Eleições nos EUA: republicanos avaliam derrota histórica e miram críticas em Trump
Após revés nas urnas, lideranças do partido culpam guerra no Irã e crise econômica; dados apontam forte migração de eleitores jovens e latinos para os democratas

Após o revés sofrido nas eleições de meio de mandato da última terça-feira (3), o partido republicano iniciou um processo de análise sobre as causas da derrota. Dentro da legenda, lideranças já direcionam críticas diretas ao presidente Donald Trump.
"Trump estava nas urnas esta noite", declarou o deputado republicano Don Bacon logo após os resultados. Crítico habitual do presidente, o parlamentar de Nebraska, que não concorreu à reeleição, foi enfático: "O presidente tinha um índice de aprovação de 35%, e os eleitores não gostaram dos preços dos combustíveis, do caos, das tarifas, da maneira como os aliados foram maltratados e dos abraços com Putin". Ele acrescentou ainda que "ninguém na Casa Branca está disposto a dizer a verdade ao presidente".
Guerra no Irã e reflexos econômicos
Historicamente, as eleições de meio de mandato funcionam como um termômetro para a aprovação do ocupante da Casa Branca. Desta vez, os resultados foram particularmente severos. Candidatos democratas venceram em estados como Geórgia, Texas, Kansas, Iowa e Carolina do Sul — redutos onde Trump havia conquistado vitórias expressivas no pleito presidencial de 2024.
O próprio vice-presidente, JD Vance, foi direto em seu diagnóstico: "A guerra é a razão da nossa derrota". Em publicação na rede social X nesta quarta-feira (4), ele classificou o motivo como "óbvio para praticamente todo mundo". Posteriormente, Trump admitiu que a avaliação do vice é "em grande parte verdade".
O conflito contra o Irã, deflagrado em fevereiro pelos Estados Unidos e por Israel, enfrenta forte rejeição nas pesquisas de opinião. Seus reflexos econômicos, especialmente a alta no preço dos combustíveis, agravaram a crise de custo de vida enfrentada pela população americana.
Atritos partidários e qualidade das campanhas
O senador republicano John Curtis, de Utah, engrossou o coro dos descontentes. "Depois da era Biden, os americanos queriam uma economia que funcionasse para eles", pontuou. "Em vez disso, receberam uma guerra conduzida às pressas, manchetes e mais manchetes de escândalos, uma dívida que cresce até chegar a US$ 40 trilhões e tarifas imprevisíveis." Curtis defendeu um resgate dos valores conservadores tradicionais, que, segundo ele, foram "abandonados ao longo da última década".
Em contrapartida, integrantes da Casa Branca tentam dividir a culpa. Uma fonte do governo, que falou à AFP sob condição de anonimato, atribuiu parte do fracasso ao perfil dos nomes lançados nas disputas. "A qualidade dos candidatos importa, e o presidente Trump fez um trabalho melhor promovendo os candidatos na votação do que os próprios candidatos", argumentou a fonte.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Ron Przysucha/US Dept of State/Divulgação)
Fuga de eleitores jovens e latinos
Por trás da derrota republicana, as estatísticas indicam um desmoronamento do apoio em fatias do eleitorado que foram fundamentais para o retorno de Trump ao poder em 2024.
"Vimos muitos eleitores jovens, especialmente homens jovens, deixarem o Partido Republicano e votarem no Partido Democrata", observou Todd Belt, cientista político da Universidade George Washington. De acordo com estimativas do jornal The New York Times, a mudança nesse segmento ultrapassa os 30 pontos percentuais em relação ao último pleito presidencial.
O voto latino, que havia atingido um pico histórico de apoio aos republicanos há dois anos, também registrou um recuo semelhante, na casa dos 30 pontos. A diretora-executiva da organização pró-imigrantes America's Voice, Vanessa Cárdenas, destacou a participação "recorde" desse grupo. "Durante dois anos, eles tiveram um alvo nas costas, independentemente de sua situação de cidadania, simplesmente por causa de sua aparência ou do idioma que falam", afirmou, em alusão às operações da polícia de imigração (ICE) sob a atual gestão.
Com o diagnóstico da derrota consolidado no lado republicano, o desafio prático muda de lado. Segundo o especialista Todd Belt, os americanos votaram "contra Donald Trump, contra os preços altos, contra a guerra no Irã e contra os erros cometidos por este governo". Diante disso, ele conclui que os democratas "precisam agora dar a eles um motivo para votar 'a favor', e não apenas 'contra'".
Com AFP
