Empresa goiana fecha acordo de R$ 100 milhões com aposta na mineração de menor impacto
À EXAME, a CEO conta como a experiência no negócio familiar levou à criação da Odora Minerals, que agora foca em um braço para recuperar metais de rejeitos: "O que não queremos fazer é minerar"

Aos 29 anos, a empreendedora goiana Isadora Coimbra construiu seu negócio a partir de uma inquietação com o setor em que cresceu. Sua família atua na compra e venda de minérios, e foi ao visitar as operações dos fornecedores que ela enxergou uma oportunidade de fazer diferente.
Quando trabalhava na empresa familiar, visitar as minas fazia parte da rotina. Em uma dessas viagens, acompanhada de um geólogo, a advogada se impressionou com o impacto ambiental da operação. Intensiva em energia, a mineração é responsável por cerca de 11% das emissões globais de carbono.
A experiência ajudou a dar forma à Odora Minerals, fundada há cerca de oito anos, com foco na etapa anterior à extração: pesquisar as áreas, dimensionar os recursos e estruturar projetos para empresas capazes de desenvolver as minas.
“Somos uma empresa de mineração, mas o que a gente não quer fazer é minerar. Queremos profissionalizar o setor”, destacou ela, em entrevista à EXAME.
Na prática, sua atuação é como uma incorporadora de projetos minerais: ela adquire direitos sobre áreas com potencial, investe em pesquisa e regularização e prepara os ativos para venda ou associação com operadores.
Com áreas em mais de 16 estados brasileiros e foco em ouro, cobre e manganês, a Odora acaba de fechar um acordo de mais de R$ 100 milhões envolvendo a venda de ativos minerais. Segundo a fundadora revelou com exclusividade, o contrato foi assinado em 29 de setembro.
Como a Odora transforma pesquisa mineral em negócio
O valor de um projeto mineral depende de informações que não estão disponíveis apenas pela observação do terreno. É preciso investigar onde está o minério, sua concentração, o volume existente e as condições para aproveitá-lo economicamente.
Na Odora, esse trabalho envolve mapeamento geológico, amostragem, análises e avaliação técnica. A pesquisa avança por etapas, conforme os resultados justificam novos investimentos. O risco está em gastar para descobrir que a área não tem o potencial esperado.
“Você pode pesquisar e não ter nada, ou você pode pesquisar e ter um minério que é ruim”, explica Coimbra.
O processo também exige tempo. Dados da Agência Internacional de Energia (IEA) apontam um prazo médio superior a 20 anos entre a descoberta de uma jazida e o início da produção. No caso dos ativos negociados pela Odora, a CEO afirma que o desenvolvimento até a venda levou oito anos — uma etapa anterior à entrada em operação das minas.
É essa incerteza que a empresa pretende reduzir antes de apresentar o ativo a um comprador. A negociação pode ser acompanhada de uma participação na receita futura da operação, por meio de royalties.
“Eu sempre vendo a mina para as multinacionais e eu fico com um royalzinho ali de 2%, só que de um faturamento de bilhão”, conta.
A tese do negócio busca combinar a receita da venda com pagamentos ao longo da vida produtiva dos projetos. Coimbra não detalha as condições do acordo recém-assinado, mas diz que pretende vender pelo menos R$ 2 bilhões em projetos nos próximos cinco anos.
Por que o potencial mineral atrai investimentos
A estratégia encontra espaço em um mercado pressionado pela necessidade de abastecer redes elétricas, veículos, infraestrutura e equipamentos essenciais para a transição energética. O cobre, um dos focos da Odora, conecta a carteira da empresa à expansão da eletrificação.
Segundo projeções da IEA, a carteira atual de minas aponta para um déficit de oferta de cobre de 25% até 2035, no cenário de políticas declaradas. A perspectiva reforça a necessidade de desenvolver projetos e ampliar o aproveitamento dos recursos existentes.
No Brasil, o setor mineral faturou R$ 298,8 bilhões em 2025, alta de 10,3% sobre o ano anterior, segundo dados do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
A previsão de investimentos entre 2026 e 2030 soma US$ 76,9 bilhões, dos quais US$ 21,3 bilhões são destinados a minerais críticos e estratégicos que estão no centro da disputa geopolítica global.
Há também espaço para aprofundar o conhecimento sobre os recursos do país. Segundo o Serviço Geológico do Brasil, 70% do território tem conhecimento geológico em uma escala ainda pouco detalhada.
Para Coimbra, a abundância de recursos precisa ser acompanhada de projetos que permitam avaliar custos, riscos e retorno.
“Ter potencial não quer dizer que você tem viabilidade”, frisa.
A fundadora busca investidores e parceiros internacionais para desenvolver os ativos. Sua proposta é entregar informações técnicas e uma situação regulatória definida, aproximando as áreas pesquisadas do capital necessário para colocá-las em produção.
A aposta na recuperação dos rejeitos
A observação das operações minerais também abriu uma segunda frente. Segundo a empreendedora, parte dos metais da atividade permanece no material descartado durante a extração e o processamento. Recuperar esse conteúdo é o foco da Odora Recycle, iniciativa em desenvolvimento há dois anos, e com foco na reciclagem.
“A gente quer cuidar do que a mineração deixou de ruim no ambiente, que são os resíduos”, destaca.
Cada material passa por amostragem e ensaios para definir a rota de recuperação, que pode envolver separação física, processos físico-químicos ou hidrometalurgia, com parceiros especializados.
A companhia destaca que a Odora Recycle já recupera metais preciosos de resíduos específicos, como carvão ativado exaurido e lama anódica. Cobre e manganês estão entre as frentes previstas para ampliação. Os modelos de parceria incluem participação na receita, joint ventures e acordos de reprocessamento.
Para a CEO, a rastreabilidade também é uma possibilidade de diferenciar o produto entre compradores que exigem informações sobre sua origem.
A busca por parceiros internacionais a levou a Genebra, na Suíça, onde apresentou o modelo de negócios da Odora no Brasil Commodities Forum, evento voltado a family offices e oportunidades de investimento no país. Nas conversas, a empresária destaca o interesse pela origem dos metais, em um momento de maior exigência ESG nos produtos importados pelo bloco europeu.
“As pessoas aqui estão muito preocupadas com a rastreabilidade, é algo que cria valor”, conclui.
