Entenda o balanço do Google: por que os US$ 112 bilhões de lucro não fizeram as ações subirem

A Alphabet, dona do Google, divulgou na quarta-feira, 22, lucro líquido de US$ 112,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, quase quatro vezes o registrado um ano antes e um dos maiores resultados trimestrais já apresentados por uma empresa. Ainda assim, a ação caiu.
Entender por quê é entender como se lê um balanço de big tech na era da inteligência artificial.
1. O lucro não veio da operação
O primeiro ponto é o mais contraintuitivo: a Alphabet lucrou mais do que suas próprias operações produziram. O lucro operacional, o que sobra depois de pagar os custos do negócio, foi de US$ 40,8 bilhões, com alta de 30%. O que empurrou o número final para US$ 112,1 bilhões foi uma linha chamada "ganhos não operacionais": cerca de US$ 98 bilhões vindos da valorização de participações que a empresa tem em outras companhias.
Traduzindo: não é dinheiro que entrou pela porta da frente vendendo anúncios ou nuvem. É a reavaliação contábil de investimentos do portfólio, com destaque para a fatia de cerca de 5% na SpaceX, remarcada após a abertura de capital da empresa de Elon Musk.
É lucro real do ponto de vista contábil, mas que não se repete no trimestre seguinte. Por isso o mercado ignorou o número gigante e foi olhar as outras linhas.
2. A notícia está na nuvem
O dado que realmente move o negócio é o Google Cloud: receita de US$ 24,8 bilhões, alta de 82% em um ano. Uma divisão desse tamanho crescendo nesse ritmo é raríssimo, e mostra para onde o dinheiro corporativo está indo, empresas comprando infraestrutura e ferramentas de IA.
Isso muda a natureza da companhia. Por duas décadas, o Google foi, no essencial, uma empresa de anúncios com projetos paralelos. A nuvem já responde por um quinto da receita e cresce cinco vezes mais rápido que a publicidade de busca.
Sundar Pichai afirmou que cerca de 90% das empresas da Fortune 100 usam o Gemini Enterprise, e que as APIs da companhia processam 22 bilhões de tokens por minuto, contra 16 bilhões três meses antes. É a materialização do que a EXAME mostrou em reportagem de capa sobre a virada do Google na corrida da IA.
3. A busca não morreu e esse era o maior medo
Quando o ChatGPT foi lançado, em novembro de 2022, o Google declarou internamente um "código vermelho". A tese pessimista era simples: se as pessoas passassem a perguntar direto a uma IA, o link patrocinado, motor financeiro da empresa, perderia sentido.
O balanço diz o contrário, ao menos por ora. A receita de busca e serviços associados cresceu 17%, para US$ 63,3 bilhões, e segue representando mais da metade de tudo que a empresa fatura.
O Gemini chegou a 950 milhões de usuários ativos mensais, encostando no ChatGPT. Em vez de canibalizar a busca, a IA vem sendo empacotada dentro dela. Em entrevista exclusiva à EXAME, Pichai defendeu justamente essa convivência entre resposta rápida e acesso à web aberta. A pergunta em aberto é se o modelo de anúncios sobrevive quando a resposta vem pronta, sem clique.
4. A conta que assusta
Aqui está o motivo real da cautela. A Alphabet elevou a projeção de investimento em infraestrutura para 2026 à faixa de US$ 195 bilhões a US$ 205 bilhões, ante os US$ 180 bilhões a US$ 190 bilhões anunciados antes, e avisou que o número deve subir de novo em 2027. Só neste trimestre foram US$ 44,9 bilhões em capex, o dobro de um ano atrás, o que levou o fluxo de caixa livre a ficar negativo em US$ 5,86 bilhões.
É dinheiro em data centers, chips e energia. Quem acredita na tese vê uma empresa comprando a infraestrutura do próximo ciclo, movimento que todas as big techs vêm acelerando. Quem duvida vê margem sendo consumida hoje por receita que talvez só apareça daqui a anos.
5. Onde olhar no próximo trimestre
Três linhas resumem o teste: se a nuvem sustenta crescimento perto dos 80% ou desacelera; se a margem operacional, hoje em 34%, resiste ao aumento do capex; e se a busca segue crescendo dois dígitos mesmo com respostas de IA reduzindo cliques.
