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AgronegócioCMDT
03/11/2026
6 min

Eleições nos EUA: como uma derrota de Trump pode afetar o agro do Brasil

Com custos em alta e produtores insatisfeitos, estados agrícolas podem ser decisivos na disputa pelo Congresso americano nesta terça-feira, 3

Eleições nos EUA: como uma derrota de Trump pode afetar o agro do Brasil

Em Iowa, um dos principais estados produtores de milho e soja dos Estados Unidos, a disputa por uma vaga no Senado está praticamente empatada. Em Ohio e no Texas, os democratas também aparecem com vantagens estreitas. Além da importância do agronegócio para a economia, os três estados têm algo em comum: podem ajudar a definir o futuro político de Donald Trump.

É nesse cenário que os americanos vão às urnas nesta terça-feira, 3, para as eleições de meio de mandato, as midterms. O resultado pode alterar o equilíbrio de forças no Congresso e, de quebra, afetar a disputa entre Brasil e Estados Unidos pelo mercado agrícola chinês, um dos principais destinos das exportações dos dois países.

Segundo José Pimenta, policy fellow do Insper Agro Global, uma eventual vitória democrata tanto na Câmara dos Representantes — equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil — quanto no Senado, atualmente controlados pelos republicanos, pode aumentar a pressão sobre Trump para ampliar subsídios aos agricultores americanos e negociar uma trégua comercial com a China.

Para o Brasil, o risco está justamente nessa reaproximação. Uma retomada mais intensa das exportações agrícolas americanas para o mercado chinês poderia deslocar parte das vendas brasileiras ao país asiático.

"Não dá para mudar a política externa a partir do Legislativo", afirma Pimenta. O especialista explica, porém, que um Congresso controlado pela oposição pode ampliar a pressão sobre o governo e suas agências para renegociar o acesso dos produtos americanos aos mercados internacionais.

O mapa eleitoral ajuda a entender o tamanho dessa pressão. Segundo relatório do BTG Pactual, de 22 de outubro, sete disputas pelo Senado eram consideradas indefinidas. Quatro delas acontecem em estados com forte atividade agropecuária: Iowa, Kansas, Ohio e Texas.

Em Iowa, principal produtor de milho dos EUA, a vantagem democrata era de apenas 0,1 ponto percentual nas pesquisas, configurando empate técnico.

Em Ohio, o democrata Sherrod Brown liderava o republicano Jon Husted por 2,4 pontos percentuais. Já no Texas, onde a pecuária e a produção de algodão têm forte presença, James Talarico aparecia 2,2 pontos à frente de Ken Paxton.

As disputas acontecem em um momento delicado para os produtores americanos. Desde fevereiro, o diesel utilizado em tratores, colheitadeiras e outros equipamentos agrícolas acumula alta superior a 67%, pressionado pela guerra no Oriente Médio.

O encarecimento do combustível agravou as dificuldades de um setor que já enfrentava custos de produção elevados e os efeitos das tensões comerciais com a China.

Os sinais de deterioração financeira apareceram antes mesmo do conflito. Em 2025, os pedidos de falência agrícola cresceram 46% nos Estados Unidos. No mesmo período, o país perdeu 15 mil propriedades rurais, encerrando o ano com 1,865 milhão de fazendas, segundo o Departamento de Agricultura americano (USDA).

Diante desse cenário, Trump intensificou as medidas de apoio ao campo. Na semana passada, anunciou um pacote deUS$ 8 bilhões em ajuda aos agricultores, na tentativa de aliviar as dificuldades financeiras do setor.

O governo também prometeu, às vésperas das eleições, um aporte de US$ 15 bilhões para enfrentar os custos elevados da produção agrícola. No início do ano, a administração republicana já havia liberado US$ 12 bilhões em pagamentos extraordinários destinados a mais de 560 mil agricultores.

O esforço não acontece por acaso. A pressão econômica recai justamente sobre uma das bases eleitorais mais importantes do presidente.

Em 2024, Trump conquistou 78% dos votos nos condados cuja economia depende da agricultura e 69% entre os eleitores rurais. Agora, o encarecimento da produção e as dificuldades financeiras colocam à prova esse apoio.

O descontentamento já aparece nas pesquisas. Levantamento AP-KFF, realizado em agosto, mostrou que 57% dos eleitores rurais desaprovavam a condução da economia pelo presidente. Mesmo entre os republicanos dessas regiões, a desaprovação chegava a 27%.

Para Trump, o risco não está necessariamente em perder esses eleitores para os democratas, mas em ver parte de sua base deixar de comparecer às urnas. Em estados onde as disputas são decididas por margens estreitas, uma redução na participação pode fazer diferença.

O desgaste também aparece nas projeções eleitorais. Em 22 de outubro, o mercado de apostas Polymarket atribuía 92% de probabilidade de controle democrata da Câmara e 65% do Senado, segundo levantamento do BTG Pactual.

Nesta terça-feira, essas probabilidades haviam avançado para 95% e 70%, respectivamente.

Ainsatisfação com o governo também chegou aos pecuaristas. Em meio ao encolhimento do rebanho bovino americano e à pressão sobre os preços da carne, Trump anunciou medidas para ampliar as importações de países como Brasil e Argentina, buscando aumentar a oferta no mercado doméstico e reduzir os preços ao consumidor.

A iniciativa provocou críticas de entidades ligadas à pecuária americana, que contestaram a estratégia do presidente para enfrentar a alta dos preços da carne bovina.

Eleições dos EUA

Para José Pimenta, do Insper Agro Global, uma mudança no controle do Congresso americano pode ter consequências em duas frentes.

A primeira é doméstica, com o aumento da pressão sobre Trump para ampliar subsídios e programas de apoio aos agricultores prejudicados pelas tensões comerciais com a China.

A segunda passa pela política externa. Um Congresso controlado pela oposição poderia pressionar a Casa Branca a negociar uma trégua com Pequim e recuperar o acesso dos produtos agrícolas americanos ao mercado chinês. As cobranças também poderiam se estender à condução da guerra com o Irã.

É justamente nesse segundo movimento que o agronegócio brasileiro entra na história.

Se Washington e Pequim chegarem a um acordo que amplie as compras chinesas de produtos americanos, especialmente soja, os Estados Unidos poderão recuperar parte do mercado hoje ocupado pelos fornecedores brasileiros.

Segundo a Reuters, a China deve encerrar 2026 com o menor volume de importações agrícolas dos Estados Unidos em sete anos, apesar de ter prometido compras anuais de US$ 17 bilhões.

No mercado de soja, o Brasil ganha espaço: o produto brasileiro está sujeito a uma tarifa de 3% na China, ante 34% aplicada à soja americana.

O impacto, porém, não seria imediato. Uma vitória democrata não significa, por si só, uma mudança no comércio agrícola entre os países. Tudo dependerá da capacidade de pressão do novo Congresso e, principalmente, de uma negociação efetiva entre as duas maiores economias do mundo.

Para Pimenta, esse cenário reforça a necessidade de o Brasil diversificar os destinos de suas exportações e reduzir a dependência da China em determinados produtos agrícolas.

As eleições americanas, portanto, vão além da disputa pelo poder político nos dois últimos anos do mandato de Trump. O resultado também poderá influenciar negociações comerciais capazes de alterar a concorrência entre produtores americanos e brasileiros.

Há ainda um componente de longo prazo. Se os democratas conquistarem o Senado neste ano, chegarão a 2028, quando acontecerá a próxima eleição presidencial americana, em uma posição mais favorável para disputar a manutenção do controle da Casa.

Até lá, o resultado das urnas em estados como Iowa e Ohio poderá ter efeitos que ultrapassam as fronteiras americanas. Afinal, uma mudança na relação comercial entre Washington e Pequim também pode ser sentida nos campos de soja do Brasil.

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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