Empresa brasileira explora petróleo na Venezuela — e acaba de fazer uma aquisição nos EUA

A holding brasileira Alvorada está desde 2023 na Venezuela, onde tem concessão para explorar petróleo em três blocos da faixa petrolífera do Orinoco. Agora, acaba de comprar uma empresa do setor — nos Estados Unidos. A adquirida é a Calistoga, uma pequena produtora onshore do Texas, com quase 15 anos de atuação de mercado. A operação é pequena, com uma produção incipiente e cinco poços ativos. Mas a Calistoga tinha as autorizações e certificados dos órgãos reguladores locais que a compradora precisava para instalar seu headquarter em solo americano. É de lá que a Alvorada vai conduzir sua estratégia na Venezuela.
O movimento é revelador. Desde que Nicolás Maduro foi preso pelos americanos em janeiro deste ano, o setor privado na Venezuela tem buscado se aproximar do governo de Donald Trump. Os Estados Unidos também são o principal comprador em potencial do petróleo venezuelano, depois que sanções foram flexibilizadas.
"Hoje, quando os Estados Unidos importam do Oriente Médio, o petróleo leva até 40 dias para chegar. Saindo da Venezuela, esse tempo cai para cinco, até sete dias", afirma Paulo Buzanelli, CEO e chairman da Alvorada.
O executivo sente que a influência americana no país ganhou ainda mais força após os terremotos que deixaram milhares de mortos e aumentaram a dependência de ajuda externa. O trágico episódio também reforçou a importância econômica da indústria petrolífera. "O maior motor da economia venezuelana é o petróleo, que é o que vai ajudar a reconstruir o país".
No momento a Alvorada opera três blocos exploratórios, com 13 campos de petróleo e mais de 700 poços perfurados. Apesar de ter um contrato de partilha com a PDVSA, o investimento para colocar a operação de pé partiu da própria empresa. A estatal petrolífera fica com os royalties.
Para operar na Venezuela com a Calistoga, a Alvorada ainda precisa de licenças do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos Estados Unidos (OFAC). Mas já começou a adquirir equipamentos americanos para enviar à operação venezuelana.
Da prospecção ao "laboratório" na Venezuela
Buzanelli não tinha experiência prévia no setor de óleo e gás, mas conta que sempre se aventurou em negócios pouco convencionais por meio da Concordia, uma holding que já teve participações em um sem número de empresas, de commodities à tecnologia, passando por louças e metais sanitários. "Comecei a estudar Venezuela há mais ou menos cinco anos. Em 2023, o governo sinalizou abertura para o investimento privado internacional e demos o primeiro passo lá dentro. O Brasil também voltou a ter relações institucionais com país. Vimos que era o momento de ter uma empresa brasileira de petróleo na Venezuela", afirma.
O problema era levantar recursos para financiar a operação. Eram várias as restrições para que entidades privadas fizessem investimentos na área de petróleo da Venezuela. A primeira captação institucional da Alvorada aconteceu após a captura de Maduro, com a Galapagos Capital. "Estamos agora em uma fase de expansão para trazer mais campos para as nossas operações", diz o CEO.
Ao final de 2025, a produção da Alvorada era de 3 mil barris por dia. "Estamos com uma segunda operação que deve chegar a 22 mil barris diários e olhando para uma terceira", afirma Buzanelli. A meta da Alvorada para o médio prazo é alcançar uma produção diária de até 200 mil barris. A empresa está em tratativas com tradings de commodities e "muito próximos de fechar uma aliança", diz o CEO.
Além de aprofundar a operação venezuelana, a Alvorada avalia entrar em outros mercados da América Latina. Colômbia, agora com uma nova administração mais alinhada aos Estados Unidos, e Bolívia, no segmento de gás, estão no radar. "Argentina é outro mercado que temos observado".
No Brasil, a companhia estuda uma eventual aquisição no mercado onshore, entre petroleiras já conhecidas do setor, sem revelar o alvo.
