Eles venderam uma startup de IA de três anos por R$ 2,9 bilhões ao Itaú. E não é a primeira vez
Fundadores da NeoSpace já haviam vendido a Zup ao banco. Agora, apostam em modelos próprios de inteligência artificial para analisar dados empresariais e competir no mercado global

RESUMO +
O banco Itaú Unibanco anunciou a compra de 100% da startup brasileira de inteligência artificial NeoSpace por R$ 2,925 bilhões. Fundada em 2023 por Bruno Pierobon, Felipe Almeida e Gustavo Debs, a NeoSpace desenvolve modelos próprios para analisar dados empresariais. O trio também criou a Zup Innovation, adquirida pelo Itaú em operação anunciada em 2019.
Criar uma inteligência artificial própria, capaz de encontrar padrões em grandes volumes de dados empresariais, foi a aposta dos empreendedores por trás da NeoSpace. Fundada em 2023, a startup brasileira decidiu desenvolver modelos de IA do zero, em vez de adaptar tecnologias já existentes. Três anos depois, a estratégia colocou a empresa no centro de um negócio de R$ 2,925 bilhões com o Itaú Unibanco.
O banco anunciou a compra de 100% da NeoSpace, com quem já mantinha uma parceria havia quase dois anos. A aquisição também marca um segundo negócio entre a instituição financeira e os empreendedores Bruno Pierobon, Felipe Almeida e Gustavo Debs, que já haviam fundado a Zup, empresa de tecnologia adquirida pelo Itaú.
A trajetória dos fundadores ajuda a explicar a nova aposta. Depois de construir a Zup e acompanhar seu crescimento até cerca de 3.500 funcionários, o grupo decidiu empreender novamente, desta vez com a criação de modelos próprios de inteligência artificial para analisar dados e apoiar decisões empresariais.
O que a NeoSpace faz e como funciona sua inteligência artificial
A tecnologia da NeoSpace busca resolver um problema enfrentado por grandes empresas: como extrair informações úteis de volumes crescentes de dados. A proposta é cruzar informações estruturadas, como transações e tabelas, com dados não estruturados, como documentos e outros registros, para identificar padrões que possam orientar decisões.
No setor financeiro, por exemplo, a tecnologia pode analisar históricos de compras, pagamentos, empréstimos e interações com aplicativos para identificar padrões relacionados a risco de crédito, prevenção a fraudes e comportamento dos clientes.
A empresa chama sua abordagem de Data Foundational Models, ou modelos fundacionais de dados. A tese dos fundadores é que os grandes modelos de linguagem, conhecidos como LLMs, são úteis para tarefas como atendimento e comunicação, mas não necessariamente são a ferramenta mais adequada para analisar todos os dados que sustentam as decisões de uma companhia.
Felipe Almeida afirmou em março à EXAME que ogrupo queria desenvolver tecnologia própria, em vez de criar apenas uma camada sobre modelos de terceiros, e construir uma empresa com potencial de atuação global.
A aposta exige investimentos em pesquisa, profissionais especializados e capacidade computacional. A startup também chamou a atenção da Nvidia e da Oracle e tinha os Estados Unidos entre os mercados prioritários para sua expansão internacional.
Quem são os fundadores da NeoSpace
A história do grupo começa antes da NeoSpace. Bruno Pierobon aprendeu programação sozinho e, aos 13 anos, já aplicava os conhecimentos ajudando o pai em uma empresa de provedor de internet no interior de São Paulo.
Após a aquisição do negócio pelo Grupo Algar, Pierobon assumiu responsabilidades na área de pesquisa e desenvolvimento da companhia de telecomunicações. Mais tarde, fundou a Zup, que cresceu atendendo grandes empresas com soluções de tecnologia e transformação digital.
A experiência na Zup deu aos empreendedores contato com problemas tecnológicos de grandes organizações e com a construção de produtos em escala. Depois da venda ao Itaú, o grupo decidiu direcionar a experiência acumulada para um desafio diferente: desenvolver a própria infraestrutura de inteligência artificial.
Felipe Almeida foi um dos porta-vozes dessa estratégia. A ambição era desenvolver uma solução capaz de atender empresas de diferentes setores e competir também no mercado internacional.
Gustavo Debs também participou da criação da Zup e da NeoSpace. Os três empreendedores formam o núcleo fundador que conecta as duas empresas e explica por que a aquisição atual representa a segunda venda de um negócio criado pelo grupo ao Itaú.
Zup foi a primeira empresa comprada pelo Itaú
A Zup foi criada em Minas Gerais e cresceu com projetos de transformação digital para grandes companhias. A empresa chegou a aproximadamente 3.500 funcionários antes de ser adquirida pelo Itaú, em uma operação anunciada em 2019.
A experiência representou o primeiro negócio dos empreendedores com o banco. Depois desse ciclo, os fundadores decidiram voltar ao mercado com uma proposta diferente, centrada no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial próprios.
A nova empresa também começou a relação com o Itaú por meio de uma parceria e de um investimento. No início de 2025, o banco investiu US$ 15 milhões na NeoSpace, em uma rodada de US$ 18 milhões, e ficou com 15% da startup. A rodada contou ainda com investidores ligados a fundos internacionais de capital de risco.
Itaú compra 100% da NeoSpace por R$ 2,9 bilhões
Desde o início da parceria, Itaú e NeoSpace desenvolveram soluções de inteligência artificial generativa para áreas como crédito, gestão financeira, relacionamento com clientes e prevenção a fraudes.
Com a compra anunciada agora, o Itaú pretende ampliar sua capacidade de desenvolver modelos próprios de inteligência artificial e acelerar a evolução do ia.i, sua plataforma de IA generativa. A estratégia combina a especialização técnica da startup com os dados, o conhecimento do setor financeiro e a escala do banco.
A tecnologia da NeoSpace já vem sendo aplicada em projetos com o banco e poderá contribuir para interações mais contextualizadas, orientações financeiras, ofertas de crédito adequadas ao perfil dos clientes e novas ferramentas de planejamento para pessoas e empresas.
Apesar da aquisição, a NeoSpace deverá manter gestão própria. Bruno Pierobon continuará como CEO, a equipe será preservada e as atividades de pesquisa e desenvolvimento terão continuidade, segundo o comunicado da operação.
A transação ainda depende da aprovação do Cade e do Banco Central, além do cumprimento das demais condições previstas em contrato.
