Enquanto Europa enfrenta onda de calor, 57 países lançam marco global contra combustíveis fósseis

"Londres está em chamas", afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, durante a Semana do Clima de Londres, na terça-feira, 23. A declaração soou como uma ironia: o grande evento de combate à crise climática acontece no epicentro da onda de calor na Europa.
Com temperaturas que podem beirar os 40°C, o Reino Unido e outros países estão em alerta máximo nesta semana. França, Espanha, Itália e Bélgica enfrentam calor extremo que já provoca mortes e impactos em serviços básicos.
À EXAME, brasileiros e líderes presentes no encontro climático relataram transtornos em metrôs e transporte e citaram o despreparo da cidade frente à alta dos termômetros. "A sensação é de umidade amazônica", disse um executivo.
É nesse cenário escaldante que 75 mil participantes participam da Semana do Clima e entregaram a Presidência da COP30 o relatório final da primeira Conferência sobre Transição para Fora dos Combustíveis Fósseis, realizada em Santa Marta, na Colômbia, em abril.
O documento é considerado o primeiro marco internacional consolidado para cooperação na saída dos fósseis e foi construído ao longo de seis meses com contribuições de 57 países, que juntos respondem por cerca de 30% da demanda global de energia e 20% da oferta mundial.
Os nós que travam a transição
O relatório confirma o que cientistas e ativistas repetem há anos, mas agora com respaldo diplomático de escala inédita: a transição para fora dos combustíveis fósseis já está em curso em várias regiões do mundo , mas segue bloqueada.
As principais travas identificadas são dependências econômicas históricas da indústria petrolífera, alto custo de capital, endividamento dos países em desenvolvimento e acesso restrito a financiamento para a transição.

Outro dado ancora toda a urgência do processo: combustíveis fósseis ainda respondem por mais de 75% das emissões globais de gases de efeito estufa.
Uma das conclusões mais relevantes é o reposicionamento político do debate.
Abandonar os combustíveis fósseis deixa de ser tratado apenas como "imperativo climático" e passa a ser enquadrado como agenda de transformação econômica e soberania energética, especialmente para os países do Sul Global, que carregam dependências extrativistas históricas.
Segundo os países, enquanto as estruturas econômicas e de governança seguirem sustentando a extração de fósseis poluentes, nenhuma meta climática será suficiente.
Do clima à economia: a virada de chave
O relatório vai além e aponta uma crítica implícita à fragmentação dos processos multilaterais: ambição climática isolada não funciona.
Para que a transição aconteça, é preciso alinhar comércio, dívida, tributação, investimento e finanças ao mesmo objetivo. A mensagem é de que as negociações climáticas na ONU precisam conversar com as trativas comerciais, financeiras e de desenvolvimento, caso contrário o "esforço será insuficiente".
Também em Londres, nove governos — incluindo Turquia, anfitriã da COP31, e Reino Unido — lançaram a campanha Electrify Now, com meta de elevar a participação da eletricidade no consumo final de energia para 35% até 2035.
A iniciativa contou com apoio da Agência Internacional de Energia e reforça a eletrificação como uma das peças centrais para a agenda climática global.
No relatório dos fósseis, foram geradas 1.238 propostas concretas e 607 contribuições escritas, que funcionarão como uma base para os próximos passos.
A segunda conferência sobre o fim dos combustíveis fósseis será coorganizada por Tuvalu e Irlanda em 2027, com o objetivo de aprofundar a implementação das ações acordadas e avançar em três eixos: roteiros nacionais e regionais de transição, reforma da arquitetura financeira e descarbonização das balanças comerciais.
