Entre a genialidade e o controle: o legado de Steve Jobs 15 anos após a sua morte
Do rigor obsessivo aos produtos que revolucionaram smartphones e computadores: como as contradições e a visão de Steve Jobs definiram o modo de produzir tecnologia 15 anos após sua partida

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Quinze anos depois da morte de Steve Jobs, o cofundador da Apple permanece associado à integração entre tecnologia, design e experiência do consumidor. Seu perfeccionismo ajudou a definir os produtos da companhia, mas também marcou uma gestão de conflitos e exigências. A trajetória incluiu a saída da Apple, a NeXT, a Pixar e o retorno que antecedeu o iPhone.
Para muitos, Steve Jobs era a personificação da inovação tecnológica. Para outros, era um chefe controlador e frequentemente excêntrico. Parecia ter duas faces, como uma máscara de teatro: enquanto uma mudou o mercado de smartphones, a outra era muito menos glamurosa.
Durante o desenvolvimento do primeiro iPhone, ele chegou numa segunda-feira ao encontro do designer Jony Ive com a notícia de que não havia dormido porque percebera que não gostava do aparelho.
A equipe trabalhava no desenho há nove meses. Para Jobs, porém, a estrutura de alumínio disputava atenção com a tela, que deveria ser a protagonista. Mandou mudar o projeto e avisou que seria necessário trabalhar à noite e nos fins de semana. Mais tarde, descreveu a disposição da equipe para refazer o trabalho como um de seus momentos de maior orgulho na Apple, segundo a biografia do executivo escrita por Walter Isaacson.
Nesta segunda-feira, 5, completam-se 15 anos de sua morte, aos 56 anos. Jobs deixou uma empresa que havia fundado, perdido e recuperado — e uma forma de pensar produtos em que a tecnologia precisava obedecer à experiência de quem a usaria. O controle que tornava a convivência difícil também se fazia presente nos aparelhos, já que, da embalagem ao sistema operacional, pouca coisa deveria escapar à sua aprovação.
Era uma forma de trabalhar que aproximava tecnologia de artesanato. Paul Jobs, seu pai adotivo, havia lhe ensinado que as partes escondidas de um móvel mereciam o mesmo acabamento das superfícies expostas. A lição reapareceu na fábrica: um produto precisava ser bem construído por dentro, mesmo quando o consumidor só pudesse admirar o lado de fora.
Criado por Paul e Clara na Califórnia, Jobs cresceu entre a eletrônica do Vale do Silício e a contracultura. Abandonou a graduação no Reed College, mas continuou a frequentar aulas que lhe interessavam. Uma delas era caligrafia. No discurso que fez em Stanford, em 2005, disse que o aprendizado sobre letras e espaçamento reapareceu no Macintosh, lançado em 1984.
A passagem pela Índia e o interesse pelo budismo zen também compuseram sua formação. Na empresa, a preferência pela simplicidade convivia com a disposição para tornar o trabalho dos outros mais difícil. Eliminar um botão, reorganizar um menu ou refazer uma peça podia exigir semanas de engenharia. Jobs queria que essa complexidade permanecesse nos bastidores.
A Apple nasceu em 1976, fundada por Jobs, Steve Wozniak e Ronald Wayne, que deixou o negócio pouco depois. Wozniak dominava a engenharia dos primeiros computadores; Jobs enxergava a possibilidade de transformá-los em produtos e construir uma empresa em torno deles. A parceria estabeleceu uma característica de sua carreira: ele dependia de especialistas, mas tinha convicções próprias sobre o que deveriam entregar.
Essas convicções nem sempre admitiam uma conversa tranquila. Jobs podia rejeitar uma ideia com agressividade e retomá-la depois como se fosse uma descoberta. Dividia pessoas e trabalhos em categorias extremas, entre o excepcional e o imprestável. Na descrição dos colegas, seu “campo de distorção da realidade” combinava persuasão e insistência para fazer equipes aceitarem tarefas que consideravam impossíveis.
Havia quem resistisse. Joanna Hoffman e Debi Coleman, integrantes da equipe do Macintosh, estavam entre os profissionais que enfrentavam suas exigências. Nos relatos reunidos por Walter Isaacson, Jobs respeitava quem defendia o trabalho com convicção, embora isso não impedisse conflitos. Sua capacidade de inspirar lealdade existia ao lado das humilhações, não no lugar delas.
A necessidade de controlar os detalhes também organizava o produto. A Apple procurava desenvolver hardware e software como partes de uma mesma experiência, com limites ao que terceiros podiam alterar. A conveniência para o comprador e o controle da empresa avançavam juntos. O aparelho deveria funcionar como Jobs imaginava, da primeira interação à última.
O fundador que precisou recomeçar
Em 1985, ele perdeu o controle da própria posição. A relação com John Sculley, executivo que havia ajudado a recrutar da Pepsi, se deteriorou depois do lançamento do Macintosh. O conselho apoiou Sculley, retirou de Jobs suas responsabilidades operacionais e o fundador deixou a Apple.
A NeXT, criada naquele ano, mostrou o alcance e os limites de suas exigências. Jobs insistiu num computador de desenho elaborado, com gabinete em forma de cubo, mas o preço e as dificuldades comerciais restringiram seu mercado. O software teve destino diferente: acabaria na base da renovação tecnológica dos Macs.
Na Pixar, sua participação tomou outra forma. Jobs comprou a divisão de computação gráfica da Lucasfilm em 1986 e sustentou a empresa durante anos de dificuldades. O sucesso de ‘Toy Story’, em 1995, veio do trabalho de uma equipe liderada por criadores como Ed Catmull e John Lasseter. Ali, segundo Isaacson, aprendeu a deixar espaço para uma especialidade que não era a sua.
A Apple anunciou a compra da NeXT no fim de 1996. De volta à companhia, Jobs assumiu o comando interino em 1997 e reduziu uma linha dispersa de computadores a quatro categorias: modelos de mesa e portáteis, para consumidores e profissionais. Também fez um acordo com a Microsoft. A reconstrução exigia concentração, mas também convivência com um antigo rival.
Com o designer Jony Ive, aprofundou a parceria que moldaria os aparelhos da nova fase. Tim Cook, contratado em 1998, reorganizou as operações. Jobs continuava a interferir nos detalhes, mas a empresa precisava de profissionais capazes de transformar suas escolhas em produtos fabricados e vendidos em escala.
O iMac, em 1998, tornou essa mudança visível com seu corpo colorido. O iPod, em 2001, levou a Apple à música; a iTunes Store, em 2003, conectou o aparelho à compra de faixas. Em 2007, na apresentação do primeiro iPhone, Jobs anunciou um tocador de músicas, um telefone e um dispositivo de internet. Os três eram um único aparelho.
O palco oferecia uma versão mais organizada do homem que comandava os bastidores. A camiseta preta de gola alta, o jeans e as pausas das apresentações ajudavam a concentrar a atenção no produto. A preparação e a engenharia que sustentavam aquela simplicidade ficavam fora da vista.
Na família, os conflitos não obedeciam ao roteiro dos lançamentos. Jobs inicialmente negou a paternidade de Lisa, filha de Chrisann Brennan, nascida em 1978. Mais tarde, assumiu responsabilidades e se aproximou dela, mas a relação continuou difícil. Com Laurene Powell, com quem se casou em 1991, teve Reed, Erin e Eve.
Perto do fim, explicou a Isaacson por que aceitara contar sua história. “Eu queria que meus filhos me conhecessem”, disse. Jobs deixou o cargo de CEO em agosto de 2011, e Cook assumiu a liderança. Morreu em 5 de outubro.
Ao avaliar o que havia construído, Jobs atribuía importância à própria organização. Como Isaacson contou em entrevista à EXAME, em 2013, ele lhe disse: “Fazer produtos incríveis é difícil. Mais difícil ainda é construir uma companhia com capacidade de fazer produtos incríveis sempre”.
Às vésperas dos 20 anos desde o lançamento do primeiro iPhone, ele ainda permanece como inspiração para o Vale do Silício — sua sombra ainda paira sobre as cadeiras ocupadas por muitos fundadores.
