Empresas de software enfrentam pressão dupla: dívida em risco e avanço da IA

O avanço da inteligência artificial (IA) acendeu um novo alerta para as empresas de software, mas o mercado de crédito privado mostra que os problemas começaram muito antes da explosão da IA.
Um levantamento exclusivo da MSCI, divulgado pelo Wall Street Journal, mostra que a parcela da dívida privada de empresas de tecnologia avaliada pelo mercado em menos de 80% do seu valor original atingiu, em 2025, o maior nível dos últimos cinco anos.O dado indica que o aperto monetário já pressionava o setor antes mesmo da chamada "SaaSpocalypse", expressão usada por investidores para descrever a onda de vendas das ações de empresas de "software como serviço" diante do temor de que ferramentas de IA tornem parte desses produtos obsoletos.
A MSCI indicou que 6,1% da dívida privada de empresas de tecnologia já era negociada com perdas superiores a 20% no fim de setembro de 2025, meses antes da onda de vendas que atingiu as ações de software com o avanço da IA.
Avaliado em cerca de US$ 2 trilhões, o crédito privado se tornou um dos principais destinos de recursos de fundos de pensão, seguradoras e fundos soberanos em busca de retornos superiores aos da renda fixa tradicional.
A conta chegou depois da pandemia
Com a corrida pela digitalização e pelo trabalho remoto na pandemia, empresas ampliaram investimentos em softwares corporativos, impulsionando receitas e avaliações do setor. Aproveitando esse momento, muitas companhias recorreram ao crédito para financiar aquisições e expansão.
Chefe de pesquisa em tecnologia da D.A. Davidson, Gil Luria explicou que boa parte desses financiamentos foi estruturada com base em um crescimento que parecia permanente, muitas vezes incentivado pelas próprias gestoras de private equity que controlavam essas empresas.
O cenário mudou quando clientes passaram a cortar gastos com tecnologia. As receitas perderam força, mas a dívida permaneceu. Na avaliação de Luria, o principal erro foi assumir que o nível de faturamento observado na pandemia seria sustentável.
Em uma carteira de US$ 73 bilhões monitorada pela MSCI, por exemplo, a fatia de empréstimos negociados com desconto superior a 20% avançou de 4,8% para 6,1% entre janeiro e setembro do ano passado. No quarto trimestre, caiu para 4,7%, ainda acima da média histórica de 4,4%.
A IA pode piorar o quadro
Para o chefe de pesquisa em crédito privado da MSCI, Patrick Warren, o mercado ainda não refletiu totalmente os impactos da IA, e os ativos privados costumam reagir com atraso de, aproximadamente, dois trimestres em relação aos mercados de ações.
Ferramentas como o Claude Cowork, da Anthropic, lançado em janeiro, intensificaram o receio de que diversas plataformas tradicionais de software percam relevância.
Na bolsa, o ETF iShares Expanded Tech-Software Sector caiu 24% no primeiro trimestre, recuperando parte das perdas com alta de 13% nos três meses seguintes.
Embora esse estresse seja pouco perceptível no mercado de títulos públicos, onde empresas de software representam uma parcela pequena das emissões, ele ganha relevância dentro do crédito privado.
Ao fim de 2025, companhias de tecnologia da informação respondiam por 17% de toda a dívida institucional monitorada pela MSCI, participação inferior apenas à do setor industrial e bem acima dos 12% registrados em 2019.
O problema vai além da tecnologia
O aumento da inadimplência e dos rebaixamentos não está restrito às empresas de software. Depois de três anos de juros elevados, a parcela da dívida do setor de saúde rebaixada em mais de 20% alcançou 7,4%, o maior nível em cinco anos.
Já empresas de segmentos como turismo, lazer e restaurantes registraram os piores rebaixamentos desde o início da pandemia. Alguns casos já se transformaram em perdas relevantes, mas os principais executivos do setor descartam um risco sistêmico e veem preocupações exageradas.
