Eleições no Peru: país escolhe hoje seu 9º presidente em 10 anos

O Peru realiza neste domingo, 7, o segundo turno das eleições presidenciais, com o desafio de colocar fim a uma das maiores crises políticas do continente. Em dez anos, o país teve oito presidentes diferentes. Um deles, inclusive, ficou cinco dias no carg.
Na disputa pelo cargo, estão Roberto Sánchez, de esquerda, e Keiko Fujimori, de direita. Keiko é filha de Alberto Fujimori, presidente do Peru entre 1990 e 2000.
Na sexta-feira, 5, a Justiça do Peru decidiu que Sanchez irá a julgamento, pela acusação de uma declaração falsa de financiamento de seu partido há cerca de seis anos. Ele poderá disputar a eleição mesmo assim, pois ainda pode recorrer.
De acordo com a acusação, Sánchez teria recebido mais de US$ 57.000 (R$ 292 mil, na cotação atual) para atividades partidárias que não foram declaradas.
Sánchez se apresenta como a voz dos eleitores pobres e das áreas rurais, promete uma "mudança radical" e acusa as elites e o Parlamento de serem responsáveis pela instabilidade.
No encerramento de sua campanha, ele atribuiu a criminalidade desenfreada à corrupção. "É por isso que vamos propor a 'morte civil' para os corruptos", declarou ele, referindo-se a um plano para impedi-los de exercer cargos públicos.
Keiko promete uma postura firme contra a insegurança em um país que registrou um aumento de 20% nos casos de extorsão notificados em 2025, em comparação com o ano anterior.
Cerca de 27 milhões de peruanos estão convocados a votar no segundo turno das eleições em um país onde o voto é obrigatório.
Como estão as pesquisas no Peru?
A pesquisa mais recente antes da votação mostra os dois candidatos em empate técnico, com um quinto do eleitorado indeciso e cansado da turbulência política.
Um estudo da Ipsos, divulgado em 31 de maio, mostra Keiko com 38% e Sánchez com 35%, um empate dentro da margem de erro.
O primeiro turno, que contou com cerca de trinta candidatos e foi marcado por falhas técnicas e denúncias de fraude, refletiu a frustração generalizada com a classe política do Peru. Juntos, Fujimori e Sánchez não conseguiram somar 30% dos votos.
O poder do Congresso
Embora o Peru tenha um sistema presidencialista, na prática funciona como um sistema parlamentar, segundo analistas, dado o poder dos deputados para destituir presidentes com facilidade.
A chave da instabilidade está em um artigo da Constituição que permite ao Congresso declarar a "vacância" de um presidente por "incapacidade moral permanente", uma definição vaga que fica a critério dos legisladores.
Os presidentes não têm maioria legislativa desde 2016 e, no choque entre poderes, acordos políticos e casos de corrupção levaram a destituições e renúncias.
Quatro presidentes foram destituídos pelo Congresso, onde o partido de Fujimori, o Força Popular, tem enorme influência. Outros dois renunciaram antes de serem removidos, um acabou seu breve mandato de oito meses e o atual interino entregará o poder em julho.
A partir deste ano, o Peru voltará a ter um Senado, que havia sido extinto em 1993, em uma reforma constitucional. Um Parlamento bicameral, segundo Paulo Vilca, do Instituto de Estudos Peruanos (IEP), terá mais poder, embora se torne "mais complexo" destituir um governante, já que serão necessários os votos de ao menos dois terços das duas Casas: 40 senadores e 87 deputados.
Nem o Força Popular, de Fujimori, nem o Juntos pelo Peru, de Sánchez, terão maioria, mas a direita terá mais possibilidades de construir alianças, como ocorreu na última década.
"A tentação da vacância sempre vai existir, porque a questão é somar votos, mas Keiko Fujimori terá 22 senadores" e terá mais facilidade para bloqueá-la, disse à AFP o cientista político Fernando Tuesta.
Fujimori, cujo partido tem 40 deputados, poderá "assegurar consensos porque há um grande grupo de direita", disse o cientista político Eduardo Dargent, ao se referir a vários dos outros quatro partidos com assentos no Parlamento.
Com AFP.
