Enquanto o Brasil discute fim do 6x1, Alemanha quer trabalhar mais horas
Enfrentando crise industrial prolongada, empresários alemães alegam perda de competitividade do país devido às baixas horas de emprego e elevados custos de produção

Quatro décadas depois de trabalhadores alemães conquistarem a jornada de 35 horas, grandes empresas do país voltaram a defender o aumento do tempo de trabalho como resposta à perda de competitividade da indústria.
Segundo o Financial Times (FT), executivos de companhias como Mercedes-Benz e Stihl argumentam que os elevados custos trabalhistas estão prejudicando a capacidade da Alemanha de competir internacionalmente. A proposta é voltar às 40 horas semanais sem aumento proporcional dos salários.
Martin Brudermüller, presidente do conselho supervisor da Mercedes-Benz, afirmou que o custo do trabalho tornou-se excessivamente elevado em comparação com o de outros países. Para ele, a Alemanha também perdeu parte da vantagem de produtividade que mantinha em relação aos concorrentes.
“A mão de obra tornou-se cara demais aqui, segundo padrões internacionais”, disse Brudermüller ao jornal alemão Handelsblatt em junho, argumentando que o país havia perdido sua “vantagem de produtividade em relação a concorrentes importantes”.
“Deveríamos considerar seriamente um retorno à jornada de 40 horas semanais”, acrescentou.
Crise industrial
Fabrica da Thyssen Krup, na Alemanha: a indústria pesada segue como coluna vertebral da produção alemã, mas enfrenta período de crise
A jornada de 35 horas foi conquistada após uma das maiores disputas trabalhistas da Alemanha do pós-guerra. Em 1984, dezenas de milhares de metalúrgicos da então Alemanha Ocidental entraram em greve por sete semanas, dando início a um processo que gradualmente reduziu a jornada de trabalho.
Atualmente, a jornada de 35 horas é o padrão estabelecido por acordos coletivos para cerca de um quinto dos trabalhadores alemães, especialmente nos setores automotivo, de engenharia, de ferro e de aço. Considerando toda a economia, a semana média de trabalho é de 37,8 horas.
O custo de uma hora de trabalho na indústria alemã chega a €49,50, segundo dados citados pelo Financial Times. O valor é 47% superior à média da União Europeia, de €33,70, e mais de três vezes o registrado na Hungria, de €15,60.
A pressão sobre os custos ocorre enquanto a indústria alemã atravessa uma crise prolongada — desde o pico registrado no fim de 2017, a produção industrial do país caiu em mais de 15%, afetada pela alta dos preços da energia, pela concorrência — principalmente chinesa —, pelas tarifas americanas e pela transição para veículos elétricos.
Durante décadas, os custos mais elevados eram compensados por vantagens como a infraestrutura, a estabilidade política, a qualificação profissional e a concentração de empresas e fornecedores. Segundo especialistas consultados pelo FT, porém, esse conjunto de benefícios perdeu força à medida que a diferença de custos em relação ao Leste Europeu aumentou.
A discussão ganhou ainda mais urgência diante da queda do emprego industrial. Apesar da redução da produção, cerca de 6,5 milhões de pessoas ainda trabalham no setor, mas as consultorias esperam novas demissões nos próximos anos.
Marcus Berret, diretor global da consultoria Roland Berger, estima que o número de trabalhadores da indústria alemã poderá cair para menos de 5 milhões. Atualmente, entre 12 mil e 15 mil empregos industriais desaparecem por mês, enquanto grandes companhias, como a Volkswagen, já sinalizaram novos cortes.
Economia e sindicatos
Protesto do IG Metall, sindicato alemão que luta pela semana de 35 horas (Sina Schuldt/picture alliance/Getty Images)
Para economistas, uma jornada mais longa poderia ajudar algumas empresas a reduzir o custo do trabalho por unidade produzida. Passar de 35 para 40 horas representa um aumento de aproximadamente 14% no tempo trabalhado, sem elevar os gastos semanais com salários caso as horas adicionais não sejam remuneradas.
Os sindicatos, porém, rejeitam a ideia de que a jornada de 35 horas seja uma barreira rígida para as empresas. A IG Metall, o maior sindicato alemão, afirma que os acordos coletivos já oferecem mecanismos para aumentar ou reduzir as horas de trabalho conforme as necessidades de cada companhia.
O conflito envolve duas visões sobre o futuro do emprego industrial. Para os sindicatos, trabalhar mais horas pode fazer com que as empresas precisem de menos funcionários; para economistas e empresários, reduzir o custo por unidade pode manter as fábricas competitivas e impedir que a produção e os empregos sejam transferidos para outros países.
O debate ocorre às vésperas das negociações salariais entre sindicatos e empresas do setor metalúrgico, previstas para começar em outubro. Ainda não está claro se a jornada de 40 horas será formalmente colocada à mesa, mas a discussão revela a dimensão da crise enfrentada pela indústria alemã.
