Eleições em Israel: com blocos sem maioria, partidos árabes viram chave para novo governo
Com 85% das urnas apuradas, coalizões de Netanyahu e Eisenkot não atingem 61 cadeiras; Likud acusa siglas árabes de 'roubo' no pleito

Os partidos árabes despontam como a peça central para a formação de um novo governo em Israel. Nas eleições realizadas na terça-feira (27), as coligações lideradas pelo atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e pelo seu opositor de centro, Gadi Eisenkot, não atingiram a maioria necessária.
Mesmo com o comparecimento às urnas beirando os 78% — o maior índice desde o ano de 1999 —, o panorama desenhado pelas projeções da imprensa e pelos resultados preliminares é de forte fragmentação.
Com 85% das urnas já apuradas, a aliança de Netanyahu garantia 54 dos 120 assentos no Parlamento, ficando abaixo dos 61 exigidos para formar maioria. Já o bloco de oposição de Eisenkot somava 49 vagas. Em contrapartida, os partidos árabes alcançariam a marca recorde de 17 cadeiras.
Premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, durante evento de campanha (Jewel Samad/AFP)
Diante desse quadro, Yussef Jabareen, que comanda a Lista Unificada — coligação de esquerda majoritariamente árabe —, defendeu a criação de "uma verdadeira aliança judaico-árabe". O objetivo seria tirar do poder Netanyahu, que acumula 19 anos de mandatos intercalados e detém o título de premiê mais longevo da história israelense.
Os números preliminares, contudo, ainda podem sofrer alterações nas horas seguintes. Paralelamente, o presidente de Israel, Isaac Herzog, instou as siglas a fazerem "todo o possível" para viabilizar uma coalizão, evitando assim a necessidade de convocar os eleitores novamente.
Nas ruas de Tel Aviv, a aposentada Sarah Confino relatou estar "decepcionada" com o desfecho provisório, justificando que "queria que Gadi Eisenkot obtivesse uma vitória contundente". Por outro lado, o metalúrgico Ben Tzyon Vayolid, morador da mesma cidade, confia no triunfo da aliança de Netanyahu. "Ele fez todo o possível para garantir nossa vitória e vencemos, e continuamos vencendo", declarou.
"Panorama transformado"
Sem uma maioria definida, Israel corre o risco de enfrentar semanas de intensas negociações para costurar acordos ou até mesmo de passar por novas eleições se o diálogo falhar. No curto prazo, um cenário de impasse pode favorecer Netanyahu, uma vez que ele continuaria atuando como primeiro-ministro interino até que uma nova gestão fosse estabelecida.
A expectativa é que o resultado final seja divulgado entre a noite de quinta-feira (29) e a manhã de sexta-feira (30).
As atenções agora se voltam para uma eventual aliança entre os partidos árabes e o grupo de Eisenkot. Juntas, essas duas frentes de oposição a Netanyahu teriam os números para formar a maioria. Contudo, essa parceria esbarra em obstáculos significativos em um país onde a minoria árabe (20% da população) lida com forte discriminação. Para uma fatia da maioria judaica, trabalhar ao lado desses representantes é considerado inaceitável.
O Likud, partido liderado por Netanyahu, subiu o tom nesta quarta-feira (28) e acusou as legendas árabes de terem "roubado" o pleito. "As eleições no Estado de Israel foram roubadas por partidos árabes que apoiam o terrorismo e a aniquilação do Estado judeu por meio de graves atos criminosos de corrupção, ameaças, violência, mentiras e uso de programas de computador proibidos para incentivar os eleitores a comparecer às urnas", acusou a sigla em nota oficial.
Na avaliação de Gideon Rahat, cientista político da Universidade Hebraica de Jerusalém, o crescimento "realmente espetacular" do voto árabe conseguiu "transformar o panorama" político. Em entrevista à AFP, ele pontuou, no entanto, que os ataques ocorridos em 7 de outubro provocaram "muita desconfiança e muito medo" na maioria judaica em relação a essa minoria.
Até o presente momento, Yair Golan, líder do principal partido de esquerda israelense e membro da coligação de Eisenkot, foi o único a se posicionar abertamente a favor da união. "Temos uma responsabilidade. E temos a oportunidade de formar um governo de mudança em parceria com os cidadãos árabes de Israel", publicou na plataforma X.
Sem a formalização desse pacto, o cenário aponta para um impasse provisório, segundo Ilana Shpaizman, professora de Ciências Políticas da Universidade Bar-Ilan. Ela destacou que "Netanyahu não tem qualquer maneira de formar um governo" contando apenas com seus atuais aliados. Portanto, a aliança de Eisenkot precisaria "ou formar um governo com os partidos árabes, ou estabelecer um governo minoritário" — duas alternativas que o campo opositor tem rejeitado até aqui.
"Não resta nada"
O processo eleitoral ocorre enquanto Israel enfrenta um isolamento internacional crescente em função da guerra no Irã e da ofensiva militar na Faixa de Gaza. Nesta quarta-feira, civis da região palestina demonstraram apreensão em relação aos desdobramentos nas urnas israelenses.
"Nosso temor é que estas eleições possam resultar na chegada de um líder ainda pior e de pessoas mais violentas e sanguinárias", disse à AFP Huda Al Huli, que está deslocada em Gaza.
Vale pontuar que Eisenkot compartilha com Netanyahu visões semelhantes sobre várias pautas de segurança. Ele foi favorável à ofensiva deflagrada em Gaza após 7 de outubro, ação que deixou o território palestino em ruínas. Apesar disso, o centrista firmou o compromisso de promover um ambiente interno mais inclusivo em Israel e de frear a violência praticada por colonos na Cisjordânia.
