em Israel, nos Emirados Árabes Unidos e no Catar. Flávio lidera também em parte do Sudeste Asiático.
Segundo o TSE, 918.876 brasileiros estavam aptos a votar em 186 cidades fora do país, apenas para presidente e vice. Esses votos entram na totalização nacional, divulgada a partir das 17h de hoje.
