Energia solar avança em ritmo recorde e renováveis devem superar carvão pela primeira vez

A Agência Internacional de Energia (AIE) publica anualmente um retrato do consumo global de eletricidade e confirma uma tendência: as fontes renováveis crescem, o carvão perde espaço e a transição energética segue seu curso.
Nesta quinta-feira, 23, o cenário se confirmou mais uma vez, mas o pano de fundo é a guerra no Oriente Médio e as disrupções no fluxo de gás natural liquefeito (GNL) pelo Estreito de Ormuz.
Em meio ao choque de mercado, os preços do gás na Ásia e na Europa chegaram aos patamares mais altos desde a crise energética de 2022 a 2023.
Apesar do contexto desafiador, a demanda global por eletricidade deve acelerar e passar de um crescimento de 3% em 2025 para 3,6% em 2026 e 3,8% em 2027.
Segundo a AIE, a alta é sustentada principalmente pela indústria e aumento no uso de aparelhos de ar-condicionado e eletrodomésticos, pela expansão dos veículos elétricos e "boom" dos data centers com o advento da inteligência artificial.
Mas as energias renováveisnão patinaram: pelo contrário, estão prestes a ultrapassar o carvão como maior fonte de geração de eletricidade do mundo em 2026, depois de praticamente empatarem em participação em 2025.
O avanço das renováveis, porém, não apagou o retorno do carvão em algumas regiões.
Os picos nos preços do gás natural, decorrentes da guerra, levaram países da Ásia e da Europa a migrar parte de sua geração de volta para o combustível fóssil poluente e em "uma resposta de curto prazo ao choque de preços", conforme a AIE.
Por outro lado, a organização destaca que o avanço das fontes renováveis ajudou a diversificar a oferta de eletricidade em diversos países, reforçando a segurança energética e amortecendo parte dos impactos da crise no mercado de gás.
Como reflexo, as emissões provenientes da geração de eletricidade devem crescer cerca de 1% neste ano, antes de estabilizar em 2027.
Já a geração global a gás deve ficar praticamente estáve e interrompendo o crescimento observado durante a maior parte da última década, com uma projeção de retomada de cerca de 1,5% em 2027.
Um dos alertas do relatório é que as incertezas geopolíticas "podem continuar pesando sobre as perspectivas".
Outro dado chama a atenção para os fatores climáticos: um evento de El Niño mais intenso do que o esperado poderá elevar ainda mais a demanda elétrica, ao aumentar a necessidade de refrigeração e, ao mesmo tempo, reduzir a geração hidrelétrica e eólica em algumas regiões.
O choque também não foi sentido de forma igual ao redor do mundo. Os preços médios de eletricidade na União Europeia e no Japão subiram mais de 30% na comparação anual no segundo trimestre, enquanto os preços nos Estados Unidos permaneceram estáveis e os da Índia avançaram menos de 10%.
Já em mercados asiáticos mais sensíveis a preços, como Paquistão e Bangladesh, o custo mais alto do GNL importado chegou a reprimir o próprio consumo de eletricidade.
Renováveis avançam, mas exigem redes mais flexíveis
O relatório também chama atenção para um efeito colateral do crescimento renovável: a ocorrência cada vez mais comum de preços negativos de eletricidade em alguns mercados, sinal de que a flexibilidade dos sistemas elétricos e o uso de armazenamento em baterias, ainda não acompanha o ritmo de entrada de renováveis na rede.
No Brasil, onde a matriz elétrica é majoritariamente de fontes renováveis, especialmente hidrelétricas, o avanço de solar e eólica também reforça a necessidade de soluções de armazenamento e gestão da demanda.
Em dezembro, o Ministério de Minas e Energia prevê realizar o primeiro leilão de baterias para escalar a tecnologia.
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O motor é a energia solar
A energia fotovoltaica segue como principal responsável pelo avanço. A geração solar global deve crescer cerca de 600 terawatts-hora (TWh) em 2026, repetindo o recorde anual alcançado em 2025, com expansão semelhante prevista para 2027.
O resultado: a solar deve ultrapassar a eólica neste ano e se tornar a segunda maior fonte de eletricidade limpa do planeta, atrás apenas da hidrelétrica.
Ao todo, a geração renovável deve crescer mais de 8% em 2026, elevando sua participação na matriz elétrica global de 33% em 2025 para 37% em 2027.
Ásia concentra onda de eletrificação
Os efeitos desse avanço já aparecem nas maiores economias asiáticas. A Índia tem papel cada vez mais relevante na alta da capacidade solar instalada, com participação conjunta saltando de quase 10% em 2025 para cerca de 17% neste ano.
No país, a solar e eólica combinadas cresceram mais de 25% no primeiro semestre e já respondem por 16,5% da matriz elétrica, ante 14% no mesmo período do ano anterior. No mesmo intervalo, a geração das usinas a gás caiu cerca de 15% na comparação anual e ficou mais de 40% abaixo dos níveis do primeiro semestre de 2024.
Na China, o crescimento das renováveis caminha ao lado da eletrificação da frota de veículos.
A produção de baterias de íons de lítio no gigante asiático cresceu 39,3% na comparação anual no primeiro semestre, enquanto a fabricação de veículos de nova energia (categoria que reúne elétricos a bateria, híbridos plug-in e elétricos com extensor de autonomia) recuperou o fôlego depois de um início de ano mais lento.
Até maio de 2026, a infraestrutura de recarga chinesa já somava mais de 22 milhões de eletropontos, alta de 45% em relação ao ano anterior.
Segundo a Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis, os veículos de nova energia responderam por 58,5% das vendas em junho, com o acumulado do semestre 7,3% acima do mesmo período de 2025.
