Em primeiro balanço após IPO, PicPay tem lucro dobrado e queda de rentabilidade

O PicPay encerrou o primeiro trimestre de 2026 com lucro líquido ajustado de R$ 169 milhões, alta de 92% em relação ao mesmo período do ano passado. Esse foi o primeiro balanço da companhia após a listagem na Nasdaq, em 29 de janeiro deste ano. Na ocasião, o PicPay quebrou um jejum de estreias de empresas brasileiras em bolsa que durou mais de quatro anos. Na operação, a companhia captou US$ 434 milhões.
A receita total da empresa atingiu R$ 3,5 bilhões no trimestre, crescimento de 70% na comparação anual. O avanço é explicado pela expansão acelerada da carteira de crédito, que mais que dobrou em 12 meses, passando de R$ 13 bilhões para R$ 28 bilhões. A diversificação das fontes de receita também contribuiu com o resultado: 69% dos ingressos da companhia agora vêm de produtos com risco de crédito nulo ou baixo, como tarifas, comissões de seguros e a remuneração do dinheiro depositado pelos clientes na carteira digital (float).
O crescimento da carteira de crédito foi puxado principalmente pelos empréstimos consignados privados, lançado em abril de 2025, e que respondeu por 60% do incremento trimestral do portfólio, adicionando R$ 2,1 bilhões em um único trimestre.
Ao final de março, 54% da carteira total era composta por crédito com alguma forma de garantia, ante 42% um ano antes, indicativo de que a empresa está migrando para um perfil de risco mais controlado.
A monetização por usuário também evoluiu de forma relevante. O ARPAC — indicador que mede a receita média por cliente ativo — chegou a R$ 80,7 no trimestre, alta de 55% em 12 meses. O custo para atender cada cliente ficou em R$ 20,3, o que significa que o PicPay gerou quatro vezes mais receita por usuário do que gastou para servi-lo.
IPO teve efeito sobre rentabilidade
Apesar dos resultados operacionais positivos, a rentabilidade medida pelo ROE (retorno sobre o patrimônio líquido), o indicador que aponta quanto a empresa gera de lucro para cada real investido pelos acionistas, recuou de 24,4% no quarto trimestre de 2025 para 15,5% nos três primeiros meses deste ano.
Com a abertura de capital na bolsa, o PicPay injetou R$ 2 bilhões no patrimônio da empresa. Esse capital amplia a base do cálculo do ROE. O patrimônio cresceu de forma abrupta, mas a evolução do lucro não acompanhou. A própria companhia reconhece o efeito e projeta que o ROE retorne a patamares acima de 20% nos próximos trimestres, à medida que os recursos captados no IPO sejam direcionados para o crescimento do crédito.
Provisões sobem com a carteira, inadimplência avança
O crescimento acelerado do portfólio trouxe consigo aumento expressivo nas despesas de provisão para crédito de liquidação duvidosa, que somaram R$ 974 milhões no trimestre, alta de 103% em relação ao mesmo período de 2025. Essas provisões são reservas contábeis constituídas preventivamente para cobrir eventuais perdas com calotes. E quanto maior a carteira, maior o valor necessário para manter a cobertura adequada.
A inadimplência acima de 90 dias avançou de 7,2% no quarto trimestre de 2025 para 8,9% no primeiro trimestre deste ano. O movimento é explicado pelo ciclo natural de maturação de uma carteira em expansão acelerada. Créditos recém-originados entram no balanço como adimplentes e só podem se tornar inadimplentes após pelo menos três meses.
Com o PicPay triplicando sua carteira em dois anos, uma parcela crescente desses contratos vai completando seu ciclo e, naturalmente, uma fração deles começa a atrasar. O fenômeno não indica necessariamente piora na qualidade do que está sendo originado hoje, mas reflete o envelhecimento das safras anteriores.
O indicador que a própria empresa utiliza para avaliar a saúde da carteira vai na direção contrária ao NPL. A formação de stage 3 — contratos que passam a ser classificados como em risco elevado de perda — recuou de 7,1% no quarto trimestre de 2025 para 3,9% no primeiro trimestre de 2026.
Enquanto o NPL fotografa o estoque acumulado de inadimplência, o stage 3 captura o que está entrando em dificuldade agora. A queda sugere que as safras alcançando maturidade agora estão performando melhor que as anteriores. Isso tende a pressionar o NPL para baixo nos próximos trimestres, conforme novos contratos ganhem peso na carteira.
Para o segundo trimestre, o PicPay projeta crescimento de 11% na carteira de crédito, receita gerencial de R$ 3,6 bilhões e lucro líquido ajustado de R$ 245 milhões.
