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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
23/07/2026
8 min

Eles farão R$ 25 milhões levando negócios brasileiros ao exterior e trazendo gringos para cá

Eles farão R$ 25 milhões levando negócios brasileiros ao exterior e trazendo gringos para cá

Para uma empresa vender em outro país, traduzir o site e encontrar um distribuidor costuma ser apenas o começo. É preciso testar a demanda, adaptar o produto, ajustar preços, atender às regras locais, contratar fornecedores e, em alguns casos, abrir uma subsidiária, uma loja ou até uma fábrica. Foi nesse intervalo entre o plano de expansão e a operação cotidiana que três executivos encontraram uma oportunidade de negócio.

Fundada em 2025, a Intrust Associates acompanha empresas que pretendem entrar em novos mercados e assume parte da execução do projeto. A companhia atua tanto com negócios brasileiros interessados em vender no exterior quanto com grupos estrangeiros que querem se instalar no Brasil. Em vez de entregar somente um estudo de mercado, funciona como um gestor local terceirizado.

Em seu serviço, a Intrust avalia o mercado, ajuda a adaptar produtos e marcas, organiza a abertura da operação e coordena fornecedores especializados nas áreas jurídica, tributária, regulatória, comercial e de marketing. A proposta é acompanhar o cliente antes, durante e depois da entrada em um país.

Neste ano, a empresa projeta faturar US$ 5 milhões, equivalentes a R$ 25,3 milhões na cotação atual. A operação tem 25 funcionários no Brasil, cinco na França e começa a formar uma equipe nos Estados Unidos. Seus projetos têm, em média, duração de um ano.

Como dois engenheiros e um advogado se uniram para criar a Intrust

A Intrust nasceu da relação profissional construída entre Giovanni Montoneri, Gabriel Loschiavo e Guilherme França em uma empresa anterior.

Italiano e formado em engenharia elétrica, Montoneri construiu a carreira em projetos internacionais. Depois de fazer um mestrado na França, trabalhou na Decathlone participou de iniciativas de abertura e desenvolvimento de operações em países como Polônia, China, Índia e Singapura. Veio ao Brasil em 2012 e, mais tarde, passou por outra companhia francesa, além de ocupar posições em conselhos e na direção de uma empresa familiar brasileira.

Loschiavo, de 36 anos, é advogado especializado em direito societário e fusões e aquisições. Começou a carreira no Mattos Filho e, em 2015, fundou uma empresa dedicada a serviços administrativos para escritórios e departamentos jurídicos. França ingressou no negócio em 2018, como diretor financeiro, e Montoneri passou a participar da estrutura de governança em 2022.

Os três venderam suas participações nessa companhia em maio de 2025 e avançaram com a Intrust.

França é engenheiro mecânico, possui certificação CFA e passou por companhias como Volkswagen, Unilever e LATAM. Hoje, lidera a filial da Intrust em Lyon, na França. Loschiavo prepara a estrutura da empresa na Flórida, nos Estados Unidos, enquanto Montoneri atua especialmente na conexão com o mercado europeu.

Segundo os sócios, a ideia surgiu a partir de uma base de mais de 300 clientes da operação anterior. Eram, principalmente, empresas estrangeiras que chegavam ao Brasil em busca de representação legal e apoio administrativo, mas passavam a demandar serviços de marketing, vendas, gestão e adaptação ao mercado local.

Ao mesmo tempo, Montoneri observava que abrir uma operação internacional da maneira tradicional exigia a contratação de um executivo responsável pelo país e de uma equipe local. O investimento poderia ser mantido por 18 meses antes de o novo negócio começar a produzir receitas — prazo difícil de suportar para companhias menores.

“Uma pequena ou média empresa nem sempre consegue fazer esse investimento. Nossa ideia foi oferecer o conhecimento e a estrutura local como serviço, para que ela possa testar um novo país com menos custo e mais velocidade”, afirma Montoneri.

Um ponto focal para toda a operação

A Intrust não executa internamente todos os serviços necessários para cada projeto. A empresa reúne especialistas e fornecedores nos mercados de destino e assume a coordenação do trabalho. Para Loschiavo, é justamente esse papel que diferencia o negócio de consultorias focadas em apenas uma etapa, como pesquisas de mercado, eventos, aproximação entre compradores e vendedores, questões jurídicas ou operações de M&A.

“Nós nos colocamos como o coordenador dessa orquestra”, afirma Loschiavo. “O cliente tem um único ponto focal, e nós coordenamos toda a linha do tempo, seja com a nossa equipe, seja com parceiros especializados.”

O formato também distingue a Intrust de programas públicos e privados voltados à preparação de exportadores. O Brasil conta, por exemplo, com o Programa de Qualificação para Exportação, o Peiex, da ApexBrasil, que prepara empresas para atuar no comércio internacional, e com a Plataforma Brasil Exportação, que concentra serviços de entidades como ApexBrasil, MDIC, Itamaraty, Sebraee CNI. A Intrust busca ocupar a etapa posterior: a implantação e a gestão da operação no destino.

O ponto de partida de cada projeto é uma escolha: a empresa quer internacionalizar apenas um produto ou pretende levar a própria marca e a operação para outro país?

No primeiro caso, o trabalho pode envolver licenças, logística, importação, distribuição e definição dos canais de venda. No segundo, a entrada tende a ser mais gradual. A empresa pode começar construindo uma comunidade em torno da marca, participar de eventos e testar a demanda por meio de uma loja temporária, um showroom ou um espaço dentro de outro varejista. Uma unidade própria é aberta somente depois da validação do mercado.

O caminho também varia conforme o setor. A Intrust atende companhias farmacêuticas, indústrias químicas, startups de tecnologia, empresas de engenharia, marcas de moda e negócios de alimentos e bebidas.

Uma companhia farmacêutica europeia, por exemplo, procurou a empresa para avaliar a entrada no Brasil. A decisão inicial foi não abrir uma estrutura própria, mas distribuir os produtos por meio de um parceiro local. A Intrust passou então a coordenar as autorizações regulatórias e deverá continuar acompanhando os distribuidores depois que as vendas começarem.

O processo é especialmente sensível nesse setor. Para comercializar medicamentos no Brasil, uma empresa pode precisar, entre outras exigências, do registro do produto, de autorização de funcionamento e de certificações de boas práticas. Importações também estão sujeitas à análise sanitária e a procedimentos específicos da Anvisa.

Em outro projeto, uma empresa brasileira do varejo alimentício avalia a construção de uma fábrica nos Estados Unidos. Antes da decisão, a Intrust está dimensionando a demanda, o comportamento do consumidor e a região mais adequada para instalar a subsidiária.

“Não existe receita de bolo”, diz Loschiavo. “Antes de montar uma operação, é preciso entender o potencial do mercado e alinhar cada etapa ao interesse do cliente. Não dá para prometer uma fábrica em uma semana quando o processo regulatório demora meses.”

Como a Intrust ganha dinheiro

A empresa trabalha com três formatos de remuneração. O mais comum é uma mensalidade paga em dólar ou euro durante a execução do projeto. Em alguns contratos, o valor fixo é reduzido e complementado por uma taxa de sucesso. Há ainda casos nos quais a Intrust recebe participação societária e passa a ser sócia da operação.

O modelo permite que o cliente teste o mercado antes de montar uma equipe própria. Quando o projeto atinge os indicadores combinados, a Intrust ajuda a contratar os profissionais locais, transfere os processos e pode permanecer ligada ao negócio por meio de um conselho consultivo ou de administração.

Para Montoneri, o principal risco de uma internacionalização aparece depois da abertura formal. A empresa pode conseguir o registro, a conta bancária e o endereço, mas perder tração quando precisa coordenar marketing, logística, vendas e gestão à distância.

“A internacionalização não é um projeto com começo e fim rápido. É uma jornada”, afirma. “O nosso papel é colocar a mão na massa e continuar ao lado da empresa quando começa o dia a dia da operação.”

Do vinho brasileiro ao vitral de Notre-Dame

Para testar o modelo, os sócios também criaram projetos próprios. Um deles é o Vin du Brésil, iniciativa que reúne seis vinícolas de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul para posicionar vinhos brasileiros no mercado europeu. A meta é chegar a 15 participantes até dezembro e movimentar cerca de US$ 1 milhão por ano em exportações. O primeiro teste comercial foi feito em Paris.

Outro projeto é o Villa Tropical, empreendimento imobiliário de alto padrão em Ávola, na Sicília, voltado a investidores brasileiros interessados em diversificação patrimonial na Europa.

No sentido contrário, a empresa apoiou a chegada ao Brasil da ON/ME, marca contemporânea do vitralista francês Jean Mône, que participou da restauração dos vitrais da Catedral de Notre-Dame, em Paris. O trabalho incluiu a adaptação da proposta comercial e a aproximação com arquitetos e designers brasileiros.

A companhia também enxerga novas oportunidades na aproximação comercial entre Mercosul e União Europeia. O acordo interino de comércio entre os dois blocos passou a ser aplicado provisoriamente em 1º de maio de 2026. O texto prevê a redução progressiva de tarifas e trata de áreas como regras de origem, barreiras técnicas, medidas sanitárias, serviços e pequenas e médias empresas.

A Intrust já mantém uma filial em Lyon, na França, e planeja ampliar a prospecção nos Estados Unidos e na América Latina. Uma viagem à Argentina está prevista para setembro, enquanto a estrutura da Flórida será usada para buscar companhias americanas interessadas no Brasil, na Europa e em outros mercados latino-americanos.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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