Empresa de R$ 1,7 bilhão que fornece cabos para Enel e Neoenergia vai abrir nova fábrica no Brasil
Dos mesmos fundadores do parque 'Termas dos Laranjais', em Olímpia, empresários investem milhões em nova unidade fabril de olho no avanço dos carros elétricos e na expansão dos data centers

A crescente demanda por energia elétrica no Brasil, impulsionada pela expansão dos data centers, pelos carros elétricos e pela modernização das redes de distribuição, está abrindo novas oportunidades para a indústria nacional.
É de olho nesse mercado que o Grupo Condumax Incesa, fabricante de fios, cabos e componentes elétricos, que faturou $ 1,7 bilhão em 2025, prevê um novo plano de expansão.
Nesta terça-feira, 27 de outubro, o grupo inaugura a ampliação de sua atual fábrica em Olímpia, interior de São Paulo, com o objetivo de aumentar a produção e atender à demanda de concessionárias de energia, montadoras e outros setores industriais.
A expansão eleva a capacidade anual de fabricação de fios e cabos de 25 mil para aproximadamente 35 mil toneladas, um crescimento de 40%.
“No segmento de distribuição de energia elétrica, a capacidade produtiva dobra. Já no setor automotivo, o aumento previsto é de cerca de 30%”, afirma Marcos Matias, CEO do Grupo Condumax Incesa, em entrevista exclusiva à EXAME.
A ampliação também acrescenta aproximadamente 30 mil metros quadrados de área construída à unidade, que passa a somar cerca de 55 mil metros quadrados, além de abrir 50 novos postos de trabalho.
"Nossos clientes estão crescendo e o mundo está se eletrificando rapidamente, o que exige de nós capacidade para acompanhar esse ritmo, sem abrir mão da qualidade que já conhecem", afirma Matias.
O plano de expansão não para por aí. Para 2027, a companhia irá investir R$ 160 milhões para construir uma nova fábrica no interior de São Paulo.
A unidade será instalada em Olímpia, cidade localizada a cerca de 430 quilômetros da capital paulista. A nova planta será dedicada à produção de cabos de média tensão, utilizados na infraestrutura elétrica, e terá capacidade para fabricar até 700 toneladas mensais de cabos de alumínio isolados.
Marcos Matias, CEO do Grupo Condumax Incesa: "Acredito que o mundo seguirá cada vez mais elétrico" (Grupo Condumax Incesa/Divulgação)
R$ 260 bilhões em investimentos nas redes elétricas
Um dos principais motores do crescimento da companhia está na necessidade de modernização da infraestrutura elétrica brasileira.
Dados da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), segundo Matias, apontam que as distribuidoras devem investir cerca de R$ 260 bilhões até 2030 em modernização, digitalização e aumento da resiliência das redes.
A Condumax Incesa já fornece produtos para algumas das maiores concessionárias do país, incluindo CPFL, Neoenergia, Enel, Copel e EDP.
Atualmente, as concessionárias de energia representam 40% do faturamento do grupo, o equivalente a aproximadamente R$ 680 milhões, considerando a receita registrada em 2025.
A expansão da fábrica, segundo o CEO, responde tanto aos contratos já firmados quanto à expectativa de novos negócios.
"Temos relações de longo prazo com as principais concessionárias do país, com contratos renovados recentemente e novas homologações que ampliam o que podemos fornecer."
A companhia também investe em soluções tecnológicas para redes inteligentes, incluindo produtos que ajudam a combater o furto de energia e identificar falhas com maior rapidez.
Entre as inovações estão os cabos de alumínio flexível, desenvolvidos para oferecer alternativas de menor custo e maior versatilidade.
Inteligência artificial e data centers abrem novo mercado
Além das concessionárias, a Condumax Incesa enxerga na expansão dos data centers uma oportunidade de crescimento para os próximos anos.
O avanço da inteligência artificial exige estruturas de processamento de dados cada vez mais robustas, que dependem de fornecimento contínuo e seguro de energia elétrica.
Segundo Matias, o Brasil possui uma vantagem competitiva nesse cenário: a participação elevada das fontes renováveis na matriz elétrica.
"A inteligência artificial depende de energia, e o Brasil tem uma vantagem rara: uma matriz elétrica majoritariamente renovável, o que atrai investimentos de quem precisa de energia limpa", afirma.
Entretanto, o executivo ressalta que a disponibilidade de energia renovável, por si só, não garante que o país conseguirá absorver toda a demanda.
"O desafio está na infraestrutura. Para aproveitar essa oportunidade, o país precisa de redes mais robustas e de planejamento, e também de uma cadeia de fornecedores nacionais com capacidade para entregar."
Para disputar esse mercado, o grupo pretende lançar, em 2027, uma nova linha de cabos de média tensão, direcionada também às necessidades dos data centers.
A nova fábrica contará com uma linha de catenária que, segundo a companhia, será a mais longa e produtiva do Brasil. A estrutura terá aproximadamente 30 metros de altura e 200 metros de comprimento.
Na avaliação do CEO, a modernização das redes de distribuição deve continuar sendo a principal fonte de demanda no curto prazo, enquanto os data centers e a eletrificação da mobilidade representam algumas das maiores oportunidades de expansão.
"No curto prazo, a modernização das redes de distribuição é a base mais sólida, pelo volume de investimento já anunciado pelas concessionárias. Data centers e eletrificação da mobilidade são as fronteiras de maior crescimento", afirma.
O setor de energias renováveis também está no radar da companhia, especialmente diante da perspectiva de investimentos em sistemas de armazenamento de energia por baterias.
De uma fábrica de terminais de bateria a um grupo bilionário
A história da Condumax Incesa começou em 1964, em Olímpia, no interior paulista.
Fundada por Benito Benatti e Alvaro Brito, a empresa nasceu em um período de expansão da indústria automobilística brasileira. Seu primeiro negócio foi a fabricação de terminais de bateria, antes de ampliar a atuação para fios, cabos e conectores elétricos.
Um dos fundadores, Benito Benatti, também ficou conhecido por idealizar o Termas dos Laranjais, parque aquático localizado na mesma cidade e considerado o mais visitado da América Latina.
Mais de seis décadas depois, o grupo permanece sob a governança da família fundadora e atende diferentes segmentos da economia, como energia, indústria automotiva, agronegócio, construção civil e energias renováveis.
O novo ciclo de expansão também coincide com uma mudança na liderança.
Em abril de 2026, Marcos Matias assumiu o comando da companhia após uma trajetória de mais de 30 anos no setor elétrico, incluindo uma passagem pela presidência da Schneider Electric no Brasil.
Entre suas prioridades estão ampliar a capacidade industrial, investir em inovação e tornar a marca mais conhecida no mercado.
"A primeira decisão foi tornar a marca Condumax mais conhecida", afirma o executivo.
Empresa mira os Estados Unidos e avalia aquisições
A internacionalização é outra frente de crescimento da Condumax Incesa.
Atualmente, a empresa exporta para dez países, principalmente produtos de conexão da marca Incesa. Com a ampliação da capacidade produtiva, a intenção é começar a levar também os cabos fabricados no Brasil para o exterior.
“Os Estados Unidos e outros mercados da América Latina estão entre os principais destinos considerados pela companhia”, afirma o CEO.
Apesar do interesse internacional, Matias reconhece que competir com fabricantes estrangeiros exige superar obstáculos estruturais do ambiente de negócios brasileiro.
"O custo Brasil existe, com logística e carga tributária pesadas, e não dá para ignorar", afirma.
A estratégia para ganhar competitividade, segundo o executivo, passa pelo aumento da escala de produção, pela automação industrial e pelo desenvolvimento de produtos de maior valor agregado.
"A forma de compensar é com eficiência, com a aplicação de automação e da indústria 4.0; com escala de produção, ampliando geograficamente a nossa atuação com a exportação; e com valor agregado, embarcando tecnologia nos produtos."
A estratégia poderá envolver não apenas o crescimento das operações atuais, mas também aquisições ou até a instalação de unidades fora do Brasil.
"Estamos avaliando todos os caminhos para acelerar o crescimento, tanto orgânicos quanto inorgânicos. O que posso dizer é que a internacionalização é uma prioridade e que vamos fazer os movimentos certos, no tempo certo."
O CEO não divulgou projeções de faturamento para 2026 e 2027, mas reforçou que a companhia aposta na combinação entre investimentos industriais, novas tecnologias e expansão geográfica para sustentar o próximo ciclo de crescimento.
"Acredito que o mundo seguirá cada vez mais elétrico", afirma Matias.
