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13/06/2026
8 min

Eles construíram o 2º melhor hotel do mundo em Gramado — agora vão abrir unidades pelo Brasil

Eles construíram o 2º melhor hotel do mundo em Gramado — agora vão abrir unidades pelo Brasil

Esqueça as movimentadas avenidas Borges de Medeiros e Hortências, as mais badaladas de Gramado, na serra gaúcha. O hotel eleito o melhor do Brasil pelos turistas fica num bairro residencial, afastado do centro, onde os vizinhos penduram roupa no varal e cachorros latem nos quintais.

O Colline de France ocupa, há oito anos, uma rua tranquila da serra gaúcha. São 33 suítes de inspiração francesa, com diárias que começam em 1.200 reais na baixa temporada e chegam a 6.000 reais em datas como Natal e ano-novo.

O hotel foi inaugurado em novembro de 2018 por Jonas e pela mulher, Ana Clara Grings Tomazi — ele ex-corretor de imóveis, ela vinda da empresa de calçados da família, nenhum dos dois com experiência prévia em hotelaria.

Nesta semana, o TripAdvisor, maior plataforma de viagens do mundo, divulgou a edição 2026 do prêmio Travellers' Choice: Best of the Best Hotels. O Colline de France apareceu como o número 1 do Brasil, o número 1 da América do Sul e o segundo melhor hotel do planeta, atrás apenas do G.H. Universal Hotel, na Indonésia.

É o único hotel brasileiro entre os dez primeiros do ranking, que reúne o 1% mais bem avaliado entre 1,6 milhão de hotéis listados na plataforma. Diferentemente de premiações decididas por júri, as posições saem das avaliações de quem realmente se hospedou, publicadas ao longo do ano anterior.

Não é a primeira vez. O hotel já tinha sido eleito o melhor do mundo em 2021 e em 2024, e aparece de forma recorrente entre os dez primeiros — uma constância que nenhum outro hotel brasileiro sustentou.

Para Jonas, o efeito desses títulos extrapola o próprio negócio. "Ajuda até a cidade e o Rio Grande do Sul, porque é daqui que está saindo esse título", diz.

O reconhecimento chega num momento de virada para o negócio. O grupo investe cerca de 168 milhões de reais na primeira unidade fora do Rio Grande do Sul, em Miguel Pereira, no Rio de Janeiro, e mantém projetos hoteleiros e residenciais em mais três frentes — em São Joaquim e Balneário Camboriú, em Santa Catarina, e em Araçariguama, no interior de São Paulo.

O plano é levar a assinatura francesa a quatro estados sem perder o atendimento que rendeu os prêmios.

"Estamos levando a essência, a cultura e os padrões de atendimento que fizeram do Colline de France uma referência global para nossos novos projetos em Miguel Pereira, Balneário Camboriú e Araçariguama, em São Paulo", diz Jhon Freitas, sócio e investidor do hotel.

Como eles construíram este hotel de luxo

A escolha do terreno, que parecia um erro aos olhos de quem estava em volta, tinha um cálculo por trás.

Jonas queria fazer um hotel que rivalizasse, guardadas as proporções, com o Saint Andrews — referência de luxo em Gramado —, mas com valor mais acessível. E queria fugir da estética que domina a cidade.

"Hoje quando você coloca no Booking para olhar o hotel em Gramado, vai ter muitos hotéis italianos", afirma, referindo-se à predominância de uma arquitetura inspirada na Itália. A aposta na temática francesa era um jeito de se diferenciar num destino saturado de propostas parecidas.

O terreno, na verdade, era um conjunto de cinco lotes.

Um deles pertencia ao pai de Jonas, na entrada do atual hotel; os outros quatro foram adquiridos e unificados para viabilizar a construção. O orçamento inicial não sobreviveu à obra. As peculiaridades de uma construção de inspiração francesa custavam mais caro, e a conta cresceu bem além do previsto. "O orçamento explodiu", diz Jonas.

O hotel acabou três vezes maior do que o investimento planejado no início.

Qual é o diferencial do hotel

Questionado sobre o que sustenta as avaliações máximas, Jonas não aponta o luxo das acomodações. Aponta o atendimento. E, também, uma regra específica. Em viagens de teste a hotéis de Paris e Nova York, ele notou que a qualidade do serviço variava conforme o valor pago pela hospedagem: quem ficava numa suíte presidencial recebia um tratamento superior ao de quem ficava num quarto simples.

No Colline de France, segundo ele, a regra é a oposta. "A pessoa se hospeda no quarto mais simples ou no nosso melhor quarto, ela vai ter o mesmo atendimento", afirma.

Para manter esse padrão, o hotel opera com uma equipe maior que a da concorrência, o que pressiona a margem. E é aqui que aparece o principal desafio da expansão: replicar em outros estados um atendimento que foi construído à mão, num hotel de poucos quartos, sem deixá-lo cair pelo caminho.

"Não adianta a gente dar um atendimento diferenciado, ser premiado aqui em Gramado, e lá nos outros hotéis a gente deixar a desejar", diz. A equação de manter qualidade enquanto se ganha escala é o ponto mais sensível do plano.

168 milhões de reais no Rio de Janeiro

A primeira unidade fora do Rio Grande do Sul fica em Miguel Pereira, no Rio de Janeiro — cidade serrana que, segundo Jonas, busca se posicionar como uma espécie de Gramado carioca.

O projeto prevê um hotel de 40 apartamentos, com o dobro da estrutura do de Gramado, e duas torres residenciais.

O investimento no conjunto é de cerca de 168 milhões de reais, com o recurso vindo da venda dos apartamentos das torres. A operação deve gerar cerca de 80 empregos diretos no hotel depois de pronto, além de algo em torno de 150 vagas rotativas durante a obra.

Os projetos seguem uma lógica de adaptação ao destino. O hotel de Gramado tem estilo imperial, com referências aos reinados de Luís XIV e Luís XV; o do Rio de Janeiro será inspirado no art déco — estilo decorativo dos anos 1920 — em razão da forte ligação histórica da cidade com a França.

Em São Joaquim, em Santa Catarina, a cidade mais fria do país, o grupo licenciou a marca para um condomínio residencial de terrenos erguido em parceria com uma vinícola, batizado de Colline Résidences Quinta da Neve e inspirado na região da Borgonha.

Ali não haverá hotel: os investidores do condomínio bancam o empreendimento e pagam royalties pelo uso da marca.

Há ainda duas frentes em estágio anterior. Jonas afirma que pretende aprovar, neste ano ou no próximo, um projeto em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, no mesmo formato de hotel com torre residencial. E há um projeto de hotel em Araçariguama, no interior de São Paulo, este voltado a uma estética da Provence francesa.

A entrada em São Paulo e no Rio de Janeiro tem, para ele, um peso estratégico. "Tudo estando no Rio, São Paulo, é onde acontece", diz, sobre a visibilidade que esses mercados oferecem.

Gramado sob pressão

Morador da cidade e parte do setor, Jonas faz uma leitura própria do momento de Gramado, que recebeu cerca de 8 milhões de turistas no ano passado.

O maior problema, na visão dele, não é o preço — alvo recorrente de reclamação dos visitantes —, mas a infraestrutura. Ele argumenta que o turista que reclama do custo costuma se concentrar na avenida principal, a Borges de Medeiros, onde o aluguel é mais alto, sem procurar opções mais baratas em ruas vizinhas.

O desafio real, diz, é planejar e executar a infraestrutura de uma cidade que cresceu muito em pouco tempo.

Ele também se posiciona contra a proibição de novos hotéis em discussão na cidade. O argumento é pessoal: se a restrição existisse em 2018, o próprio Colline de France não teria saído do papel. Para ele, a oportunidade deve estar aberta a todos, ainda que com algum critério de setorização.

Sobre o futuro do grupo, o plano declarado é crescer sem abrir mão do que sustentou a reputação até aqui. A meta não é multiplicar quartos em busca de lucro máximo, mas manter os hotéis pequenos e o atendimento que rendeu os títulos.

"A gente conseguiu ter uma lucratividade ótima com poucos quartos", diz. O teste, agora, é provar que esse modelo aguenta sair de uma rua tranquila de Gramado e se repetir em quatro estados.

8 milhões de turistas em Gramado: Dado citado por Jonas. Recomendo confirmar com fonte oficial (prefeitura/secretaria de turismo) antes de publicar como fato.
Saint Andrews: Jonas cita como referência de luxo ("primeiro seis estrelas do Brasil"). Grafia e classificação valem checagem se o nome for mantido.
"Nesta semana": A premiação saiu na terça, 9 de junho. Como a matéria sai logo depois, "nesta semana" funciona; se publicar na semana seguinte, troque por "no início de junho" ou pela data.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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