Empresa traz ao Brasil software que substitui máquinas de R$ 300 mil no diagnóstico do glaucoma
Com mais de 1,7 milhão de brasileiros estimados com glaucoma sem diagnóstico, IDMed aposta em uma tecnologia portátil para ampliar o acesso ao exame, sobretudo no sistema público

RESUMO +
A IDMed, distribuidora de tecnologias médicas portáteis, lançou no Brasil em maio de 2026 a Melbourne Rapid Fields (MRF), plataforma da Universidade de Melbourne que realiza exames de campo visual em computadores e tablets. O software custa cerca de R$ 30 por exame e mira a triagem no SUS. A empresa projeta faturamento de R$ 45 milhões a R$ 60 milhões até 2028.
A Sociedade Brasileira de Glaucoma estima que de 1,5 a 2 milhões de pessoas convivam com glaucoma e que a maior parte não sabe do diagnóstico.
Um dos desafios para identificar a doença é o alto valor para a realização de exames. Alguns dos aparelhos que medem o campo visual do paciente podem custar mais de R$ 300 mil e exigem espaço, treinamento e uma estrutura dedicada nas clínicas.
Ao identificar essa limitação, Wagih Nassar Neto fundou a IDMed para licenciar e distribuir no país a Melbourne Rapid Fields (MRF) — uma plataforma desenvolvida pela Universidade de Melbourne, na Austrália, que permite realizar o exame de campo visual em notebooks, tablets e computadores convencionais.
A IDMed fez o lançamento comercial em maio de 2026 e já chegou a algumas clínicas particulares. Mas a principal aposta para crescer nos próximos anos está no setor público.“Há um subdiagnóstico muito alto. O paciente pode ser diagnosticado tardiamente e já precisar de cirurgia, o que pode aumentar os custos para o sistema de saúde. O exame pode ajudar na identificação precoce da doença e no início do tratamento”, diz Neto.
A empresa mira entre 2 milhões e 3 milhões de exames de triagem por ano e projeta faturamento de R$ 45 milhões a R$ 60 milhões até 2028, somando contratos públicos e privados. Para chegar lá, porém, terá de convencer médicos e gestores de saúde a incorporar uma tecnologia que ainda é nova no país.
De equipamento de 300.000 reais a software
A história da IDMed começa antes do empreendedor conhecer o MRF. Engenheiro civil de formação, Neto fez mestrado na Universidade de Melbourne, na Austrália. De volta ao Brasil, passou seis anos na indústria farmacêutica, trabalhando na área de novos negócios e buscando parcerias e tecnologias para o setor.
Foi nesse período que entrou em contato com uma startup que desenvolvia uma tecnologia para exame de campo visual em óculos de realidade virtual. A ideia era usar um equipamento semelhante aos óculos de videogame para avaliar a visão periférica de pacientes com glaucoma. Ele levou a tecnologia para a farmacêutica onde trabalhava, mas a empresa decidiu não avançar porque seu negócio estava concentrado em medicamentos, e não em diagnóstico.
Ele decidiu trazer a tecnologia por conta própria. Abriu a IDMed e começou a negociar com os desenvolvedores suíços. O processo, porém, demorou e, quando a operação avançou, outras empresas já haviam colocado soluções semelhantes no mercado.
"Errei porque não fui olhar quem mais tinha essa tecnologia. O cara me falou que era algo novo, mas eu não fiz uma pesquisa de campo”, afirma.
A busca por uma nova alternativa levou o executivo novamente à Universidade de Melbourne, onde encontrou um professor que desenvolvia outra tecnologia para o mesmo exame. Em vez de óculos de realidade virtual, a solução usava a câmera e a tela de um computador, com recursos de machine learning para identificar o paciente e ajustar sua posição diante da tela.
A proposta chamou a atenção porque eliminava justamente a estrutura que encarecia o exame tradicional. O MRF realiza exames de acuidade e campo visual sem exigir um equipamento dedicado. O software usa a câmera e a tela do computador para posicionar o paciente e apresentar os estímulos necessários ao exame.Na prática, isso elimina parte da estrutura necessária para um campímetro convencional. A clínica não precisa reservar uma sala específica para o equipamento nem comprar uma máquina dedicada.
Durante o exame, o paciente precisa manter o olhar fixo em um ponto na tela enquanto o software apresenta estímulos em diferentes áreas do campo visual. A câmera do computador acompanha a posição do paciente, e o sistema gera o relatório do exame na hora (Divulgação)
O modelo comercial segue a mesma lógica. Em vez de vender uma máquina, a IDMed cobra pelo uso da plataforma. O menor pacote comercial mencionado pelo executivo tem 50 exames, com prazo de até um ano para utilização.
Ele afirma que o custo é de cerca de R$ 30 por exame, ou R$ 15 por olho. Também existem planos de maior volume e contratos anuais para instituições que precisam realizar muitos exames. "Eu quero oferecer essa solução pelo menor custo possível", afirma.
Para uma clínica pequena, a proposta reduz o investimento inicial. Para uma rede, a empresa permite distribuir os créditos entre diferentes unidades.
O desafio está no diagnóstico precoce
O glaucoma é uma das principais causas de cegueira irreversível. Um dos problemas do tratamento é que a doença pode avançar sem que o paciente perceba a perda de visão nas fases iniciais.
O campo visual ajuda a identificar alterações que não são necessariamente percebidas pelo paciente. O MRF produz um mapa que deve ser interpretado pelo oftalmologista. O software não fecha o diagnóstico de glaucoma.
O exame também compara o desempenho do paciente com referências de pessoas da mesma faixa etária. O resultado apresenta indicadores de normalidade, mas a interpretação clínica continua sendo responsabilidade do médico.
Esse ponto é importante para a estratégia da IDMed. A empresa não pretende posicionar o software como substituto integral dos campímetros convencionais. Na entrevista, o fundador reconhece que o equipamento tradicional continua sendo o padrão de referência da oftalmologia.Os estudos disponíveis apontam equivalência diagnóstica superior a 90% em determinadas avaliações, mas ainda pode existir a necessidade de realizar o exame tradicional.
A estratégia, portanto, passa por usar o MRF principalmente em triagem e no acesso inicial ao exame. Um paciente identificado com alteração pode então ser encaminhado para uma investigação mais completa.
A aposta no SUS
A empresa não abre quantas clínicas e hospitais estão sendo atendidos no Brasil, mas o crescimento mundial ainda está no começo. São mais de 370 hospitais e clínicas cadastradas no mundo e mais de 100 mil exames realizados neste ano.
Para crescer a tecnologia no Brasil, a aposta está no sistema público. O exame convencional depende de um equipamento caro e de uma estrutura que nem todas as unidades possuem.
A empresa quer colocar o software em unidades de atenção básica e usar o resultado como uma ferramenta para direcionar pacientes. Um município também poderia contratar um número determinado de exames para realizar um mutirão.
A companhia já conversa com municípios e pretende começar por projetos locais antes de tentar ampliar a contratação para governos estaduais e federal. Como o ano de 2026 é ano eleitoral, o executivo afirma que a empresa está concentrando esforços nos municípios e espera acelerar os contratos públicos entre o fim deste ano e o início de 2027.
Por que as clínicas privadas são mais difíceis
No setor privado, o problema é diferente. Hospitais e clínicas que já investiram centenas de milhares de reais em equipamentos tradicionais têm menos incentivo para adotar uma nova solução.
A IDMed tenta entrar nesses locais como complemento. Um hospital pode manter o campímetro convencional e usar o MRF para ampliar o número de exames ou fazer uma primeira triagem.
"Eu já tenho vários estudos apontando que ele tem uma equivalência diagnóstica, inclusive no início do glaucoma", diz.
A meta é chegar a mais de 150 clínicas e médicos independentes utilizando o MRF no Brasil até o fim de 2026.
O modelo de venda também tenta reduzir a barreira para o médico. O treinamento é feito remotamente e o software tem uma assistente virtual que orienta o paciente durante o exame, inclusive quando ele se afasta da câmera ou deixa de olhar para o ponto indicado.
De glaucoma para outras tecnologias médicas
O glaucoma é apenas a porta de entrada. A ambição do fundador é transformar a IDMed em uma distribuidora de tecnologias médicas portáteis que possam reduzir o custo e ampliar o acesso a exames. A lógica vem do próprio nome da empresa, Intelligent Devices in Medicine. A companhia procura softwares e dispositivos desenvolvidos fora do Brasil que tenham validação clínica e possam ser adaptados a uma estrutura com menos recursos.
A empresa já avalia outras tecnologias, mas não revela quais são. A preocupação é evitar repetir a experiência do primeiro projeto, quando soluções semelhantes chegaram ao mercado antes que a IDMed conseguisse concluir a operação.
“Minha ideia é trazer soluções portáteis e inovadoras, pensando em tecnologias mais acessíveis. Hoje, estou aberta a diferentes possibilidades: estão surgindo softwares e também dispositivos físicos, todos com o objetivo de ampliar a portabilidade e o acesso.”
O plano financeiro depende justamente de encontrar escala nesse modelo. A companhia estima que o MRF possa chegar a 2 milhões a 3 milhões de exames de triagem por ano e ajudar a identificar precocemente até 150.000 novos casos de glaucoma.
Para atingir um faturamento de R$ 45 milhões a R$ 60 milhões em 2028, porém, a IDMed terá de transformar uma tecnologia que hoje atende principalmente clínicas e grupos privados em uma ferramenta de larga escala na saúde pública.
