Em seu primeiro ano, esta agência fará R$ 5 milhões ao trocar 'tiro de canhão' por creators de nicho

Para a empresária Audrey Rimi escolher um influenciador apenas pelo número de seguidores pode ser o equivalente publicitário a disparar um tiro de canhão: produz barulho, alcança muita gente, mas nem sempre acerta o consumidor que a marca pretende conquistar.
É esta lógica que Audrey, aos 32 anos, tenta inverter à frente da BuzzClub. Criada em abril de 2025, em São Paulo, a agência usa uma plataforma própria de inteligência artificial para cruzar informações de mais de 10 mil creators. Depois, acrescenta ao resultado uma camada que o algoritmo ainda não entrega sozinho: a análise humana de comportamento, repertório cultural e afinidade real entre o influenciador e a marca.
A combinação ajudou a BuzzClub a encerrar 2025 com faturamento de R$ 1 milhão, embora a empresa tenha surgido somente na metade do ano passado. Para 2026, a projeção é alcançar R$ 5 milhões. Mais de 100 projetos já foram desenvolvidos para clientes como Coca-Cola FEMSA, Schweppes, Xandô, Cerpa, Netshoes, Asics, Brastemp e Alta Diagnósticos.
“Ainteligência artificial organiza as informações e faz a avaliação numérica das métricas. O nosso trabalho, porém, é feito de humanos para humanos. É impossível retirar o olhar humano da narrativa”, afirma Rimi.
A ferramenta reúne dados como faixa de cachê, engajamento, histórico de campanhas e desempenho dos creators. Atividades que poderiam consumir semanas de preenchimento e análise de planilhas, segundo a empresária, passaram a ser concluídas em 34 minutos. O tempo economizado é direcionado à pesquisa qualitativa.
“Em vez de o time ficar preenchendo planilhas, ele consegue pesquisar os comportamentos de cada região e entender quem são os influenciadores reais daquele lugar: o que fazem, consomem, comem, vestem e aonde vão”, diz.
Dados orientam, mas não dão a resposta completa
O mercado já oferece diferentes plataformas de análise de influenciadores, geralmente abastecidas com dados fornecidos pelas próprias redes sociais por meio de APIs (Application Programming Interfaces, ou Interfaces de Programação de Aplicações). A avaliação da BuzzClub é que essas ferramentas ajudam a dimensionar audiência e engajamento, mas não necessariamente capturam as particularidades culturais do mercado brasileiro.
Para reduzir essa lacuna, a agência passou a construir um histórico próprio de campanhas e creators. A base é atualizada diariamente pela equipe e registra não apenas métricas, mas informações sobre comportamento, tendências, jornalistas, comunidades e aprendizados acumulados em projetos anteriores.
Segundo Rimi, métricas fornecidas por ferramentas externas podem apresentar variações relevantes. “Às vezes, existe uma taxa de erro de 30%. Em uma campanha, 30% faz muita diferença”, afirma.
A proposta da plataforma própria é acompanhar os resultados reais de cada ação e permitir que o conhecimento permaneça na agência, mesmo depois do encerramento de um projeto.
A tecnologia foi desenvolvida com o apoio de ferramentas como Claudee Lovable. Por enquanto, funciona internamente, mas a próxima etapa será abrir parte do sistema aos clientes. A ideia é permitir que as empresas acompanhem, em um único ambiente, o andamento das campanhas e os resultados obtidos.
Quando o influenciador menor pode vender mais
A base de dados também sustenta outra aposta da BuzzClub: grandes influenciadores nem sempre entregam o melhor resultado.
Rimi ressalta que celebridades e creators de grande alcance continuam relevantes para campanhas cujo objetivo seja gerar conhecimento de marca e repercussão. Quando a meta é estimular uma ação específica — como um clique, um cadastro ou uma venda —, no entanto, os influenciadores de nicho podem apresentar desempenho superior.
Há creators especializados em assuntos que vão de produtos de limpeza e alimentação sem lactose a veganismo, maquiagem e cuidados com a pele. A audiência é menor, mas costuma procurar aquele perfil por reconhecer nele conhecimento ou familiaridade com o assunto.
“Quando falamos de conversão, percebemos uma performance muito mais interessante entre os microinfluenciadores do que entre os macroinfluenciadores”, afirma Rimi. Para a publicitária, os grandes nomes ajudam a ampliar a exposição, enquanto os menores podem oferecer uma relação de maior proximidade e confiança com a audiência.
Esse movimento ganhou uma nova camada com o avanço de plataformas de comércio integrado às redes sociais. Rimi cita o surgimento dos “influenciadores vendedores”, que produzem avaliações e demonstrações de produtos comercializados por ferramentas como o TikTok Shop.
Os creators menores também teriam mais liberdade para testar formatos e mostrar situações cotidianas. Já os influenciadores que construíram imagens muito rígidas podem encontrar dificuldades para incorporar temas ou produtos que destoem da própria identidade.
“O macroinfluenciador constrói uma imagem e uma audiência que às vezes enrijecem aquele perfil. O microinfluenciador consegue mostrar a vida real com mais tranquilidade, o que gera maior veracidade”.
A curadoria busca enfrentar uma contradição do próprio marketing de influência: ao mesmo tempo que os creators afetam as decisões de compra, a presença de uma publicidade pode gerar dúvidas sobre a sinceridade da recomendação.
“Existe um impacto muito grande na decisão de consumo, mas também uma desconfiança sobre se aquela avaliação é verdadeira. É por isso que a curadoria precisa fazer sentido para o estilo de vida e para quem aquele influenciador realmente é”, afirma.
De vendedora de sapatos a dona de agência
A trajetória profissional de Rimi começou antes da publicidade. Aos 15 anos, trabalhou como vendedora de sapatos e depois foi jovem aprendiz na diretoria comercial da American Airlines.
Em 2014, ingressou no curso de relações públicas da Faculdade Cásper Líbero. Passou pela ADS, assessoria de comunicação corporativa, e depois pela Tastemakers Brasil, onde trabalhou com marcas como Nike, Heineken, Mondelez, Grendene, Unilever e Grupo Campari.
Foi ali que acompanhou o início da transformação que daria origem à atual economia dos creators. Naquele momento, revistas, jornalistas e celebridades ainda concentravam grande parte do poder de influência das campanhas.
Dentro da Tastemakers, ganhou dos donos o apelido de “estagiária CEO”, por cobrar diferentes áreas — inclusive a direção — para assegurar a entrega dos projetos.
Em 2019, deixou as agências para assumir a área de marketing da Vittude, startup de saúde mental. A experiência permitiu que se aprofundasse em mídia paga, SEO, planejamento e formação de equipes. Pouco depois, concluiu que preferia trabalhar do lado criativo da relação entre empresas e consumidores e retornou ao mercado de agências.
Durante a pandemia, abriu a Solve, consultoria inicialmente voltada a influência e redes sociais. O negócio avançou posteriormente para clientes corporativos e realizou projetos para marcas como Bimbo, Toddy, Fila, Brastemp e Tinder.
No fim de 2024, Rimi decidiu encerrar aquele ciclo e criar uma nova estrutura. A BuzzClub nasceu com o objetivo de deixar de atuar apenas como uma intermediária entre marcas e influenciadores.
“Antes, a marca ficava de um lado e o influenciador do outro. Muitas vezes, um não sabia exatamente o que o outro estava fazendo e aquela relação se perdia ao longo do tempo”, afirma. A agência foi dividida em núcleos de influência, conteúdo, relações públicas, redes sociais e experiências de marca, que podem atuar separadamente ou em conjunto.
Quais serão os próximos passos da BuzzClub
A BuzzClub mantém escritório em São Paulo e profissionais no Rio de Janeiro, além de parceiros em cidades como Belo Horizonte, Florianópolis e Porto Alegre. A estrutura tem 20 funcionários internos e uma rede externa de 10 a 15 profissionais, mobilizada de acordo com cada projeto.
O próximo movimento será ampliar o mapeamento regional. A plataforma já reúne creators dos 26 estados e a intenção é aprofundar a leitura sobre hábitos e comunidades locais.
A expansão internacional também está nos planos. A agência pretende acompanhar marcas brasileiras que estão entrando em outros mercados e explorar uma vantagem que Rimi acredita possuir: a compreensão dos códigos culturais e do modo brasileiro de produzir campanhas.
Mesmo com o crescimento, a empresária diz que pretende preservar a estrutura de agência boutique, organizada em pequenos núcleos capazes de acompanhar de perto o negócio de cada cliente.
“O Brasil é muito grande e plural. Precisamos trabalhar cada região estrategicamente para que as marcas tenham resultado”, afirma. “Não importa o número de funcionários. Para entregar resultado, precisamos estar muito dentro do negócio do cliente.”
