Eles se apaixonaram no trabalho, ficaram noivos e criaram uma fintech que vai movimentar R$ 1 bi

Apaixonados um pelo outro — e pelo mercado financeiro — Felipe Sabino e Lisandra Pereira passaram anos trabalhando no mesmo ambiente. Mesas de câmbio, reuniões com empresários e operações financeiras de alto volume foram cenários de um romance que começou no ambiente corporativo.
O mercado financeiro aproximou os dois profissionalmente e, com o tempo, também pessoalmente. Agora, prestes a se casar no dia 19 de junho, o casal vive uma nova fase da parceria: construir uma empresa juntos, a Aurex, uma fintech de câmbio criada em São Paulo.
Lisandra veio de São João del Rei, em Minas Gerais, onde começou a trabalhar ainda adolescente vendendo produtos da Avon de porta em porta. Depois passou por uma fábrica de móveis, concessionária de motos e pelo mercado de crédito antes de chegar ao mercado financeiro.
“Eu descobri muito cedo que não era sobre produtos, era sobre pessoas. Era sobre ouvir e entender as necessidades delas”, diz Lisandra.
A entrada no mercado financeiro veio depois de uma mudança de rota profissional. Ela deixou o crédito consignado, buscou certificações e entrou no ecossistema da XP, onde, mais tarde, passou pela Monte Bravo. Foi lá onde conheceu Sabino.
Ele, por outro lado, saiu de Boa Vista, no interior de São Paulo, com uma ideia muito clara do caminho que queria seguir. Filho de médico, decidiu não seguir na medicina depois de se encantar pelo universo dos mercados financeiros. Um filme sobre Wall Street despertou a curiosidade.
“Eu vi aquele trading floor, aquelas telas, aquela negociação acontecendo e falei: ‘eu quero fazer isso’. Era aquilo que eu queria viver”, conta Sabino.
A carreira levou o executivo ao Itaú BBA e depois à XP, onde participou da construção da operação de câmbio da companhia.
Uma parceria profissional que virou sociedade
Na Monte Bravo, os dois encontraram uma combinação que mudaria suas trajetórias. Lisandra tinha uma abordagem mais comercial e focada em resolver problemas dos clientes; Sabino trazia a visão técnica de câmbio.
“Eu sempre procurava olhar para aquilo que as pessoas não estavam olhando. Eu não queria simplesmente oferecer produto, eu queria resolver uma dor do cliente”, afirma Lisandra.
A parceria profissional cresceu junto com a área de câmbio da empresa. Segundo eles, a operação aumentou mais de 20 vezes durante o período em que trabalharam juntos. A proximidade veio naturalmente.
“Foi muito mais fácil a gente se relacionar com alguém que a gente já conhecia, que já era amigo e que já tinha uma afinidade”, diz Lisandra.
O que começou entre reuniões, viagens e clientes acabou virando também uma sociedade. Em 2025, ao lado de Henrique Saavedra, especialista em tecnologia e operações, os dois fundaram a Aurex.
Henrique Saavedra, Felipe Sabino, Lisandra Pereira, sócios da Aurex: trio criou fintech para modernizar o câmbio (Aurex/Divulgação)
Breakeven em menos de um ano
Em menos de um ano, a Aurex chegou ao breakeven, movimentou R$ 100 milhões em 2025 e alcançou R$ 130 milhões em volume transacionado até maio de 2026.
A companhia fechou 2025 com faturamento de R$ 3 milhões e projeta movimentar R$ 250 milhões neste ano. Para 2027 e 2028, a meta é chegar a US$ 1 bilhão em transações.
A empresa atende 30 clientes ativos e já opera em países como Brasil, México, Colômbia e Estados Unidos. A tese dos fundadores é simples: o mercado de câmbio corporativo, apesar de essencial para empresas globais, ainda carrega processos antigos.
Hoje, uma empresa brasileira que precisa pagar um fornecedor no exterior normalmente precisa negociar a operação com uma instituição financeira, enviar documentos, aguardar análises de compliance e esperar a liquidação internacional.
Grande parte desse processo passa pelo SWIFT, uma rede criada para comunicação entre bancos ao redor do mundo. Sabino compara o sistema a um “WhatsApp dos bancos”: uma infraestrutura que funciona, mas que depende de várias etapas intermediárias.
A proposta da Aurex é reconstruir esse caminho usando tecnologia, inteligência artificial e ativos digitais. Na prática, uma empresa que precisa pagar uma invoice em euro, por exemplo, envia reais para a Aurex. A plataforma utiliza stablecoins — ativos digitais pareados a moedas tradicionais, como o dólar — como uma ponte para fazer a transferência internacional de forma mais rápida.
O beneficiário final não precisa receber em stablecoin. O ativo digital funciona nos bastidores para acelerar a liquidação.
“A stablecoin é só um mecanismo de backoffice para trazer agilidade. O cliente deposita moeda tradicional aqui e recebe a moeda de destino lá fora”, explica Sabino.
A promessa é reduzir operações que podem levar dias para processos concluídos em minutos.
IA para reduzir burocracia e automatizar o câmbio
Além da infraestrutura de pagamentos, a empresa aposta em inteligência artificial para automatizar etapas que normalmente exigem equipes grandes.
Um dos produtos é a Áurea, agente de inteligência artificial criado pela companhia para auxiliar empresas na análise de documentos. A ferramenta avalia invoices, identifica informações necessárias, ajuda no enquadramento regulatório e reduz o tempo de análise.
“A gente construiu a empresa em três pilares: conhecimento de mercado, tecnologia e regulação”, afirma Sabino.
Segundo os fundadores, a inteligência artificial não elimina o papel humano, mas muda o foco das equipes. A ideia é tirar profissionais de tarefas repetitivas e direcioná-los para decisões mais estratégicas e relacionamento com clientes.
Até agora, o crescimento veio principalmente por relacionamento — clientes que os fundadores já conheciam do mercado tradicional. A próxima etapa é ampliar aquisição e escalar a operação.
Para o casal, o desafio é transformar uma experiência construída ao longo de anos no mercado financeiro em uma nova infraestrutura para empresas globais.
“Estamos construindo uma nova geração do câmbio corporativo”, diz Sabino.
