Empresa por trás da piscina de ondas de SP e do parque Cacau Show investe R$ 50 milhões em expansão
Aos 37 anos, Udiaço amplia operação no Brasil e mira a casa do bilhão em meio à “prova de fogo” do setor

Quem olha para uma piscina de ondas ou para um parque temático provavelmente não pensa no aço escondido sob essas construções. Mas é justamente nas fundações de alguns dos projetos que têm chamado atenção no país que está parte do negócio construído pela família Trevizan ao longo das últimas quatro décadas.
A Udiaço, empresa especializada no fornecimento e processamento de aço para a construção civil, participou do fornecimento para a piscina de ondas do Beyond The Club, em São Paulo, e também está presente nas obras do parque da Cacau Show, um dos maiores projetos em desenvolvimento pela fabricante de chocolates.
No caso da piscina, a companhia forneceu aço para as fundações da própria estrutura e de outras construções do complexo, como restaurantes. Já no parque da Cacau Show, o material fornecido pela empresa é utilizado principalmente nas fundações.
Os projetos ajudam a dimensionar uma empresa que começou praticamente do zero em 1989 e agora se prepara para alcançar um novo patamar.
"Faturamos R$ 805 milhões em 2025 e projetamos crescimento de 10% em 2026. Com esse ritmo, estamos estruturados para alcançar R$ 1 bilhão em faturamento nos próximos anos", diz CEO.
A marca bilionária seria mais um capítulo de uma trajetória que começou com algumas toneladas de aço, uma carreta emprestada e um pequeno escritório improvisado na região de Osasco, na Grande São Paulo.
A montanha-russa do Cacau Park chega a 55 metros de altura e 120 km/h, em São Paulo (Cacau Park/Divulgação)
De um escritório de madeira ao aço para grandes obras
A história da família Trevizan com o setor começou antes da própria Udiaço.
Helio Trevizan, sócio-fundador e diretor comercial, entrou no mercado siderúrgico em 1977. Aos 20 anos, já era gerente de vendas de uma filial da antiga Siderúrgica Conferraz. Passou os anos seguintes trabalhando em distribuidoras e conhecendo o funcionamento do setor.
Em 1989, Hélio decidiu empreender com os dois irmãos.
O começo foi modesto: um escritório que, segundo ele, tinha parte da estrutura feita de blocos e parte de madeira, cerca de duas toneladas de aço e praticamente nenhuma mecanização.
“Não tinha máquina, não tinha guincho, não tinha nada. Tinha uma carreta emprestada por um amigo do meu pai e um caminhão”, diz Trevizan.
O negócio começou com apenas cinco funcionários. Os próprios sócios vendiam, emitiam notas fiscais, carregavam os produtos e faziam entregas.
Hoje, a realidade é outra. A companhia possui quatro unidades, sendo três em São Paulo (em Carapicuíba, São Carlos e Guarujá), e uma no Rio de Janeiro (em Resende), além de uma frota com mais de 200 caminhões e carretas.
Sede da Udiaço em Carapicuíba, São Paulo: cerca de 70% do material adquirido chega em rolos, que depois são industrializados nas unidades da empresa (Udiaço/Divulgação)
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O corte e dobra virou o principal negócio
Ao longo dos anos, a Udiaço deixou de atuar apenas como uma distribuidora tradicional e avançou sobre a industrialização do aço.
Hoje, seu principal negócio é o chamado corte e dobra. Em vez de simplesmente entregar barras de aço para os canteiros, a companhia recebe o material, processa as peças de acordo com o projeto de cada cliente e entrega o produto praticamente pronto para utilização na obra.
"Cerca de 70% do material adquirido chega em rolos, que depois são industrializados nas unidades da empresa", afirma Hugo Trevizan, diretor de planejamento estratégico da Udiaço.
O modelo reduz etapas dentro dos canteiros e, principalmente, o desperdício de material.
“Nosso projeto é muito sobre demanda. A gente olha o projeto no detalhe de cada cliente”, afirma Hugo, que é sobrinho do CEO.
A construção civil responde pela maior parcela das vendas. Cerca de 70% dos negócios estão ligados ao mercado imobiliário, embora a companhia também atenda projetos industriais e de infraestrutura.
Além da piscina de ondas e do parque da Cacau Show, a empresa fornece aço para empreendimentos como o Parque Global e o Reserva Raposo, em São Paulo. Entre os projetos fora do segmento residencial estão ainda dois hospitais, um em Ribeirão Preto e outro em Santana, na capital paulista, com previsão de aproximadamente 2 mil toneladas de aço em cada obra.
Reserva Raposo: projeto prevê mais de 22 mil moradias e estrutura completa de serviços até 2030 (GRUPO RZK/Divulgação)
Mais de R$ 50 milhões para crescer fora de São Paulo
Um dos movimentos mais recentes da Udiaço foi a expansão para Resende, no Rio de Janeiro.
A nova unidade recebeu investimento superior a R$ 50 milhões e faz parte da estratégia de ampliar o volume processado pela companhia. Nos últimos anos, o grupo também destinou cerca de R$ 60 milhões à compra de máquinas, segundo os executivos.
A expansão geográfica, porém, deve ocorrer de maneira mais cautelosa daqui para frente.
Com os juros elevados e as incertezas econômicas, a família decidiu evitar grandes investimentos adicionais no curto prazo e concentrar esforços na maturação das operações já abertas.
“Primeiro você tem que maturar. Com todos esses juros nas alturas, pensar em investimento não está fácil”, afirma Helio.
A preocupação não significa, porém, que a companhia tenha abandonado seus planos de crescimento.
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O caminho para R$ 1 bilhão
A meta do fundador da Udiaço é chegar a marca de R$ 1 bilhão nos próximos anos.
O número, porém, é influenciado por uma particularidade do setor.
“Como o preço do aço oscila, crescimento de receita nem sempre acompanha o avanço do volume vendido”, afirma Hugo que prefere observar a evolução em toneladas para medir o desempenho do negócio.
A queda do preço do aço nos últimos anos, inclusive, atrasou o plano de alcançar a marca bilionária. Segundo o CEO, o preço do material recuou cerca de 20% em aproximadamente um ano e meio.
Enquanto busca crescer, a companhia também enfrenta um problema que tem preocupado seus executivos: a inadimplência de clientes.
“Clientes que estavam sem problema nenhum, do nada nós começamos a ter problema”, diz Helio.
O ambiente de juros elevados, segundo o CEO, tem aumentado a cautela nas decisões de investimento e tornado o mercado mais desafiador este ano.
“Com todos esses juros nas alturas, pensar em investimento não está fácil”, afirma Trevizan. Segundo ele, o cenário faz empresários adiarem decisões. “Ninguém quer investir nos próximos 8 meses”.
A segunda geração entra no negócio
O próximo desafio não está apenas no faturamento e na economia. A Udiaço atravessa um processo de sucessão familiar. Quatro integrantes da nova geração já trabalham na companhia, entre eles Hugo Trevizan.
Ao mesmo tempo, a empresa vem investindo em treinamento, governança e profissionalização da gestão para preparar a estrutura necessária para o próximo ciclo de crescimento.
“Hoje, em termos do que a gente tem de estrutura, a gente consegue chegar no que estamos buscando”, afirma Hugo.
Segundo ele, há pouco mais de cinco anos o volume movimentado pela companhia estava próximo da metade do nível atual.
O CEO também atribui parte da longevidade da empresa à retenção dos funcionários. Ele cita como exemplos uma cozinheira que está há 34 anos no grupo e um gerente comercial com 35 anos de casa. Um dos profissionais da área financeira, conta, começou como motoboy.
“Crescemos nesses 37 anos graças a eles”, afirma.
Mesmo passando pela “prova de fogo” do setor, a empresa que começou com uma pequena estrutura, poucas toneladas de aço e trabalho praticamente manual agora mira seu próximo marco: entrar para o grupo das companhias brasileiras com faturamento bilionário.
E parte desse crescimento continuará invisível para quem estiver surfando uma onda artificial ou visitando um parque temático, escondida nas toneladas de aço que sustentam essas construções.
Veja a entrevista completa de Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, ao "De frente com CEO", da EXAME:
