Empresa perde 70% da receita de uma hora para outra. Alfredo Soares explica como reagir
Empório Jaya cresceu apoiado em um marketplace que encerrou as operações. No Choque de Gestão, cofundador do G4 mostra como reduzir a dependência de canais e conquistar clientes

Um parceiro pode acelerar o crescimento de uma pequena empresa. O problema começa quando ele se torna responsável por quase todo o negócio.
Foi o que aconteceu com o Empório Jaya, loja de produtos naturais comandada por Victória Alves e seus pais em Alphaville, na Grande São Paulo. Durante anos, a família cresceu ao lado de um marketplace de supermercado online que chegou a representar 70% das vendas da empresa.
A parceria ajudou o Jaya a ganhar escala e até a mudar para uma loja maior. Em março deste ano, porém, o marketplace encerrou as atividades.
A receita desapareceu praticamente de uma hora para outra. Para manter a operação, Victória e os pais decidiram zerar o próprio pró-labore.
“Foi um balde de água fria, porque foi realmente do dia para a noite. A gente estava extremamente confortável”, diz Victória.
O desafio levou a empresa ao Choque de Gestão, reality show de negócios da EXAME com patrocínio de Santander Empresas e Claro Empresas. O mentor do episódio é Alfredo Soares, cofundador do G4 Educação e fundador da Xtech, empresa de comércio eletrônico vendida para a VTEX.
O diagnóstico começa justamente pela concentração das vendas.
“O brasileiro tende a construir essa mansão dos sonhos, que é o nosso negócio, num terreno alugado”, diz Alfredo Soares.
Para ele, nenhum canal deveria concentrar mais de 25% a 30% do faturamento de uma empresa.
Como o Empório Jaya perdeu 70% das vendas
A história do Jaya começou em 2019. Victória e os pais trabalhavam em empregos formais quando ela e a mãe começaram a vender castanhas e outros alimentos naturais como uma fonte de renda extra.
Os produtos eram pesados em uma balança de cozinha e levados para colegas de trabalho, amigos e conhecidos. Meses depois, surgiu a oportunidade de abrir uma loja física em Alphaville.
Logo no início, a família foi procurada por um marketplace de supermercado online. A plataforma cresceu e levou o Jaya junto.
O volume ficou tão relevante que a empresa mudou para um espaço maior e chegou a manter uma funcionária dedicada exclusivamente aos pedidos do parceiro. Segundo Victória, cerca de 70% das vendas vinham desse canal.
A dependência só ficou evidente quando o marketplace fechou.
Para Soares, o caso mostra o risco de confundir o crescimento de um canal de terceiros com a construção de uma base própria de clientes.
A recomendação não é abandonar marketplaces. É evitar que um deles se torne grande demais e usar esses canais também para ampliar o relacionamento direto com os consumidores.
A primeira mudança proposta pelo empresário é estabelecer metas para cada frente de vendas.
Hoje, aproximadamente metade dos pedidos do Jaya chega pelo delivery, principalmente pelo WhatsApp. A empresa também está no iFood, mantém a loja física e prepara um e-commerce.
Victória chegou à mentoria procurando ainda mais canais. Soares sugeriu outra estratégia: antes de se espalhar por diferentes plataformas, fortalecer aquelas com maior potencial.
“Você está mais querendo caçar novos canais e tem uma porrada de canal pequenininho”, diz.
Uma das oportunidades está a poucos metros da loja. O mentor sugeriu mapear empresas em um raio de aproximadamente um quilômetro e abordar diretamente trabalhadores dos escritórios da região.
Em vez de investir R$ 50 mil na abertura de outra unidade, por exemplo, parte do dinheiro poderia financiar uma operação comercial dedicada a prospectar empresas e conquistar consumidores no entorno.
A lógica é transformar o varejo de uma operação que espera o cliente entrar na loja em uma empresa que vai atrás dele.
Como conseguir novos clientes gastando pouco
Soares também propôs usar a própria margem dos produtos como ferramenta de aquisição.
Se um produto ou pedido tem margem de 30%, por exemplo, o Jaya poderia oferecer R$ 30 de desconto em uma primeira compra de R$ 100. A empresa abriria mão do lucro daquela venda para conquistar um consumidor que poderá voltar outras vezes.
A estratégia ganha importância porque castanhas, snacks e outros produtos vendidos pelo empório têm alta recorrência.
O objetivo, portanto, não é ganhar dinheiro necessariamente na primeira compra, mas transformar o consumidor em parte de uma carteira própria.
Para isso, Soares recomenda estruturar um CRM e aumentar a coleta de dados dos clientes. WhatsApp, Instagram e até SMS podem ser usados para comunicar promoções e estimular novas compras.
“Um CRM é um patrimônio para o varejista”, afirma.
Por que o Empório Jaya precisa produzir mais conteúdo
O marketing foi outro ponto de atenção. Victória é responsável pela área, mas contou que publica cerca de dois posts por semana, além dos stories diários.
Para Soares, é pouco diante do potencial dos produtos vendidos pelo Jaya.
A recomendação é aumentar a frequência e, principalmente, publicar nos momentos em que o consumidor começa a decidir o que vai comer.
Se o lanche acontece às 16h, por exemplo, conteúdos publicados entre 13h e 14h podem influenciar essa decisão.
O foco também deve ser local. Para o mentor, o Jaya não precisa necessariamente conquistar milhões de seguidores. Precisa ser conhecido pelas pessoas que trabalham e moram perto da loja.
“Você precisa pensar nisso aqui como uma marca, não como varejo”, diz.
Empresa familiar precisa definir funções e salários
A perda do principal parceiro expôs ainda outro problema. Victória e os pais trabalham diretamente no Jaya, mas as responsabilidades se misturam entre atendimento, compras, marketing, delivery e finanças.
Com a queda da receita, os três abriram mão do pró-labore.
Soares recomendou formalizar um acordo societário, definir claramente as funções de cada integrante e separar três formas de remuneração: pagamento pelo trabalho realizado, bônus pelo resultado e distribuição correspondente à participação societária.
A preocupação é evitar que diferenças de dedicação ou objetivos se transformem em conflitos conforme o negócio cresce.
Para Victória, a principal mudança da mentoria foi justamente perceber que a saída para recuperar as vendas não está necessariamente em encontrar outro grande parceiro.
O próximo passo é fazer o caminho inverso: reduzir a dependência de terceiros e construir uma base de clientes que pertença ao próprio Jaya.
