Elétricas e rodovias são 'portos seguros' ante eleições, Irã e juros dos EUA, diz BofA
Bank of America recomenda estratégia que combina ações defensivas com papéis que podem se beneficiar da queda dos juros

O cenário para os mercados brasileiros no 2° semestre ainda é marcado por incertezas, segundo o Bank of America (BofA). Em relatório reccém-divulgado, o banco destaca que as eleições gerais no Brasil, em outubro, a guerra no Irã e o comportamento das taxas de juros nos Estados Unidos, dificultam a definição de uma trajetória para a curva de juros.
Diante desse ambiente, o BofA mantém uma estratégia de "barbell", que combina ativos mais defensivos e de menor duração com ações que podem se beneficiar deuma eventual queda dos juros. Entre os setores analisados como "bond proxies", ou seja, empresas com fluxos de caixa considerados mais previsíveis, estão utilities, transportes, shoppings e telecomunicações.“A incerteza em torno das eleições no Brasil, da guerra no Irã e das taxas dos EUA não deixa um caminho claro para a curva de rendimentos do BZ [Brasil]”, afirmam os analistas do banco de investimentos.
Segundo o BofA, algumas dessas ações podem funcionar como alternativas defensivas justamente por serem menos sensíveis ao desfecho desses eventos.
Elétricas entre as preferidas
No setor de serviços públicos, o BofA afirma manter a estratégia de “barbell” diante da maior incerteza sobre as taxas. AAxia (AXIA3) é uma das preferências do banco no lado defensivo, com (Taxa Interna de Retorno) TIR real de 10% e rendimento médio de 11% a 12% até 2029, segundo o relatório.
Os analistas destacam ainda que a empresa incorpora apenas R$ 185/MWh nos preços de energia de longo prazo, abaixo da curva de R$ 250 a R$ 260/MWh considerada pelo banco.
A Isa Energia (ISAE4) também aparece entre as escolhas defensivas. O BofA estima TIR real de 11% para a companhia e destaca que a empresa tem transmissão totalmente indexada à inflação. Outro ponto citado é a possibilidade de ganhos com a renegociação com a Sefaz, que poderia representar entre 7% e 17% de valor presente líquido, além de investimentos em projetos brownfield.
Para a Equatorial (EQTL3), a lógica é diferente. A companhia é apontada como a principal escolha do banco no segmento de maior duração, justamente por poder se beneficiar de uma eventual compressão da curva de juros.
“A EQTL continua sendo nossa principal escolha para aproveitar a compressão da curva que se aproxima”, afirmam os analistas. Segundo o relatório, a empresa tem duração de fluxo de caixa de aproximadamente 12 anos e TIR real de 13%.
Rodovias podem ganhar com queda dos juros
No setor de transportes, o BofA prefere as concessionárias de rodovias com pedágio em detrimento da Rumo, citando avaliações mais atraentes e potenciais catalisadores, especialmente para a Motiva.
AMotiva (MOTV3) é classificada pelo banco como um ativo defensivo, com TIR real de 12,5%. A empresa também poderia se beneficiar de possíveis alterações contratuais nas concessões, segundo o relatório.
Já a Ecorodovias (ECOR3) aparece como uma das ações que podem se destacar em um cenário de queda mais rápida ou mais intensa dos juros. O BofA estima TIR real de 19% para a companhia. “A Ecorodovias parece atraente para investidores otimistas em relação a cortes nas taxas de juros mais rápidos ou maiores do que o esperado”, afirmam os analistas.
ARumo (RAIL3), por outro lado, apresenta TIR de 10,3%, mas o potencial de alta depende de uma recuperação do ciclo de grãos. O banco afirma que o momento dessa virada ainda é incerto, em meio às preocupações de curto prazo com o aumento dos investimentos.
Shoppings têm menor atratividade
Embora também façam parte do universo de “bond proxies”, os shoppings são vistos com mais cautela pelo BofA. O banco americano afirma que a atratividade das TIRs do setor é limitada em comparação com outros ativos semelhantes.
A avaliação ocorre apesar da previsibilidade dos lucros das empresas, inclusive diante de uma possível agravamento do conflito no Estreito de Ormuz e das eleições brasileiras.
Os resultados do segundo trimestre de 2026 reforçaram essa postura mais cautelosa. Segundo o relatório, apesar de os números financeiros continuarem sólidos, as tendências de vendas vêm se deteriorando.
“Há espaço limitado para uma reavaliação significativa das operadoras de shoppings”, afirmam os analistas.
Entre as empresas do segmento, Allos é apontada como a principal escolha do BofA em termos de relação risco-retorno. A companhia é negociada a 9 vezes o P/FFO estimado para 2027 e apresenta rendimento de dividendos projetado de 13% para o mesmo ano.
Telecom ainda não convence
O BofA também mantém uma postura cautelosa em relação aVivo (VIVT3) e TIM (TIMS3). Apesar da recente correção das ações, provocada por um ambiente competitivo mais acirrado, o banco considera que as avaliações continuam exigentes. As TIRs implícitas são de 8,8% para a Vivo e 9,2% para a TIM, ante 7% alguns meses atrás.
Por outro lado, os múltiplos EV/Ebitda próximos de 4 vezes podem representar um piso para investidores estrangeiros, desde que não ocorram novas revisões negativas nas estimativas de lucro.
