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23/07/2026
5 min

Energia solar avança em ritmo recorde e renováveis devem superar carvão pela primeira vez

Energia solar avança em ritmo recorde e renováveis devem superar carvão pela primeira vez

A Agência Internacional de Energia (AIE) publica anualmente um retrato do consumo global de eletricidade e confirma uma tendência: as fontes renováveis crescem, o carvão perde espaço e a transição energética segue seu curso.

Nesta quinta-feira, 23, o cenário se confirmou mais uma vez, mas o pano de fundo é a guerra no Oriente Médio e as disrupções no fluxo de gás natural liquefeito (GNL) pelo Estreito de Ormuz.

Em meio ao choque de mercado, os preços do gás na Ásia e na Europa chegaram aos patamares mais altos desde a crise energética de 2022 a 2023.

Apesar do contexto desafiador, a demanda global por eletricidade deve acelerar e passar de um crescimento de 3% em 2025 para 3,6% em 2026 e 3,8% em 2027.

Segundo a AIE, a alta é sustentada principalmente pela indústria e aumento no uso de aparelhos de ar-condicionado e eletrodomésticos, pela expansão dos veículos elétricos e "boom" dos data centers com o advento da inteligência artificial. 

Mas as energias renováveisnão patinaram: pelo contrário, estão prestes a ultrapassar o carvão como maior fonte de geração de eletricidade do mundo em 2026, depois de praticamente empatarem em participação em 2025.

O avanço das renováveis, porém, não apagou o retorno do carvão em algumas regiões.

Os picos nos preços do gás natural, decorrentes da guerra, levaram países da Ásia e da Europa a migrar parte de sua geração de volta para o combustível fóssil poluente e em "uma resposta de curto prazo ao choque de preços", conforme a AIE.

Por outro lado, a organização destaca que o avanço das fontes renováveis ajudou a diversificar a oferta de eletricidade em diversos países, reforçando a segurança energética e amortecendo parte dos impactos da crise no mercado de gás.

Como reflexo, as emissões provenientes da geração de eletricidade devem crescer cerca de 1% neste ano, antes de estabilizar em 2027.

Já a geração global a gás deve ficar praticamente estáve e  interrompendo o crescimento observado durante a maior parte da última década, com uma projeção de retomada de cerca de 1,5% em 2027.

Um dos alertas do relatório é que as incertezas geopolíticas "podem continuar pesando sobre as perspectivas".

Outro dado chama a atenção para os fatores climáticos: um evento de El Niño mais intenso do que o esperado poderá elevar ainda mais a demanda elétrica, ao aumentar a necessidade de refrigeração e, ao mesmo tempo, reduzir a geração hidrelétrica e eólica em algumas regiões.

O choque também não foi sentido de forma igual ao redor do mundo. Os preços médios de eletricidade na União Europeia e no Japão subiram mais de 30% na comparação anual no segundo trimestre, enquanto os preços nos Estados Unidos permaneceram estáveis e os da Índia avançaram menos de 10%.

Já em mercados asiáticos mais sensíveis a preços, como Paquistão e Bangladesh, o custo mais alto do GNL importado chegou a reprimir o próprio consumo de eletricidade.

Renováveis avançam, mas exigem redes mais flexíveis

O relatório também chama atenção para um efeito colateral do crescimento renovável: a ocorrência cada vez mais comum de preços negativos de eletricidade em alguns mercados, sinal de que a flexibilidade dos sistemas elétricos e o uso de armazenamento em baterias, ainda não acompanha o ritmo de entrada de renováveis na rede.

No Brasil, onde a matriz elétrica é majoritariamente de fontes renováveis, especialmente hidrelétricas, o avanço de solar e eólica também reforça a necessidade de soluções de armazenamento e gestão da demanda.

Em dezembro, o Ministério de Minas e Energia prevê realizar o primeiro leilão de baterias para escalar a tecnologia.

++ Leia mais: Energias renováveis atraem R$ 36,3 bilhões em financiamento em 2025 no Brasil e eólica ganha protagonismo

O motor é a energia solar

A energia fotovoltaica segue como principal responsável pelo avanço. A geração solar global deve crescer cerca de 600 terawatts-hora (TWh) em 2026, repetindo o recorde anual alcançado em 2025, com expansão semelhante prevista para 2027.

O resultado: a solar deve ultrapassar a eólica neste ano e se tornar a segunda maior fonte de eletricidade limpa do planeta, atrás apenas da hidrelétrica.

Ao todo, a geração renovável deve crescer mais de 8% em 2026, elevando sua participação na matriz elétrica global de 33% em 2025 para 37% em 2027.

Ásia concentra onda de eletrificação

Os efeitos desse avanço já aparecem nas maiores economias asiáticas. Índia tem papel cada vez mais relevante na alta da capacidade solar instalada, com participação conjunta saltando de quase 10% em 2025 para cerca de 17% neste ano.

No país, a solar e eólica combinadas cresceram mais de 25% no primeiro semestre e já respondem por 16,5% da matriz elétrica, ante 14% no mesmo período do ano anterior. No mesmo intervalo, a geração das usinas a gás caiu cerca de 15% na comparação anual e ficou mais de 40% abaixo dos níveis do primeiro semestre de 2024.

Na China, o crescimento das renováveis caminha ao lado da eletrificação da frota de veículos.

A produção de baterias de íons de lítio no gigante asiático cresceu 39,3% na comparação anual no primeiro semestre, enquanto a fabricação de veículos de nova energia (categoria que reúne elétricos a bateria, híbridos plug-in e elétricos com extensor de autonomia) recuperou o fôlego depois de um início de ano mais lento.

Até maio de 2026, a infraestrutura de recarga chinesa já somava mais de 22 milhões de eletropontos, alta de 45% em relação ao ano anterior.

Segundo a Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis, os veículos de nova energia responderam por 58,5% das vendas em junho, com o acumulado do semestre 7,3% acima do mesmo período de 2025.

AutorSofia Schuck
FonteExame
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