Em 20 dias, gaúchos param tudo para comer 60 toneladas de carne em festa que movimenta R$ 70 milhões
Durante setembro, 236 piquetes ocupam o Parque Harmonia, em Porto Alegre, para celebrar a cultura gaúcha; evento atrai grandes marcas e emprega mais de 5 mil profissionais

Todos os anos, quando setembro chega ao Rio Grande do Sul, centenas de grupos constroem pequenas casas e galpões de madeira em um parque no centro de Porto Alegre. Dentro das estruturas improvisadas, instalam churrasqueiras, levam mesas, bancos, bandeiras, cuias, utensílios e passam boa parte das semanas seguintes por ali.
São os chamados piquetes, estruturas montadas por grupos ligados à cultura tradicionalista gaúcha, que funcionam como uma espécie de segunda casa durante os festejos farroupilhas.
Em 2026, há 236 deles espalhados pelo Parque Harmonia em uma área de 75 mil metros quadrados. A expectativa da prefeitura é que mais de 2 milhões de pessoas passem pelo local até 20 de setembro. A programação reúne ainda mais de 120 atrações culturais gratuitas.
Mas o que durante décadas foi associado principalmente a churrasco, chimarrão, música regional e chão de terra também se tornou um negóciorelevante para Porto Alegre.
Segundo dados da concessionária GAM3 Parks, responsável pela administração do Harmonia, o Acampamento Farroupilha movimentou R$ 70 milhões em 2025. Nos anos anteriores, foram: R$ 50 milhões em 2022, R$ 55 milhões em 2023 e R$ 56 milhões. Em 2024, ano em que a enchente que atingiu Porto Alegre, desacelerou o crescimento do evento.
De 2024 para 2025, portanto, o evento voltou a crescer com tudo e a movimentação estimada saltou 25%. Para a edição deste ano, a concessionária trabalha com uma expectativa de expansão de 10%. Se esse ritmo for alcançado em 2026, o evento poderá chegar perto de R$ 77 milhões.
Ao todo, mais de 5 mil profissionais estão envolvidos na operação. Há mais de 150 atividades entre gastronomia, artesanato, agricultura familiar, operações permanentes do parque e outras iniciativas. Só as operações comerciais temporárias somam 50, segundo a Secretaria Municipal da Cultura.
E há outro número que ajuda a dimensionar a festa: a pasta estima consumo superior a 60 toneladas de carne durante o período.
Como nasceu uma cidade de piquetes
O Acampamento Farroupilha é uma consequência de uma relação que os gaúchos construíram com setembro, mês em que se celebra a Revolução Farroupilha, conflito iniciado em 1835 e que se estendeu por quase dez anos.
O 20 de setembro, data do início da revolta, tornou-se feriado estadual e uma das principais referências simbólicas da cultura rio-grandense.
Em Porto Alegre, a tradição de ocupar o Harmonia começou antes de existir um evento organizado. Segundo o histórico da prefeitura, entre 1981 e 1983 grupos de amigos e piquetes já utilizavam a área como pousada e ponto de concentração antes do desfile de 20 de setembro.
Os encontros envolviam cavalgadas, música, bebidas e confraternizações nos finais de semana. O primeiro Acampamento Farroupilha formal foi organizado em 1987, reunindo Centros de Tradições Gaúchas, os CTGs, e piquetes.
Para quem não conhece o vocabulário tradicionalista, os CTGs são entidades dedicadas à preservação e à promoção de costumes, danças, música e outras manifestações da cultura gaúcha. Os piquetes são grupos menores e mais localizados.
Durante o Acampamento, porém, a palavra ganha também uma dimensão física. Cada grupo ergue seu próprio galpão temporário, onde recebe familiares, amigos e visitantes, prepara comida e desenvolve atividades culturais.
É por isso que a área acaba funcionando quase como uma pequena cidade temporária dentro da capital. Sebastião Melo, prefeito de Porto Alegre, prefere inclusive ampliar a definição.
“Eu não chamaria mais de Festa Farroupilha. Eu chamaria de mês Farroupilha”, afirma. “Ela tem cultura, tem tradição, tem gastronomia, tem turismo, tem comércio, tem economia.”
Uma cidade dentro do parque: estruturas temporárias ocupam 75 mil metros quadrados do Harmonia durante os festejos de setembro (GAM3 Parks/Divulgação)
Como a lama deu lugar ao piso
Por muitos anos, frequentar o Acampamento significava também aceitar uma característica pouco glamourosa do evento: quando chovia, havia barro.
A transformação do Parque Harmonia nos últimos anos alterou essa experiência.
A GAM3 Parks assumiu a concessão do espaço e passou a investir em infraestrutura. Segundo Carla Deboni, arquiteta e diretora da empresa, aproximadamente R$ 50 milhões já foram aplicados diretamente no parque, com pelo menos outros R$ 200 milhões previstos para etapas futuras.
Entre as intervenções estão sistema de drenagem, estações de bombeamento de esgoto, rede elétrica subterrânea, iluminação, reservatórios de água, pavimentação de acessos e estacionamentos, paisagismo e novas estruturas de apoio.
A concessionária afirma ter plantado mais de 600 novas espécies vegetais e também implantado sanitários, bebedouros, áreas administrativas e espaços permanentes de comércio. Parte dessas mudanças aparece justamente nos dias de chuva.
“Preparou-se o parque para isso. Choveu a noite toda, você vai ao parque agora e o parque está seco”, diz Carla. Para ela, muitas dessas melhorias são percebidas pelo visitante antes mesmo de serem identificadas individualmente.
O processo ajudou a diminuir a imagem do acampamento exclusivamente “pé na lama”, ainda que exista entre frequentadores antigos uma memória afetiva da versão mais improvisada da festa.
A essência dos piquetes, no entanto, permaneceu. A concessão não eliminou os espaços destinados aos acampados, e a GAM3 Parks afirma que não interfere na programação cultural.
“A concessionária não entra na parte da cultura. Essa parte do acampamento é o palco dos acampados”, diz Carla. O papel da empresa, segundo ela, é principalmente de gestão e infraestrutura.
O que o mês Farroupilha movimenta fora do parque
Os efeitos também escapam dos limites do Harmonia. Patrícia Palermo, economista da Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado do Rio Grande do Sul (Fecomércio-RS), lembra que setembro não costuma estar entre os períodos de maior atividade do varejo.
A cultura tradicionalista cria, porém, seus próprios nichos de consumo. “Essa época do ano é o Natal de quem vende trajes típicos gaúchos”, afirma.
Bombachas, botas, vestidos, lenços, chapéus e outros itens ligados à indumentária tradicional ganham demanda concentrada justamente no período dos festejos. E o fenômeno não fica restrito a Porto Alegre: diferentes municípios gaúchos promovem celebrações semelhantes durante setembro.
Restaurantes, mercados e estabelecimentos próximos aos locais de concentração também podem sentir o aumento do fluxo. Patrícia faz, contudo, uma ressalva importante. Parte desse efeito é consequência da própria reunião de milhões de pessoas em uma mesma região, independentemente da natureza do evento.
Para a economista, o ponto central para os próximos anos está na capacidade de ampliar o público sem descaracterizar a experiência.
“A infraestrutura é algo que atrai pessoas. Se a gente vai num ano e tem uma experiência ruim, é muito difícil voltar. Mas, se a experiência é boa, cada vez mais a gente vai trazendo gente”, afirma.
Por que as grandes marcas foram parar no acampamento
A profissionalização também tornou o evento mais atraente para empresas. Neste ano, a lista de patrocinadores inclui Petrobras, Brahma, Pepsi, Caixa, CEEE, Claro, 3 Corações, Droga Raia, Tintas Renner, Cachaça 51, Nacional Gás, 99 e Bauducco.
A lógica deixou de ser simplesmente colocar um logotipo na entrada. Carla afirma que as empresas procuram experiências capazes de aproximá-las diretamente do consumidor. A 99, por exemplo, renovou por mais três anos sua parceria com a concessionária e já realizou shows-surpresa no espaço. A Droga Raia participa pelo terceiro ano e monta uma estrutura com serviços e ativações para o público.
O parque também renovou contrato com a Ambev por cinco anos. A singularidade está justamente no contexto em que essas ações acontecem.
Ao contrário de uma feira de negócios construída em torno de uma atividade comercial, o Acampamento nasceu primeiro como manifestação cultural. As marcas chegaram depois.
“Ali você tem um objetivo comercial, é óbvio que tem todo esse comércio e todos esses números por trás do Acampamento Farroupilha, mas o objetivo desse evento é cultural”, afirma Carla. “É aí que a marca quer entrar na experiência, no coração, no sentimento, na memória afetiva.”
Carla Deboni, arquiteta e diretora da GAM3 Parks: “O objetivo do Acampamento Farroupilha é cultural, e é aí que a marca quer entrar na experiência” (GAM3 Parks/Divulgação)
Até onde o Acampamento pode crescer
A combinação de infraestrutura, cultura e grandes públicos também mudou a função do próprio Parque Harmonia. Segundo a GAM3 Parks, existem hoje 11 operações permanentes no local. O espaço passou ainda a receber corridas, eventos esportivos e shows para públicos de 20 mil a 40 mil pessoas.
No Acampamento, entretanto, permanece a tentativa de equilibrar dois mundos. De um lado estão os grupos que constroem seus próprios galpões, assam carne durante horas, tocam gaita e repetem um ritual que começou muito antes de grandes empresas enxergarem valor comercial naquele terreno.
Do outro, há um parque pavimentado, monitorado, acessível e preparado para receber marcas nacionais, operações comerciais e milhões de visitantes.
É justamente essa convivência que explica parte da transformação.
O Acampamento de hoje tem menos lama que o de décadas atrás e muito mais dinheiro circulando. Mas, quando chega setembro, seus ocupantes continuam fazendo algo essencialmente parecido com aquilo que alguns grupos começaram a fazer no Harmonia no início dos anos 1980: montar um lugar para ficar, acender o fogo e reunir gente ao redor dele.
