Embraer mira mais vendas na África com novas rotas e aviões cargueiros, diz diretor
Hussein Dabbas, diretor-geral de Relações Institucionais da Embraer para África e Oriente Médio, afirma que continente tem menos de 6% do tráfego aéreo mundial e vê espaço para ampliar conexões entre cidades

De Lusaca, Zâmbia* - A Embraer vê a baixa conectividade aérea entre cidades africanas como uma oportunidade para ampliar sua presença no continente, tanto na aviação comercial quanto no transporte de cargas.
“Do tráfego total mundial, a África tem menos de 6% de participação de mercado, o que significa que existe muito espaço para melhorar”, afirma Hussein Dabbas, diretor-geral de Relações Institucionais da Embraer para África e Oriente Médio, em entrevista à EXAME durante missão da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) na Zâmbia.
Antes de participar da agenda no país, o diretor também esteve na África do Sul, país que negocia compra de aviões militares da empresa.
Segundo Dabbas, o aumento da renda per capita e a população de mais de 1,2 bilhão de habitantes sustentam a perspectiva de expansão do transporte aéreo no continente. A falta de ligações entre cidades, porém, ainda obriga passageiros a fazer conexões fora da África em determinados trajetos. O executivo cita casos em que é necessário passar por Paris ou Dubai para viajar entre duas cidades africanas.
Em junho, a empresa afirmou que a demanda na África para a empresa pode chegar a 600 aeronaves.
A Embraer também vê oportunidade no transporte aéreo de cargas. A Embraer começou há cerca de dois anos a converter aeronaves da primeira geração dos E-Jets, especialmente o E190, em cargueiros com capacidade para até 13 toneladas.
"Com os novos cargueiros da Embraer, eles podem ser utilizados de uma maneira muito mais eficiente, porque as redes rodoviária e ferroviária na África são limitadas", diz.
Confira os principais trechos da entrevista.
Como a Embraer enxerga o potencial do mercado africano?
A África é um dos maiores continentes do mundo. Tem mais de 1,2 bilhão de habitantes. Mesmo assim, as viagens dentro da África ainda são muito limitadas. Do tráfego total mundial, a África tem menos de 6% de participação de mercado, o que significa que existe muito espaço para melhorar. Estamos vendo agora que o continente africano é o mercado de maior crescimento do mundo, porque há uma população grande e a renda per capita está melhorando, então as pessoas podem viajar.
O que ainda limita esse crescimento?
Ainda existe uma falta de conectividade entre as cidades africanas. Em muitos casos, você ainda precisa, digamos, passar por Paris para ir de uma cidade africana para outra. Ou você passa por Dubai para ir de uma cidade a outra. Embora provavelmente existam conexões entre as principais cidades, elas não são regulares, não são diárias ou não têm dois voos por dia, que é como deveria ser.
Onde as aeronaves da Embraer entram nessa estratégia?
A Embraer tem a aeronave do tamanho certo para muitos mercados na África. O que quero dizer com isso é que podemos apoiar as companhias aéreas para voar entre cidades pequenas e cidades pequenas, entre cidades pequenas e cidades grandes e entre cidades grandes e cidades grandes. Mas a vantagem de voar com um avião da Embraer, por causa do tamanho, é que você pode operar mais de uma vez por dia. Até agora, muitas das companhias aéreas africanas voam duas, três ou quatro vezes por semana.
Por que aumentar a frequência dos voos é importante?
No mercado mundial de aviação comercial, se você não voa diariamente, você não conta. Porque as pessoas querem voar quando elas querem voar, e não quando a companhia aérea decide voar. Então, se elas não conseguem encontrar um voo naquela companhia aérea, elas vão procurar outras companhias também. Ter um avião da Embraer voando entre essas cidades e voar com uma aeronave do tamanho certo ajuda as companhias aéreas a gerar receitas, obter lucros e aumentar sua participação de mercado.
A abertura de novas rotas é suficiente para desenvolver esses mercados?
É muito claro que a oferta cria demanda. Você coloca rotas, abre rotas, e as pessoas começam a utilizá-las. Talvez não imediatamente, mas, com o tempo, você desenvolve aquele mercado. É isso que estamos fazendo aqui no continente africano. Nós vamos até as companhias aéreas, nos reunimos com elas e as ajudamos a desenvolver estratégias de frota, estratégias de marketing e assim por diante. E é assim que chegamos à venda de aviões para elas, aviões que têm o tamanho certo, e buscamos garantir que elas tenham lucro com essas aeronaves.
Além da aviação comercial, quais outras oportunidades de negócio a Embraer enxerga na África?
Nós começamos a pegar de volta alguns dos aviões mais antigos da Embraer, os aviões E1, especialmente os 190, e a convertê-los em cargueiros. Isso se tornou muito importante porque esses aviões podem transportar até 13 toneladas. Se você tem os cargueiros maiores, eles transportam 30, 40 toneladas, então não é econômico para eles voarem com uma carga menor.
Por que esse tipo de aeronave pode funcionar no mercado africano?
Com os novos cargueiros da Embraer, eles podem ser utilizados de uma maneira muito mais eficiente, porque as redes rodoviária e ferroviária na África são limitadas. Elas são fortes em algumas regiões, mas limitadas em outras. Por causa do enorme tamanho do continente e da falta de, digamos, rodovias adequadas conectando as cidades e assim por diante, ter o cargueiro da Embraer ajudará as economias a crescer, porque você terá produtos viajando de uma região para outra de maneira mais rápida, sejam produtos perecíveis, medicamentos ou qualquer tipo de carga importante que precise ir de um ponto da África para outro de forma mais rápida. Acreditamos que ter esses cargueiros, ter operações da Embraer entre as cidades, ajudará a desenvolver a economia, ajudará a desenvolver o turismo e ajudará a desenvolver os negócios dentro do país e da própria região.
Essas operações de carga são economicamente viáveis?
Muito. Primeiro de tudo, nós transportamos carga no porão do avião. E isso é basicamente a cereja do bolo, porque não custa nada para você como companhia aérea. Talvez haja um pequeno aumento no consumo de combustível porque o avião ficará mais pesado. Agora, o cargueiro é diferente porque você precisa preenchê-lo. Você precisa ter uma carga grande, uma boa quantidade de carga nesses aviões para ganhar dinheiro. Então, sim, é viável. Os cargueiros não precisam se preocupar com o horário em que vão partir. Três horas da manhã ou três horas da tarde, não importa. São os pilotos e a companhia aérea que decidem. É diferente dos passageiros. As companhias aéreas podem decidir quando voar. Não precisa voar diariamente. Não precisa voar semanalmente. Pode voar quando a companhia aérea quiser, sempre que houver demanda. É claro que é bom ter uma operação regular de cargueiros, mas, se isso não se justificar, você pode voar quando quiser, para onde quiser.
Existem menos restrições para operações internacionais de carga?
Em muitos países, os cargueiros não têm muitas restrições em termos de acordos bilaterais entre países, porque isso ajuda a economia do país. Então, os países aceitam esse tipo de tráfego com muito mais facilidade do que aceitariam o tráfego de passageiros.
Quais empresas africanas estão investindo nesse mercado?
Isso ainda é um projeto novo, são aviões novos. Nós começamos há apenas dois anos. Então, agora eles estão começando a voar. Atualmente, eles estão voando principalmente na Europa e assim por diante, mas, em breve, definitivamente estaremos na África.
A Embraer já tem esses cargueiros em operação na África?
Os cargueiros, ainda não. Mas teremos. Mas, novamente, as companhias aéreas que voam com nossos aviões também os utilizam para transportar carga.
*O jornalista viajou a convite da Apex Brasil
