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24/06/2026
5 min

Enquanto Europa enfrenta onda de calor, 57 países lançam marco global contra combustíveis fósseis

Enquanto Europa enfrenta onda de calor, 57 países lançam marco global contra combustíveis fósseis

"Londres está em chamas", afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, durante a Semana do Clima de Londres, na terça-feira, 23. A declaração soou como uma ironia: o grande evento de combate à crise climática acontece no epicentro da onda de calor na Europa.

Com temperaturas que podem beirar os 40°C, o Reino Unido e outros países estão em alerta máximo nesta semana. França, Espanha, Itália e Bélgica enfrentam calor extremo que já provoca mortes e impactos em serviços básicos.

À EXAME, brasileiros e líderes presentes no encontro climático relataram transtornos em metrôs e transporte e citaram o despreparo da cidade frente à alta dos termômetros. "A sensação é de  umidade amazônica", disse um executivo.

É nesse cenário escaldante que 75 mil participantes participam da Semana do Clima e entregaram a Presidência da COP30 o relatório final da primeira Conferência sobre Transição para Fora dos Combustíveis Fósseis, realizada em Santa Marta, na Colômbia, em abril.

O documento é considerado o primeiro marco internacional consolidado para cooperação na saída dos fósseis e foi construído ao longo de seis meses com contribuições de 57 países,  que juntos respondem por cerca de 30% da demanda global de energia e 20% da oferta mundial.

Os nós que travam a transição

O relatório confirma o que cientistas e ativistas repetem há anos, mas agora com respaldo diplomático de escala inédita: a transição para fora dos combustíveis fósseis já está em curso em várias regiões do mundo , mas segue bloqueada.

As principais travas identificadas são dependências econômicas históricas da indústria petrolífera, alto custo de capital, endividamento dos países em desenvolvimento e acesso restrito a financiamento para a transição.

Outro dado ancora toda a urgência do processo: combustíveis fósseis ainda respondem por mais de 75% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Uma das conclusões mais relevantes é o reposicionamento político do debate.

Abandonar os combustíveis fósseis deixa de ser tratado apenas como "imperativo climático" e passa a ser enquadrado como agenda de transformação econômica e soberania energética, especialmente para os países do Sul Global, que carregam dependências extrativistas históricas.

Segundo os países, enquanto as estruturas econômicas e de governança seguirem sustentando a extração de fósseis poluentes, nenhuma meta climática será suficiente.

Do clima à economia: a virada de chave

O relatório vai além e aponta uma crítica implícita à fragmentação dos processos multilaterais: ambição climática isolada não funciona.

Para que a transição aconteça, é preciso alinhar comércio, dívida, tributação, investimento e finanças ao mesmo objetivo. A mensagem é de que as negociações climáticas na ONU precisam conversar com as trativas comerciais, financeiras e de desenvolvimento, caso contrário o "esforço será insuficiente".

Também em Londres, nove governos — incluindo Turquia, anfitriã da COP31, e Reino Unido — lançaram a campanha Electrify Now, com meta de elevar a participação da eletricidade no consumo final de energia para 35% até 2035.

A iniciativa contou com apoio da Agência Internacional de Energia e reforça a eletrificação como uma das peças centrais para a agenda climática global.

No relatório dos fósseis, foram geradas 1.238 propostas concretas e 607 contribuições escritas, que funcionarão como uma base para os próximos passos.

A segunda conferência sobre o fim dos combustíveis fósseis será coorganizada por Tuvalu e Irlanda em 2027, com o objetivo de aprofundar a implementação das ações acordadas e avançar em três eixos: roteiros nacionais e regionais de transição, reforma da arquitetura financeira e descarbonização das balanças comerciais.

AutorSofia Schuck
FonteExame
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