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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
03/09/2026
6 min

Embraer aposta em fusão para criar gigante brasileira de cibersegurança de R$ 700 milhões

Vision e Tempest vão combinar as operações em uma transação principalmente por troca de ações

Embraer aposta em fusão para criar gigante brasileira de cibersegurança de R$ 700 milhões

A gigante nacional Embraer, fabricante brasileira de aeronaves, e a SPX Capital, uma das maiores gestoras de investimentos do país, estão unindo seus negócios de cibersegurança para criar uma empresa com mais de R$ 700 milhões em receita anual.

A operação combina a Tempest Security Intelligence, hoje controlada pela Embraer, com a Vision Cybersecurity, empresa controlada pela SPX.

Juntas, elas terão cerca de 900 profissionais e mais de 600 clientes corporativos.

O negócio ainda depende de aprovações regulatórias, incluindo a do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A fusão acontece enquanto as duas empresas tentam ganhar escala em um mercado pressionado por uma nova onda de ataques e pelo avanço da inteligência artificial.

A tese é cruzar clientes, reunir dados sobre ameaças e combinar tecnologias desenvolvidas pelas duas companhias para aumentar a receita no Brasil e abrir caminho para uma expansão internacional.

“Qualquer visão econômica de sinergia, como se fala muito em fusão e aquisição, não é o caminho. O ganho econômico está justamente no processo de complementariedade, em expandir mercados e competir globalmente”, afirma André Fleury, CEO da Vision Cybersecurity.

Se a operação for aprovada, Fleury assumirá como CEO do grupo combinado. João Lins, atual CEO da Tempest, será vice-presidente de Tecnologia e Inovação.

As marcas serão mantidas inicialmente, assim como as operações em Vitória, Recife e São Paulo.

O plano é usar a nova escala para disputar clientes com multinacionais no Brasil e levar a tecnologia das empresas para outros mercados.

Quais são as histórias das empresas

A lógica da fusão começa pelas diferenças entre Vision e Tempest.

A Tempest tem 26 anos de mercado e concentra sua atuação em grandes empresas. A carteira inclui negócios dos setores financeiro, de saúde, energia e varejo.

A companhia presta serviços de consultoria, segurança ofensiva, prevenção, resposta a incidentes e monitoramento, além de desenvolver plataformas próprias.

“Como são grandes clientes, a gente tem um serviço mais customizado para atender à necessidade deles”, afirma Lins.

A Vision é uma marca criada em 2026, mas sua operação vem da ISH Tecnologia, empresa de cibersegurança fundada em Vitória há cerca de 30 anos. A SPX investiu na companhia e criou a nova marca como parte de sua estratégia para o setor.

A Vision atua em uma faixa diferente do mercado. Seu foco são empresas de médio e grande porte, abaixo do grupo das maiores corporações atendidas pela Tempest. Nesse segmento, desenvolveu ferramentas para automatizar parte dos serviços e atender um número maior de clientes.

É justamente essa diferença que as empresas pretendem explorar.

Segundo Fleury, há pouca sobreposição entre as carteiras de clientes. Isso abre espaço para cross-sell, a venda de produtos e serviços adicionais para uma empresa que já é cliente do grupo.

“Esses clientes, talvez com uma ou outra exceção, não são os mesmos. Então tem uma complementariedade muito grande”, afirma Fleury.

A Vision poderá oferecer suas soluções para grandes empresas atendidas pela Tempest. No sentido contrário, produtos e serviços da Tempest poderão chegar à base de clientes da Vision.

Hoje, boa parte da receita das duas companhias já vem de contratos recorrentes. Por isso, a aposta não depende apenas de conquistar novas empresas, mas também de aumentar o número de serviços vendidos para uma carteira já existente.

Qual é a estratégia com a fusão

A segunda peça da operação está na tecnologia.

A Tempest acumulouinformações sobre ataques e ameaças enfrentados por algumas das maiores empresas do país. A Vision, por sua vez, desenvolveu uma plataforma focada em automação e escala.

As empresas querem colocar essas duas bases no mesmo sistema.

A ideia é usar os dados da Tempest para alimentar modelos de inteligência artificial e automatizar respostas por meio da plataforma da Vision.

O objetivo é avançar no que as companhias chamam de segurança preemptiva, modelo que busca identificar sinais e neutralizar uma ameaça antes que ela se transforme em um incidente de segurança.

“É basicamente a gente conseguir antecipar o ataque, evitar que ele aconteça antes mesmo de uma determinada tentativa. A Tempest consegue trazer o que está acontecendo no mercado e quais são os sinais de ataques, e a Vision consegue implementar isso com escala e automação”, afirma Lins.

A diferença entre os clientes das duas companhias também pode aumentar a quantidade de informações disponíveis para esses sistemas.

Os tipos de ataque enfrentados por um grande banco, por exemplo, podem ser diferentes daqueles direcionados a uma empresa de médio porte. Reunir informações dos dois grupos amplia a base usada para identificar padrões.

E as oportunidades no setor

A inteligência artificial aparece dos dois lados da tese.

Ela pode ajudar empresas de cibersegurança a analisar mais dados, identificar comportamentos fora do padrão e responder a ataques em uma velocidade que seria difícil alcançar apenas com equipes humanas.

Mas as mesmas ferramentas também podem ampliar a capacidade dos invasores nas empresas que são clientes da Vision.

Para Fleury, esse processo repete ciclos anteriores da indústria de tecnologia. A internet aumentou a quantidade de sistemas conectados. Depois vieram smartphones, computação em nuvem e a digitalização de uma parcela maior das operações das empresas.

Cada mudança criou novos pontos de entrada para ataques.

“A cada onda de tecnologia, a gente está ampliando a superfície de exposição ou a superfície de ataque. Se os investimentos em tecnologia não estiverem casados com investimentos proporcionais em segurança, você está criando fragilidade e aumentando o risco das empresas”, afirma Fleury.

O executivo afirma que houve uma onda de aumento dos investimentos em cibersegurança entre 2014 e 2016, durante o avanço dos projetos de transformação digital nas empresas.

Agora, a expectativa das companhias é que a inteligência artificial provoque um novo ciclo.

Para Vision e Tempest, a oportunidade será transformar esse aumento da preocupação com ataques em novos contratos sem perder velocidade à medida que a carteira cresce.

Como será a fusão

A integração segue uma lógica diferente de muitas operações de fusões e aquisições.

Os executivos afirmam que o principal ganho esperado não está em reduzir equipes, fechar escritórios ou eliminar estruturas duplicadas. A aposta está no crescimento das vendas.

“Mais do que qualquer sinergia financeira, que não é o objetivo, essa sinergia entre as pessoas, essa troca entre as pessoas, é fundamental. Um time aprendendo com o outro”, afirma Fleury.

O longo prazo mira o exterior.

A Tempest já possui uma plataforma disponível em português, inglês e espanhol. A combinação com as ferramentas de automação da Vision deve servir como ponto de partida para atender clientes fora do país.

Fleury também coloca a expansão internacional entre os objetivos do negócio.

“Estamos prontos para competir nesse mercado nacional, mas também para expandir para mercados globais”, afirma Fleury.

O acordo foi estruturado prioritariamente por meio de uma troca de ações. Depois da conclusão, a fabricante de aeronaves será uma acionista relevante do grupo, enquanto a SPX Capital permanecerá como maior acionista e controladora.

A Embraer também continuará como cliente da empresa combinada.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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