Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
25/08/2026
7 min

Eles compraram uma fábrica gaúcha de calçados e apostam em Simone Mendes para faturar R$ 321 milhões

Comprada por três executivos sem experiência no setor, Bebecê ampliou o catálogo, acelerou o e-commerce e quer dobrar de tamanho até 2028

Eles compraram uma fábrica gaúcha de calçados e apostam em Simone Mendes para faturar R$ 321 milhões

A Bebecê vende cerca de 5 milhões de pares de calçados por ano e está presente em mais de 8 mil pontos de venda no Brasil. Até julho, nenhum deles pertencia à empresa.

Em 41 anos de operação, a indústria de Três Coroas, na serra gaúcha, construiu uma rede nacional de distribuição e chegou a 20 países sem abrir uma loja com o próprio nome. Também manteve pouco contato direto com as mulheres que compravam seus calçados.

A mudança começou após a venda da companhia. Em maio de 2025, os executivos Aryovaldo Mazzi Neto, Leonardo Costa Kwitko e Fabricio Ritter compraram 100% do negócio, até então controlado pela família fundadora. Nenhum dos três tinha experiência na indústria calçadista.

Desde então, a receita líquida da Bebecê passou de R$ 214,9 milhões, em 2024, para R$ 257 milhões em 2025, alta de 20%. Para 2026, a projeção é alcançar R$ 321 milhões, crescimento de mais 25%. Se a meta for atingida, a companhia terá avançado 49% em dois anos.

“A gente não sabia de sapato, mas eu já vivia dilemas de gestão empresarial”, diz Aryovaldo Mazzi Neto, CEO da Bebecê.

A meta agora é dobrar o tamanho da empresa até 2028. Para chegar lá, os novos controladores ampliaram o catálogo, retomaram a produção de calçados de couro, aceleraram o comércio eletrônico e aumentaram a exposição da marca. A estratégia inclui duas estreias: uma coleção assinada por Simone Mendes e a primeira loja própria da história da Bebecê.

Por que os executivos compraram a Bebecê?

A Bebecê não enfrentava uma crise financeira quando foi vendida. O problema estava na sucessão. Os familiares do fundador não tinham interesse em assumir a operação e não havia um sucessor definido.

As conversas com os compradores surgiram por meio de contatos de mercado. Mazzi assumiu a presidência e se mudou de São Paulo para Porto Alegre para acompanhar a operação.

Os três sócios se dividem por especialidade. Aryovaldo Mazzi Neto foi diretor financeiro da Kraft Heinz e passou por Siemens, América Latina Logística e Votorantim Cimentos. Leonardo Costa Kwitko é sócio-fundador da K&K Partners, de fusões e aquisições, e tem histórico nos setores de moda e consumo. Fabricio Ritter cuida de crédito e estruturação financeira.

A tese dos compradores não envolvia recuperar uma empresa em dificuldades. Segundo Mazzi, os executivos encontraram uma indústria com capacidade instalada, distribuição nacional e uma marca construída ao longo de quatro décadas. O principal espaço para crescimento estava no relacionamento com o consumidor final.

Simone Mendes e loja própria aproximam a Bebecê das consumidoras

A Bebecê conhecia o perfil de suas clientes por meio de pesquisas de campo e do comportamento no comércio eletrônico. Faltava observar pessoalmente como elas escolhiam, experimentavam e avaliavam os produtos.

Simone Mendes tornou-se a primeira grande aposta para ampliar essa aproximação. A cantora estreou como garota-propaganda na coleção de inverno e lançou uma linha de calçados assinada com a empresa.

A parceria foi renovada para a campanha de verão de 2027. Uma nova coleção assinada pela cantora chegou ao mercado em agosto.

Você é multifranqueado? Inscreva-se no novo prêmio da EXAME

O comércio eletrônico também ganhou espaço. O canal faturava menos de R$ 100 mil por mês quando os novos sócios assumiram a empresa. Agora, as vendas mensais superam R$ 1,5 milhão. Para sustentar o crescimento, a Bebecê abriu um centro de distribuição dedicado ao canal digital.

A terceira frente foi a abertura da primeira loja própria da companhia, no NorteShopping, no Rio de Janeiro. A cidade foi escolhida pelo fluxo de consumidores e pela proximidade entre o público do shopping e o perfil de cliente buscado pela marca.

A unidade também funciona como um laboratório para a empresa entender quais produtos atraem as clientes, como elas circulam pela loja e quais fatores influenciam a decisão de compra.

Bebecê também fabrica calçados para outras marcas

Além dos produtos vendidos com a marca Bebecê, a empresa trabalha no modelo de private label, produção feita para que outras companhias comercializem os calçados com seus próprios nomes.

A operação responde por cerca de 25% do faturamento e inclui, segundo a companhia, clientes dos segmentos premium e de luxo. Essas marcas vendem os produtos por valores superiores aos praticados pela Bebecê. Um scarpin da empresa gaúcha, por exemplo, custa entre R$ 179 e R$ 229 no varejo multimarcas.

Os pedidos de terceiros ajudam a ocupar a fábrica em períodos de menor demanda, reduzem o peso dos custos fixos e equilibram a sazonalidade da produção. Segundo a Bebecê, as exigências desses clientes também ajudam a aprimorar processos posteriormente usados nos produtos da própria marca.

Quer receber um grande empresário no seu negócio? Inscreva-se no Choque de Gestão

A estrutura industrial reúne três unidades em Três Coroas, dedicadas à montagem, aos componentes injetados e às palmilhas. A empresa também possui dois centros de distribuição e emprega cerca de mil pessoas diretamente e outras 1,4 mil de forma indireta.

A fabricação começa após o recebimento dos pedidos dos lojistas. O modelo reduz o risco de acumular calçados sem venda, um dos principais custos da indústria da moda.

Bebecê investiu R$ 10 milhões para ampliar o catálogo

O novo comando decidiu aumentar a variedade de produtos em um momento no qual parte do varejo tenta reduzir o número de itens disponíveis.

A quantidade de modelos desenvolvidos anualmente passou de cerca de 700 para mil. O portfólio agora reúne 25 mil SKUs, unidades de identificação usadas para diferenciar cada combinação de modelo, cor e tamanho. Os lançamentos são distribuídos em oito coleções por ano.

Tênis, botas e uma linha voltada ao conforto também foram incorporados ao catálogo. O investimento em máquinas e capacidade produtiva somou aproximadamente R$ 10 milhões.

Como as enchentes afetaram a fábrica da Bebecê

O crescimento registrado em 2025 parte de uma base afetada pelas enchentes no Rio Grande do Sul.

Em maio de 2024, a água atingiu a fábrica da Bebecê. Cerca de 100 mil pares prontos foram destruídos, além de matérias-primas e máquinas. A produção ficou parada durante todo o mês, voltou gradualmente em junho e foi normalizada em julho.

Boa parte dos pedidos não foi cancelada. As entregas foram remanejadas para o segundo semestre, o que reduziu o impacto sobre a receita anual. As perdas de ativos e a paralisação pesaram principalmente sobre o resultado da companhia.

A Bebecê estima que, sem o efeito das enchentes sobre a base de comparação, o crescimento da receita líquida em 2025 teria sido de aproximadamente 14%, e não de 20%.

Uma comparação sem essa distorção apareceu no ano seguinte. No primeiro semestre de 2026, a receita líquida chegou a R$ 141,2 milhões, ante R$ 107,9 milhões no mesmo período de 2025. A alta foi de 31%.

Novas lojas próprias

Por enquanto, a Bebecê não pretende transformar a loja própria em seu principal canal de vendas. Mazzi descarta abrir centenas de unidades ou franquear a marca.

A unidade do Rio de Janeiro será usada para testar o posicionamento da empresa e observar o comportamento das consumidoras. A venda por meio de lojas multimarcas continuará como o principal negócio.

A operação própria funcionará como complemento, sem competir diretamente com os varejistas que distribuíram os produtos da Bebecê nas últimas quatro décadas.

“Hoje eu estou muito pé no chão”, diz Mazzi. O executivo pretende consolidar a operação carioca antes de definir onde e quando será aberta a próxima unidade.

'Funcionário barato sai caro': o alerta de Marcus Marques para casal que fatura R$ 2,1 milhões

A cautela convive com a meta de dobrar a companhia até 2028. Para isso, a empresa terá de enfrentar um limite industrial. Segundo Mazzi, a fábrica já opera próxima da capacidade instalada.

Hoje, os períodos de menor demanda da marca própria são ocupados pelos pedidos produzidos para terceiros. Se os dois negócios continuarem crescendo, eles passarão a disputar espaço nas mesmas linhas de montagem.

“Fazer as coisas básicas bem feitas ainda faz muita diferença no Brasil”, afirma Mazzi.

AutorIsabela Rovaroto
FonteExame
Distribuído por