Eleições levam dólar ao maior valor em 4 meses, mas alta não deve ser linear, dizem analistas
Pressão sobre o real ganha força com eleição no radar, mas analistas veem mais volatilidade que alta contínua

O dólar comercial entrou em uma fase em que a pressão sobre o real tende a aparecer mais em movimentos de volatilidade do que em uma alta contínua da moeda. É essa a leitura de especialistas ouvidos pela EXAME após o dólar engatar cinco sessões consecutivas de alta e voltar a se aproximar de R$ 5,25.
Para eles, o avanço recente reflete principalmente o aumento do prêmio de risco doméstico, em um momento em que as incertezas fiscais e eleitorais começam a pesar mais sobre as decisões dos investidores.A alta chama atenção porque ocorre mesmo com o dólar perdendo força no exterior. Desde segunda-feira, 10, o dólar vem subindo e encerrou a semana cotado a R$ 5,219, com alta de 0,52% no período. É o maior valor desde 30 de março, quando a moeda fechou a R$ 5,2526 e está distante da mínima do ano, de R$ 4,9539 em 21 de abril. Na mesma sexta, contudo, o índice DXY, que mede a força da moeda americana frente a uma cesta de seis moedas de países desenvolvidos, recuou 0,31%, aos 99,65 pontos.
A trajetória recente, porém, não apagou a valorização do real acumulada ao longo do ano. O dólar ainda recua 4,91% em 2026. O descolamento reforça, na avaliação dos especialistas em câmbio, que o Brasil passou a carregar uma pressão própria.
"Isso provavelmente sinaliza que as questões fiscais e eleitorais aqui no Brasil começaram a ganhar um peso maior na formação do câmbio", afirma Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank.
O ponto central para os especialistas é que a alta recente não deve ser interpretada como o início de uma trajetória linear de valorização do dólar. O câmbio passa a responder mais diretamente às pesquisas eleitorais, às sinalizações sobre a política econômica a partir de 2027 e à percepção sobre as contas públicas.
"Não vejo espaço para falar assim, por exemplo, em uma alta linear do dólar, mas sim um período de maior volatilidade que é comum a gente observar em época eleitoral, com real ainda sujeito a alguma pressão", diz Quartaroli.
Por que o dólar sobe frente ao real?
O comportamento do DXY é um dos sinais de que a explicação para a alta não está apenas fora do Brasil. Os especialistas também citam a percepção de que o Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos Estados Unidos) não aumentará os juros em setembro como outro elemento que, em condições normais, poderia favorecer moedas emergentes.
Ainda assim, o real vem tendo desempenho pior do que outras moedas de países emergentes. Para Alexandre Viotto, chefe de banking da EQI Investimentos, a combinação entre a incerteza eleitoral e as dúvidas sobre a trajetória fiscal a partir de 2027 tornou-se um dos principais vetores do câmbio.
"O movimento de alta das últimas sessões já reflete, na minha avaliação, o aumento do prêmio de risco doméstico associado ao ambiente eleitoral", afirma.
Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, também vê o movimento como predominantemente doméstico. Para a estrategista, a aproximação do período eleitoral e as incertezas sobre o cumprimento das metas fiscais aumentaram a cautela dos investidores internacionais, que passaram a reduzir sua exposição aos ativos em reais.
"O fato de a cotação subir por aqui na contramão do exterior evidencia um claro descolamento e sinaliza que o mercado está cobrando um prêmio de risco exclusivo do cenário brasileiro", afirma Nossig.
Estrangeiro sai, dólar ganha pressão
A piora do fluxo estrangeiro também ajuda a explicar por que essa percepção de risco está chegando ao câmbio. Nos primeiros sete pregões de agosto, osinvestidores estrangeiros retiraram cerca de R$ 12 bilhões da bolsa brasileira, segundo Viotto.
A dinâmica é direta, já que quando o estrangeiro reduz posições em ativos brasileiros, precisa converter os recursos para dólares, aumentando a demanda pela moeda no mercado local. A saída, portanto, ajuda a pressionar o real justamente em um momento de maior incerteza.
“O fluxo estrangeiro é um componente importante da formação de preço dos ativos brasileiros, e a saída observada em agosto ajuda a explicar a pressão recente sobre o real”, diz o chefe de banking da EQI Investimentos.
Para Quartaroli, o movimento de saída pode continuar no curto prazo enquanto não houver maior clareza sobre o cenário fiscal e eleitoral. Mas a econonista não considera que o caminho esteja necessariamente aberto para uma deterioração contínua.
Uma melhora no ambiente externo, a percepção de que parte dos riscos já está incorporada aos preços ou sinais mais claros sobre a condução da política econômica poderiam estabilizar os fluxos, segundo a economista.
Eleição pode transformar o câmbio em um mercado mais nervoso
É justamente essa sensibilidade às novas informações que deve marcar o comportamento do dólar daqui para frente. Viotto afirma que o mercado está particularmente atento às pesquisas eleitorais e que alterações nas probabilidades atribuídas aos diferentes cenários podem provocar movimentos rápidos não apenas no câmbio, mas também na curva de juros e na Bolsa.
“O mercado está bastante sensível às pesquisas neste momento. Portanto, mudanças relevantes nas probabilidades atribuídas aos diferentes cenários eleitorais podem provocar movimentos rápidos tanto no câmbio quanto na curva de juros e na Bolsa”, afirma.
Essa leitura, porém, não significa que o mercado esteja necessariamente olhando para um candidato específico. Segundo o chefe de banking da EQI,existe uma preferência por um cenário eleitoral associado à expectativa de uma política fiscal mais austera, mas o principal fator é o que o próximo governo pretende fazer a partir de 2027."O mercado não tem predileção na pessoa física de um candidato ou de outro. Ele está preocupado mesmo com o que vai ser implementado em termos econômicos", afirma. Uma sinalização de ajuste fiscal, corte de gastos e melhora das contas públicas, inclusive pelo governo atual [do presidente Luiz Inácio Lula da Silva], poderia mudar a percepção dos investidores e trazer alívio aos ativos brasileiros", afirma.
"Se houvesse uma sinalização de que, independente de qualquer coisa, o governo pretende fazer algum ajuste fiscal no ano que vem, perseguir a melhora das contas públicas, corte de gastos, tudo que o mercado adora ouvir, isso poderia até causar um rali positivo para os ativos brasileiros", diz.
Viotto vê, contudo, no curto prazo, assimetria para uma continuidade da pressão sobre a moeda brasileira. O especialista não descarta o dólar testando R$ 5,30 e, em um cenário de deterioração adicional das expectativas, R$ 5,40. Mas ressalta que esses níveis não devem ser tratados como uma previsão fechada.
"O câmbio tende a reagir muito rapidamente a mudanças nas probabilidades eleitorais e às sinalizações fiscais".
A pressão cambial, porém, não está restrita aos investidores. Um dos sinais mais relevantes desse ambiente aparece na ponta corporativa. Segundo Viotto, algumas empresas brasileiras estão postergando remessas e decisões de exposição cambial. A mudança ocorre porque o aumento do prêmio de risco altera o custo de oportunidade de operações que envolvem moeda estrangeira.
“Temos observado também um comportamento interessante na ponta corporativa. Ao mesmo tempo em que existe saída de capital estrangeiro da Bolsa, algumas empresas brasileiras estão postergando remessas e decisões de exposição cambial. O prêmio de risco mais elevado muda o custo de oportunidade dessas operações”, afirma.
O que pode fazer o dólar mudar de direção
Apesar da pressão atual, os especialistas não trabalham com um cenário de disparada descontrolada da moeda. A taxa básica de juros, a Selic, elevada aparece como um dos fatores capazes de limitar a deterioração, ao manter atrativo o diferencial de juros brasileiro.
Também existe a possibilidade de uma mudança rápida na percepção de risco. Para a economista-chefe do Ouribank, uma reversão mais consistente da pressão sobre o real dependeria de uma melhora na percepção sobre o quadro fiscal e de uma redução da incerteza eleitoral.
Para Nossig, a tendência mais provável é de estabilização do dólar em patamares elevados, mas com picos de volatilidade. Uma queda sustentada e expressiva da moeda dependeria de uma combinação de fatores: maior clareza sobre o cenário fiscal brasileiro, arrefecimento das tensões geopolíticas e sinais de queda dos juros americanos.
